Fascinante e dinâmico. Mais que um esporte, o pólo eqüestre é um estilo de vida que sucede gerações e atrai cada vez mais adeptos à modalidade Não é de hoje que o brasileiro adora ver uma bola rolando num campo onde o verde da grama é como um tapete onde pisam majestosos jogadores, todos em direção ao gol. Mas no pólo eqüestre, esporte em ascensão no Brasil, a disputa para alcançar o gol é um pouco diferente. Em campo jogadores milionários de sobrenomes tradicionais sobre cavalos Puro-Sangue Inglês, empunham um taco de três metros com a mão direita. Cada equipe é composta por quatro jogadores que têm de acertar a bola de oito centímetros de diâmetro. O gol tem uma largura de 7,3 metros. As medidas do campo variam de 230 a 275 metros de comprimentos e de 130 a 146 metros de largura. A partida é jogada em seis tempos de sete minutos cada e em caso de empate é decidida no tempo adicional. Considerado uma modalidade elitista que tem como marca registrada a sofisticada tradição de um hobbie aristocrático, o pólo eqüestre é tradicional em mais de 50 países e quase sempre é praticado por empresários milionários e personalidades de destaque, como o príncipe Charles e seu filho William. Apesar das diversas versões sobre o país de sua origem (sabe-se apenas que o pólo nasceu no continente asiático) o esporte ganhou destaque na Índia, durante a colonização inglesa no século 18. Daí em diante, foram os ingleses os responsáveis pela ‘reformulação’ do jogo: estabeleceram regras, diminuíram o número de jogadores em campo e o difundiram em outros países – inclusive no Brasil onde o esporte chegou no início do século 20.
A exemplo do que acontece no mundo, no Brasil o pólo também é preferência entre empresários e milionários como Ricardo Mansur, André e Fábio Diniz, João Paulo Ganon, José Eduardo Matarazzo Kalil e tantos outros que integram a lista de quase 500 polistas brasileiros e sustentam um luxo destinado a poucos. Isso porque a seleta lista de pólo ostenta números impactantes que se destinam aos gastos com a modalidade. “Boa condição financeira e disponibilidade de tempo para treinos também são fatores essenciais aos jogadores”, ressalta o polista Mauro Egydio de Souza Aranha, da Fazenda Santa Edwirges, de Avaré (SP), onde é feito o treinamento de pólo. O investimento mais alto é a aquisição do cavalo da raça Puro-Sangue Inglês (PSI) – em uma partida, um jogador usa em média seis cavalos, um para cada tempo do jogo. Os animais podem ser encontrados a preços que vão desde R$ 2,5 mil (para adestramento, a partir dos 2 anos e meio de idade do animal), R$ 8 a 10 mil (para torneios de baixo handicap) até US$ 20 mil (para torneios de alto handicap). “Os mais indicados são os cavalos com baixa estatura, de 1,45 a 1,58 metros de altura. Os valores variam de acordo com o rendimento em campo, idade e até a genética do animal. O PSI é o mais comum, mas alguns torneios no Brasil já foram disputados com cavalos e éguas da raça Pólo Argentino”, acrescenta o veterinário e diretor da Vetpólo Clínica Veterinária, Pierre Barnabé Escrodo.
Com a compra do animal é preciso adquirir estrutura como cocheiras, veterinário, tratador, etc. Os gastos incluem também equipamentos como tacos, bolas, joelheiras, capacetes, luvas, botas, chicote e espora. Os preços variam tanto quanto a oferta de grifes nacionais e importadas. Embora o número de polistas brasileiros seja pouco expressivo, eles comemoram o tímido aumento de jogadores bem como a proliferação de campos e clubes no Brasil. “Esse é um sinal de que o pólo está se desenvolvendo ano após ano”, enaltece o presidente da recém formada Confederação Brasileira de Pólo, Claudemir Siquini. De acordo com Ronald Kenneth Scott, vice-presidente da Confederação Brasileira de Pólo e diretor da Federação Paulista de Pólo, hoje existem mais de 60 recintos, entre campos de clubes e particulares. ”Atualmente o Estado de São Paulo é o mais importante e mais expressivo na prática de pólo. Em seguida, estão Rio Grande do Sul, Rio de Janeiro, Mato Grosso do Sul e Brasília”, confirma Scott.
Entre os campos mais badalados destacam-se o Sociedade Hípica Paulista e Clube Hípico Santo Amaro, na capital paulista, Clube Hípico de Colina, em Colina (SP), Itanhangá Golf Club, no Rio de Janeiro (RJ), El Paraíso Polo Club, em Viamão (RS). Mas em São José do Rio Preto a modalidade ainda não invadiu os campos das escolas hípicas instaladas na cidade. O mais importante deles é o Helvetia Pólo Country Club, localizado em Indaiatuba (SP) – cidade, aliás, considerada a mais expressiva no esporte no Estado de São Paulo. “É lá (no Helvetia) onde treinam 50% dos jogadores brasileiros”, ressalta Siquini. O Clube concentra 13 campos em seu interior (aos cinco originais foram incorporados oito campos com novo tipo de gramado na área Helvetia Village) e cerca de 30 campos particulares na região. Responsável pela realização dos principais campeonatos do país, a temporada no Helvetia Pólo Country Club vai de abril a outubro. O calendário inclui torneios como Aberto do Estado de São Paulo, Aberto do Helvetia, Copa de Ouro e Campeonato Brasileiro de Pólo.
Um esporte completoBelas paisagens, contato com a natureza, disciplina e condicionamento físico. A prática do esporte pode ser considerada um ‘pólo’ de benefícios para os jogadores. “Pólo é um estilo de vida. Além das sensações que o jogador sente quando está dentro de campo taqueando e disputando a bola, o jogo e os campeonatos liberam adrenalina, criam competitividade, estimulam o trabalho em equipe, favorecem ambiente agradável e familiar onde grandes amizades são feitas. O contato com a natureza e com o animal ajudam a sair da rotina, aliviar o estresse e traz benefícios como força, agilidade e flexibilidade”, diz Siquini.
Porém, os benefícios trazidos pelo esporte são frutos de muita dedicação aos treinos e cuidados com o animal. “O pólo exige disciplina e concentração. A relação do cavaleiro com o cavalo também é importante. Tenho contato com os animais diariamente, acompanho a criação e seleção de cada um. Outro fator que contribui para um bom polista é começar o quanto antes”, confessa o empresário e jogador de pólo Ricardo Mansur que não abre mão de sua rotina de treinos no Helvetia Pólo Country Club. Apaixonado pelo esporte desde criança acrescenta. “O pólo ainda tem muito a crescer com a conquista de mais divulgação e patrocínios” defende.
Embora pouco difundido no Brasil, a modalidade conta com alguns dos melhores polistas do mundo. No topo da lista de jogadores com maior número de handicaps estão Rodrigo Andrade (8 gols), Fábio Diniz (8 gols), Olavo Novaes (8 gols), João Paulo Ganon (7 gols), Ricardo Mansur (7 gols), André Diniz (7 gols), Luiz Eduardo Cunha (7 gols), Alexandre Ribeiro (7 gols), Aluisio Villela Rosa (7 gols), Ubajara Andrade (7 gols). Apesar da presença maciça (e quase unânime) do sexo masculino, equipes exclusivamente femininas começam a entrar na disputa por títulos em competições, revelando que ‘elas’ também estão aptas à prática de um esporte que exige muita força física. “No Brasil existem algumas jogadoras femininas. No pólo é possível encontrar praticantes desde os 12 até 70 anos”, diz Aranha.
Cavaleiros de honraNão é apenas o título de melhores jogadores do Brasil e a adrenalina que os polistas têm em comum. No sofisticado mundo do pólo, o culto ao esporte é uma herança passada de geração em geração. É o caso da família Junqueira Novaes, umas das responsáveis por implantar a modalidade no interior do Estado de São Paulo. “Há muito tempo nossa família pratica pólo. Tudo começou com meu bisavô na fazenda São João, em Colina. Quando percebi já estava envolvido. Meu primeiro campeonato foi aos 10 anos de idade”, relata o jogador João Junqueira Novaes que pertence a quarta geração da família e mantém a tradição ao lado dos irmãos Olavo Junqueira Novaes, Henrique Junqueira Novaes e Sílvio Ribeiro Junqueira Novaes.
O jovem de 18 anos treina diariamente por quatro horas na fazenda dos Junqueira Novaes, a Santa Helena Pólo Farm, em Bebedouro (SP) onde também adestra cavalos e dá aulas para iniciantes da modalidade. Tanta dedicação lhe rendeu quatro gols de handicap e inúmeros títulos como de vice-campeão do Aberto do Estado de São Paulo. Mas não é apenas esse o motivo que o mantém no esporte. João confessa que a oportunidade de participar de campeonatos fora do país também é tentadora. “O pólo é um passaporte para o mundo. Participei de jogos no Chile, Holanda e Inglaterra”, conta o jogador que embarcou no início de março para a temporada de Verão em Sotogrande, na Espanha, onde permanece até setembro deste ano. Assim como João Novaes, Ricardo Mansur também herdou do pai a paixão e dedicação pelo esporte. “Desde pequeno já tinha um contato grande com pólo, pois minha família já praticava há muito tempo”, lembra o jogador que literalmente veste a camisa da equipe: a de número 4 como beque, as de números 2 e 3 como armador e a de número 1 como atacante. “Já joguei na Argentina, França, EUA, Inglaterra. Mas o melhor mesmo é jogar pela Seleção Brasileira da qual faço parte”, confessa Rico que já tem planos para 2007. “Esse ano além de jogar fora do Brasil, pretendo participar bastante da temporada brasileira que vai de abril ate início de outubro.”
Muito além do futebolA eterna disputa entre Brasil x Argentina não se limita ao futebol. Dos gramados dos estádios, o desafio também invadiu os campos de pólo eqüestre. Prova disso é que assim como a Argentina, o Brasil também é tricampeão mundial na categoria, título conquistado pela Seleção Brasileira de Pólo, em Chantilly (França), ao vencer o 7º Campeonato Mundial de Pólo da Federação Internacional de Pólo (FIP), em setembro de 2004. Apesar da vitória Ronald Scott diz que não há comparações entre os dois países já que ‘los compañeros’ são considerados os reis do pólo na América Latina. Também não é para menos. Quase tão popular quanto o futebol, a modalidade reúne milhares de polistas entre homens e mulheres (alguns deles consagrados com 10 gols de handicap) e centenas de clubes vinculados à Asociación Argentina de Polo (APP). “A Argentina tem 10 mil jogadores e 700 campos”, cita Mauro Aranha.
É lá também que são realizados três dos mais importantes torneios: o Campeonato Argentino Abierto de Pólo, o Campeonato Abierto del Tortugas e o Campeonato Abierto del Hurlinglam Club. “A superioridade da Argentina em número de campos, estrutura e handicaps é tanta que não se pode falar em rivalidade”, confessa Scott. Mas para o Siquini a ‘partida’ para o Brasil está apenas começando. Confiante na consolidação do esporte, ele acredita que o desempenho dos jogadores e ascensão do mesmo pode levar o país do futebol ser também o país do pólo. “A Confederação Brasileira de Pólo tem como objetivos homogeneizar conceitos, disciplinar a conduta dentro e fora de campo, incentivar o esporte nacionalmente, promover intercâmbios internacionais e garantir representatividade no cenário mundial.”
Serviço:■ Asociación Argentina de Polo
www.aapolo.com■ Claudemir Siquini – Confederação Brasileira de Pólo
www.siquini.com.br■ Confederação Brasileira de Hipismo
www.cbh-hipismo.com.br ■ Fazenda Santa Edwirges -(11) 3331-9054
www.polobrasil.com.br ■ Helvetia Pólo Country Club
www.helvetiapolo.com.br■ Ronald Kenneth Scott – Federação Paulista de Pólo - (11) 5041-8162
■ Santa Helena Pólo Farm
www.polosantahelena.com.br■ Vetpólo Clínica Veterinária - (19) 3801-3500
www.vetpolo.com.brV&A