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As mulheres de Cleyde
A atriz Cleyde Yáconis participa do FIT
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Divulgação
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Cacá Amaral e Cleyde Yáconis em cena do espetáculo “O Caminho para Meca” |
Ariana Pereira e Igor Galante
Dar leveza ao drama de uma mulher nascida e criada em uma pequena cidade da África do Sul que, depois de se tornar viúva, decide romper com os costumes conservadores e culto obrigatório da fé protestante é missão para Cleyde Yáconis, em “O Caminho Para Meca”. Ao conversar com a atriz, no entanto, é perceptível que a missão não vai ser tão difícil assim (para ela, é claro). Mesmo tratando de assuntos pouco confortáveis, ela consegue manter um tom leve, suave e completamente acolhedor. Rosto conhecido na TV, cinema e teatro, Cleyde Yáconis pode se gabar de colecionar, ao longo de mais de meio século de profissão, mais de 90 personagens. Cinco que ela chama, carinhosamente, de “minhas mulheres”. Sobre elas, os rumos do teatro nacional e a carreira é o que fala a atriz em entrevista ao Diário da Região.
Diário da Região - Quem é sua personagem? Cleyde Yáconis - Helen Martins é uma mulher extraordinária. Eu não a conhecia. Me apaixonei, o público se apaixona, é uma mulher exemplo de sabedoria, de força. Até os 50 anos, era uma mulher comum, não era uma intelectual, morava em um lugarejo na África do Sul, sem nenhum contato com arte. Como é que essa mulher, de repente, fica viúva e passa a ser uma escultora extraordinária? E sofre os maiores vexames no lugarejo, é chamada de demoníaca, bruxa, torna-se motivo de piada. E não desiste. Além disso, a peça tem um texto que não é superintelectual, muito simples, tem humor, um espetáculo leve, em que você recebe mil conhecimentos, problemas, interrogações, e, ainda assim, sai do teatro mais leve. Isso que é gostoso. Helen é forte, é fraca, é um caleidoscópio. Dependendo do lado que você olha, ela é uma personagem diferente.
Diário - E isso tudo foi crucial para que você aceitasse o convite. Cleyde - Ultimamente, eu tive muita sorte, fiz o que chamo de minhas mulheres. Quatro personagens marcantes. Lista à qual estou incorporando Helen Martins. Fiz Karen Blixen, a dinamarquesa autora da Festa de Babeti, em “As Filhas de Lúcifer” (de William Luce); depois a viciada em morfina Mary Tyrone, de “Longa Jornada de um Dia Noite Adentro” (de Eugene O’Neill, direção de Naum Alves de Souza); em seguida a professora francesa de “Cinema Éden”, de Marguerite Duras; Simone du Beauvoir em “Cerimônia do Adeus” (de Mauro Rasi, direção de Ulysses Cruz); e agora a protagonista de “O Caminho para Meca”. São cinco as minhas mulheres, agora. Já estou procurando, para o ano que vem, mais uma mulher extraordinária.
Diário - E vai desistir dos planos de descansar? Cleyde - Não dá para descansar. Eu tenho de trabalhar. Na minha idade, eu não posso parar para descansar. Descansar só durante uns dez dias, talvez.
Diário - É comum vê-la interpretar mulheres mais velhas, que exigem densidade. Por que a constância desse tipo de personagem? Cleyde - Não sei, me dou muito bem com esses papeis. Se não fizesse teatro, eu gostaria de trabalhar com pessoas idosas. Só que, agora, estou mais idosa do que as pessoas que estão por aí. Vou completar 86 anos. Penso que há alguns que não saboreiam a experiência dessas pessoas mais velhas. Convivi com a minha mãe, que faleceu com 86 anos. Gostava de ouvir, às vezes, ela contar a mesma história várias vezes, tenho a capacidade de reagir como se estivesse ouvindo pela primeira vez. Gostaria mais de trabalhar com pessoas idosas do que com crianças. Com criança eu não tenho muito jeito de lidar. Fico apavorada (risos).
Diário - Você tem mais de 50 anos de carreira e está sendo dirigida pela Yara Novaes, de 41 anos. Como tem sido esse trabalho? Cleyde - São 59 anos de carreira, estreei em 1950. Sempre me dou muito bem com os jovens. Inclusive, de vez em quando, dou aula na escola de teatro da Ligia Cortez e me saio muito bem. Tenho um relacionamento fácil, sou muito aberta. Há coisas que não aceito, mas não reajo violentamente, apenas digo que não concordo. Assim como permito que os mais jovens me digam que não concordam. Disso resulta uma coisa boa, desde que não haja reação violenta, apenas posicionamento. Patrícia Gasppar e Cacá Amaral que interpretam comigo são mais novos também. No cenário do teatro nacional há poucos da minha idade, tivemos grandes perdas nesses dois últimos anos.
Diário - Como você analisa o cenário teatral nacional, hoje em dia? Cleyde - O teatro vive uma fase muito preocupante. Quando eu estreei, fazíamos dez sessões por semana. Agora, fazemos dez por mês. Esse negócio de representar apenas sexta, sábado e domingo, às vezes, só sábado é melancólico. Nunca me preocupei tanto com o teatro como agora. Nos últimos quatro, cinco anos, parece que vem diminuindo a frequência. O teatro lotava de terça a domingo. Hoje, as solicitações de público parecem menores. Eu quebro a cabeça para tentar entender essa diminuição de público...
Diário - Durante o FIT, lotam as apresentações, esgotam os ingressos rapidamente. Existe essa necessidade do público. Diante do que você diz, como explicar isso? Cleyde - Inclusive, com o Teatro da Palavra, a jornada demorava duas horas. E dizem que o público não aceita espetáculos com mais de uma hora. Não é verdade, ele aceita. São inexplicáveis as causas. Nós, a classe teatral, temos um pouco de culpa. Nós recuamos antes que fosse necessário recuar. Eu acho que a responsabilidade é nossa.
Diário - O mote do festival é a interação entre público, peça, ator. Como é essa interação para você? Cleyde - Interação direta não é a minha praia, nunca me aconteceu isso. Eu gosto do mistério do teatro. O contato se dá sem que haja comunicação direta. No fim do espetáculo, você sente se chegou no espectador ou não, durante o espetáculo você sabe se o alcança, manda o recado. Quando vou como público e acontece essa interação, fico um pouco constrangida, me quebra o encanto.
| FIT/Hamilton Pavan
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| Humberto Sinibaldi Netto, Moema do Valle (filha de Dinorath) e José Eduardo Vendramini: homenageados
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FIT é a herança do Festival Nacional de Teatro Amador Sobre a história recente do Festival Internacional de Teatro de Rio Preto, de investimentos milionários e a presença de grupos profissionais de grande porte do Brasil e exterior, pesam 40 anos de suor e paixão pela arte, no melhor significado da palavra “amador”. Em 2009, o festival completa 40 anos e a data não passou em branco nesta 9ª edição de FIT. Na cerimônia de abertura, dois dos três criadores do festival, em 1969, José Eduardo Vendramini e Humberto Sinibaldi Neto, receberam um troféu de São José Risonho. O prêmio, que até hoje é entregue aos participantes do FIT, foi criado na edição de 1987 do festival nacional pela escritora Dinorath do Valle. Dinorath, falecida em 2004, é coinventora do festival ao lado de Vendramini e Sinibaldi e, na noite da última quinta-feira, foi representada na homenagem por sua filha, Moema.
À época de sua criação, Vendramini dirigia na cidade o grupo Teatro Jovem. Em maio de 69, a trupe venceu o I Festival Nacional de Teatro Amador de São Carlos. A conquista sensibilizou o poder público. A classe teatral, estabelecida cinco anos antes, se organizou e, dois meses depois, a primeira edição do Festival Nacional de Teatro Amador de Rio Preto acontecia, organizado pela Federação de Teatro Amador da Alta Araraquarense. Em sua edição de 28 de maio, o Diário trata do assunto como manchete na primeira página: “Em julho, I Festival Nacional de Teatro Amador de Rio Preto.” Desde sua criação até a internacionalização, em 2001 (quando também deixou de ser de competição), o festival nacional não foi realizado em três momentos: de 1973 a 1981, em 1993 e em 2000 - segundo Humberto Sinibaldi por falta de vontade política.
Foram 21 edições, portanto. História suficiente não só para tornar Rio Preto uma das referências nas artes cênicas do País como para reunir histórias as mais curiosas. Os primeiros festivais aconteciam no anfiteatro da Basílica, mas em 1972, os grupos seguiram para um Teatro Municipal ainda inacabado (só seria inaugurado no ano seguinte) e se apresentaram com o chão no contrapiso, com cadeiras de palha de taboa. Neste mesmo ano, a movimentação atrai a Rio Preto agentes do Serviço Nacional de Informação (SNI), do regime de exceção. Mas as autoridades locais, envolvidas na realização do festival, acabam desestimulando qualquer ação repressiva.
Outra: quem hoje vê as “contravenções” de Zé Celso no FIT como símbolo maior de ousadia não sabe que, em 1981, atores baianos da peça “Pavilhão Nacional”, após se apresentarem no Teatro Municipal, correm pelados no meio do povo e terminam a celebração, todos nus, no meio da praça. “O FIT não teria existido sem o festival nacional, ele foi a essência, a raiz”, lembra Sinibaldi, hoje com 70 anos. “Vem do nacional, aliás, esta tradição de realizar o festival todo mês de julho”, acrescenta Pedro Ganga, 55, ex-secretário de Cultura e espectador do festival na época em que ele foi criado. O catálogo do festival deste ano traz textos que contam mais desta trajetória que não deve (não merece) ser esquecida.
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Franceses encerram passagem por Rio Preto amanhã na praça O espetáculo de abertura do Festival, “Vol Philébulen”, da Les Philebulites, da França, realiza amanhã sua última apresentação na cidade, às 16 horas, na Praça D. José Marcondes (a do antigo camelódromo). Impressiona no espetáculo a engenheira da roda de cinco metros em cima e sobre a qual os acrobatas franceses Maxime Bourdon e Sébastien Carrot se movimentam. Trata-se de um número circense revestido de um verniz teatral, como um Cirque du Soleil. O nível de dificuldade das acrobacias vai crescendo à medida que o número avança. Ainda assim, “Vol Philébulen” permite o entendimento de sua dramaturgia, centrada na dicotomia liberdade e prisão. Se os aros da grande roda servem como asas (existe até uma alusão à libélula expressa no título da obra), eles também aprisionam, afinal, o artista precisa do equipamento para existir (tanto que não se desprende dele em nenhum momento). Seriam humanos ou hamsters?
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