O adiamento da inauguração do Hospital da Criança de Rio Preto, inicialmente agendada para ocorrer neste mês, mas agora sem qualquer previsão, evidencia a precariedade com que a saúde pública é tratada, por vezes beirando o amadorismo e por outras a irresponsabilidade. Enquanto isso, é furtado da população um serviço essencial, restando-lhe apenas o triste papel de paciente espectador. A construção do unidade, que terá 201 leitos acomodados em oito andares, foi iniciada em 11 de setembro de 2007 e o custo final está orçado em R$ 50 milhões. Para que o Hospital possa funcionar de verdade, no entanto, serão necessários outros R$ 50 milhões para financiar a aquisição e instalação de equipamentos. O estranho é que a Secretaria de Estado da Saúde, que financia o projeto, não explica os motivos do atraso. A unidade está com o cronograma de obras comprometido e sua conclusão pode levar ainda alguns meses. A construtora responsável atribuiu o atraso às chuvas, mas é difícil compreender como o mau tempo pode acarretar tamanho revés ao calendário, já que a maior parte da estrutura já está pronta. Além disso, faltam equipamentos e ainda contratar o pessoal que irá atuar no Hospital. Com isso, o início do funcionamento do local vai levar mais tempo ainda. E pior: sem qualquer previsão.
Se fosse no mundo privado, a ocorrência de um gerenciamento desastroso como esse acarretaria em sumárias penalizações de seus responsáveis com demissões, multas e rescisões de contrato. Isso porque atrasos em obras representam aumento de custo e perda de faturamento, um duplo prejuízo que pesa no bolso do empreendedor. O andamento de um projeto de tal envergadura sem prazo para sua conclusão e muito menos para o início das operações, então, se configuraria em uma aberração intolerável. No universo da administração pública, no entanto, a história mostra-se muito diferente. Aqui, atrasos e prejuízos são suportados com passividade, acalentada ao que parece pela velha cultura de que o dinheiro público não é dinheiro de ninguém. Daí, a aparente apatia diante de episódios como o do Hospital da Criança. Ironicamente, quem vai arcar com este preço são exatamente as famílias das camadas mais pobres da sociedade, que não têm recursos para pagar tratamentos particulares – muitas vezes, sequer um plano de saúde. A conta deste prejuízo vai continuar crescendo até que, algum dia e de alguma forma, o milagre da inauguração aconteça. Afinal, a esperança é última que morre.