A previsão de que a médio prazo o Brasil terá de importar etanol para atender à crescente frota com motores da geração “flex”, bicombustível, chama a atenção. Ao mesmo tempo em que ratifica o sucesso de uma tecnologia desenvolvida no Brasil, demonstra como a improvisação custa caro. A instabilidade do setor já é claramente sentida pelo consumidor de Rio Preto e região diante das constantes e fortes oscilações nos preços. Neste mês, por exemplo, o motorista chegou a comprar o álcool a R$ 0,999 o litro mas, de repente, o valor saltou nas bombas para R$ 1,299 no último dia 13, um aumento de expressivos 30%. A cada movimentação de preços, o consumidor tem de fazer as contas para saber se compensa manter o etanol no tanque de seu veículo ou se é melhor trocar para a gasolina. O aumento da frota flex é uma tendência irreversível. Dados da Anfavea apontam que em 2003, quando as montadoras brasileiras começaram a produzir veículos com este motor, foram fabricados 1,4 milhão de automóveis com propulsão a gasolina, 31,7 mil a álcool, 17,2 mil a diesel e 39,8 mil flex. Em 2009, os modelos a gasolina somaram 322,8 mil e os flex, 2,2 milhões, enquanto os a diesel foram 10,7 mil e os a álcool simplesmente desapareceram das linhas de montagem, pelo segundo ano consecutivo.
Se por um lado não dá para aumentar indefinidamente as áreas destinadas ao cultivo da cana, por outro os pesquisadores têm se desdobrado em fazer com que mais etanol seja extraído por metro quadrado de canavial. São sucessivos lançamentos de variedades de cana-de-açúcar com maior capacidade de produzir sacarose, plantas mais altas e inclusive a reutilização do bagaço resultante – o “álcool celulósico”. Ao mesmo tempo, a indústria automobilística se esforça por desenvolver modelos mais eficientes, capazes de rodar mais quilômetros com o mesmo litro de combustível. Aumentar a capacidade de produção de etanol e reduzir o consumo de combustível por veículo são avanços importantes, mas a excessiva desregulamentação do setor no que tange aos níveis de produção e estocagem deixa o consumo sob permanente risco de desabastecimento ou de encarecimento demasiado, a ponto de o Brasil ter de, eventualmente, buscar lá fora o álcool para mover a frota aqui dentro. O que há algum tempo atrás seria impensável ou mesmo encarado como uma piada, hoje é um fantasma a assombrar o País. É lamentável que, mesmo após várias crises, o governo não tenha criado mecanismos eficientes para regrar a produção e garantir a estabilidade no setor, tanto em termos de preços como de abastecimento. A exemplo de outros setores da economia, tudo vai se empurrando com a barriga.
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