A Secretaria de Saúde divulgou na última sexta-feira números assustadores da dengue em Rio Preto, que são ainda mais impressionantes considerando que estamos no inverno e com ausência de chuvas - condição imperiosa para o alastramento do mosquito Aedes Aegypti. Em dez dias foram contabilizados 3.864 novos registros da doença - 386 por dia -, fazendo Rio Preto chegar a 25.208 vítimas só em 2010. Nem mesmo no período mais severo da epidemia neste ano o município tinha atingido média tão alta de casos diários. Para se ter uma ideia, a cidade de Ribeirão Preto, considerada a capital da dengue no Estado com 27 mil casos confirmados até ontem, registrou em todo mês de julho 33 novas vítimas da doença. O que representa apenas 1% dos 3,8 mil casos divulgados por Rio Preto nos últimos dez dias. Os números parecem inacreditáveis, já que a última chuva registrada na cidade foi em 5 de junho. O fenômeno, porém, tem explicação: chama-se desova. Não se trata da desova feita pelo mosquito Aedes em água parada - até porque o período de estiagem não permite isso -, mas da desova de casos praticada pela Secretaria de Saúde. Segundo a própria pasta, dentro destes 3,8 mil existem casos referentes aos meses de junho, maio e até abril. O que só vem a confirmar a denúncia feita tantas e tantas vezes aqui neste mesmo espaço de que falta transparência na divulgação dos números da dengue em Rio Preto.
Em abril, um dos períodos mais críticos e quando Rio Preto aparecia como capital da dengue, a Secretaria de Saúde adotou um curioso método para contabilizar os números da doença. Entre 5 e 15 de abril, por exemplo, foram confirmados apenas 351 novos casos. Na época, Rio Preto foi “ultrapassada” por outras cidades como Araçatuba e Guarujá e deixou de figurar entre as campeãs de dengue no Estado. Agora, enquanto os demais municípios divulgam registros modestos da doença, a Saúde em Rio Preto faz um malabarismo matemático para desovar os casos negligenciados há meses. A única explicação plausível para essa metodologia adotada em Rio Preto - ao que consta, única no Estado - é a maquiagem dos casos de dengue na cidade. O resultado é funesto: ao dar a falsa impressão de que a doença estava controlada, a Saúde prestou um desserviço e só contribuiu para desmobilizar a população. Não adiantou esconder nada: com os novos números, Rio Preto voltou a se aproximar das estatísticas de Ribeirão. Sem contar que o governo Valdomiro Lopes (PSB) já atingiu todos os recordes negativos possíveis em relação à dengue: maior número de casos - o dobro do verificado em 2006 - e maior número de mortes em apenas um ano. Agora que a epidemia tende a se estabilizar, a Secretaria de Saúde diz que disponibilizará no site da Prefeitura, em agosto, boletins diários sobre os casos da doença. Parece piada. Mas é a Saúde em Rio Preto.