Foi com muita emoção que li a reportagem “É tempo de estudar”, publicada no caderno Cidades aqui no Diário da Região, em 26/1, assinada pela sempre competente jornalista Graziela Delalibera. Confesso que o que me levou a ler o belo texto foi a foto estampando a figura do músico, escritor e tenente da minha querida Polícia Militar José Afonso Imbá. Vê-lo assim com o sorriso de sempre emoldurando as faces e sabê-lo vendendo saúde, confesso me deixou muito feliz, pois sabíamos do mal que havia lhe acometido. Como amigo, também era solidário à sua dor e seu sofrimento e, segundo o referido texto e nas palavras do nosso biografado: “Fui indo, aos trancos e barrancos, morrendo e ressuscitando várias vezes, mas nunca abandonei o meu ideal”. Realmente, são palavras que emocionam, mostram a garra e o desejo de manter-se vivo a qualquer custo. Fomos contemporâneos nos bons tempos em que trabalhávamos na PM. Eu, na Infantaria. Ele, no Corpo de Bombeiros. Não raro, enquanto fiscalizava o trânsito da nossa cidade eu o via a bordo de uma viatura, com as sirenes ligadas, atendendo a um chamado urgente de socorro. Para abrir caminho entre os veículos eu parava o trânsito para dar passagem aos homens do fogo e o sargento (ele ainda não havia sido promovido) retribuía a minha gentileza com seu belo sorriso elegante, como convém a um príncipe. Suas origens são humildes. Nasceu em 1938, na cidade de Boa Esperança (MG). Tem, portanto, 84 anos. Afrodescendente, lutou e muito tem lutado pela causa do negro em nossa cidade. Foi diretor do Grupo de Dança Afro Dindara, integrante do Conselho Municipal do Negro. Enfim, sempre ligado à sua cultura. E foi com essa intenção que, em 1999, viajou para a terra dos seus ancestrais, à procura de suas raízes. Destino: Luanda.
Durante o voo não conseguiu conciliar no sono, pois a vontade de chegar era tamanha que contava as horas. Ao ouvir a voz do comandante dizendo que já estavam no espaço aéreo africano, a emoção aumentou. Estava finalmente, depois de tantos anos de espera e de sonhos, na terra da sua gente. Poder ouvi-los era tudo o que mais desejava. Sabia que a língua oficial é o português, mas existem numerosos dialetos, entre eles ovibundo, kimbundo, kikongo, luanda, ganguela etc. Imaginava-se caminhando pelas savanas, selvas e matas tropicais. Desejava andar por lugares antes habitados por seu povo, comer da sua comida, dançar a sua dança e, se possível, fazer uma incursão arriscada: ver de perto o rei dos animais. Ao chegar a Angola para pesquisar as danças, tradições e suas origens africanas, acabou por descobrir que seus ancestrais foram nobres. Seus antepassados eram reis, rainhas, príncipes e princesas, e ele, claro, um descendente dessa linhagem. O nosso Imbá tem a realeza correndo em suas veias!
“Príncipe negro”.
É assim que eu o chamava quando nós nos encontrávamos depois de um abraço. Sempre muito fidalgo ao lado da sua mui querida Évora, com quem no último dezembro completou 50 anos de união. Festeiro por natureza, antes de sentir-se doente, fazia almoços e jantares para amigos em sua casa. Ele tinha muito prazer em servir a todos e a única coisa que pedia aos participantes era que trouxessem guloseimas para que pudesse levar aos seus conterrâneos lá nas Minas Gerais. Um dia, num futuro distante, quando o príncipe Imbá estiver frente à Grande Porta do Céu devidamente fardado no belo uniforme de gala da Polícia Militar, tomará posição de sentido e, batendo continência, dirá: “Com licença, Senhor. Permissão para entrar...? E então, Deus descerá do seu púlpito, com um sorriso no rosto e, estendendo os braços carinhosamente, dirá: “Entre, Imbá, você é de casa. Fique à vontade. Você não precisa pedir licença!
JOCELINO SOARES
Artista plástico. Membro da Academia Rio-pretense de Letras e Cultura
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