Próteses mamárias existem desde 1951, idealizadas em Houston (EUA) por Cronin, Gerow e Biggs. Este último, admirador do Brasil, esteve aqui por inúmeras vezes em nossos congressos de cirurgia plástica. É amigo de Rio Preto através de Melchiades C. Oliveira e Edson Gomes, estes já falecidos. Quando da primeira e na primeira Jornada Paulista de Cirurgia Plástica, em 1971, operou três pacientes na Santa Casa de Rio Preto. Tive a honra de ser um dos seus auxiliares. Desde lá até hoje houve evolução enorme na qualidade de próteses e formas disponíveis. Hoje, apesar da maior segurança, não são perfeitas, como nenhuma outra é para o corpo humano. Todas sofrem uma reação inexorável e progressiva denominada “reação a corpo estranho”. Isso obriga a troca das mesmas em prazos variáveis, em geral acima de 10 anos, dependendo da qualidade industrial, técnica operatória (o cirurgião) e das reações imunológicas provocadas por elas nas pacientes. Um industrial francês agiu de má fé, na “calada da noite”, para burlar a vigilância das instituições responsáveis pela fiscalização, preenchendo as próteses com um silicone que se sabe lá de onde veio. Silicone puro ou com outros componentes corrosivos para manter e limpar peças de avião? Como é sua verdadeira origem de utilização. O que tem esse silicone impróprio? Se houver nele algum produto extra, irritativo ou corrosivo para o envelope da prótese e para os tecidos, as próteses se rompem prematuramente, irritam os tecidos, impregnam-nos,como as injeções de silicone liquido em travestis, provocam reação inflamatória crônica e podem levar até a um câncer de células gigantes. Parece ser o caso. E parece que foi o caso de mais de uma dezena de francesas.
Se não sabemos o que existe de fato dentro das próteses, o melhor é removê-las, antes da ruptura, quando tudo é mais fácil. Remover até o invólucro orgânico que naturalmente se forma em torno da prótese, a capsulectomia. Prevenir.
A grande maioria dessas pacientes pagou o cirurgião que “escolheu” as próteses por sua vontade. Mais baratas para tornar o custo menor e concorrer mais facilmente no mercado antiético autofágico e predatório. Os convênios querem que nós cirurgiões sempre usemos a prótese mais barata, e nos hospitais de SUS nem se fala, exceto o Hospital de Base de Rio Preto. Sim, mais baratas, e vendedores de próteses utilizando de manobras desaconselháveis com os cirurgiões, do tipo: utilize 4 pares e eu lhe presenteio um. Eu ouvi isso. Basta tomar uma prótese na mão e examiná-la bem, para saber que não é adequada. Somada a uma proposta dessa, o diagnóstico está pronto. A maioria dos cirurgiões vira as costas. Graças a Deus. E algumas pacientes mal orientadas vinham ao consultório indagar se nós usávamos as próteses francesas “eternas”. Orientadas assim por quem? Soma-se a isso o complexo de “vira- latas” de Nelson Rodrigues, que fala da inferioridade em que o brasileiro se coloca voluntariamente em face do resto do mundo. Se for francesa é eterna? Ora ora! Que bela mentira! Será que outras importadas virão? Agora as pacientes vão ter que se operar novamente para substituí-las. É mais que certo. E a sociedade é quem paga através das resoluções dos órgãos responsáveis? Pessoalmente discordo e penso que as pacientes privadas é que devem arcar com seus custos e seus cirurgiões as operarem gratuitamente. Nunca se compra carro Mercedes por preço de Fusca. No caso das reconstruções pós-mastectomias, se o hospital ou o convênio impôs essas próteses eles é que devem agora arcar com as consequências. O Hospital de Base, onde exerço o cargo de Regente de Cirurgia Plástica, foi “autorizado” a trocar as próteses. Bela viola. E se a prótese está rompida? Os tecidos mamários doentes terão que ser removidos. E se o resultado não for adequado? E não será. E a paciente move uma ação cível contra esse médico e o hospital, livrando os verdadeiros culpados! Pessoalmente me recuso a esta prática.
ANTONIO ROBERTO BOZOLA
Professor Doutor. Regente do Serviço de Cirurgia Plástica do Hospital de Base
Quer ler o jornal na íntegra? Acesse aqui o Diário da Região Digital