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São José do Rio Preto, 2 de Fevereiro, 2012 - 1:52
A realidade e o mito

Hércules Domingues de Faria

Pesquisas recentes informam que a presidenta Dilma cavalga sobranceira índices de popularidade recorde no primeiro ano de mandato. Afoga na poeira da estrada seus dois antecessores imediatos, presidentes FHC e Lula. Essa visão positiva que os brasileiros têm dela dá azo a algumas conjeturas. Um prócer mineiro, José Maria Alkmin ou Benedito Valadares, não sei bem qual, já que ambos construíram vasto folclore com suas tiradas de espírito, marcadas pela leveza e ladinagem cabocla, teria dito que em política mais vale a versão do que o fato. Não é grande novidade isto porque assim é se assim parece em todas as circunstâncias da vida, nas quais versões frequentemente ganham foros de verdade. A fama de durona colou-se na presidenta. E ela até que fez por merecer em alguns casos, distribuindo broncas e cobranças, destituindo ministros e outros maganos que praticaram malfeitos, embora tenha agido sob o guante da mídia vigilante e insistente. Não seria o caso de dizer que ela já pode sentir-se ancha quanto à faxina e gozar a sombra frondosa desse conceito favorável, que viceja no imaginário da opinião pública. Porque, na verdade, o imperativo da governabilidade no quadro vigente da ampla coalizão de partidos fisiológicos, atomizados por quase três dezenas de siglas, acabou por engessá-la. A questão é que tem de ceder ao apetite voraz da base aliada.

O empresário e grande industrial Jorge Gerdau, que a assessora de maneira informal, parece, já disse que em entrevista a um de nossos jornalões que é impossível governar com trinta ministérios e mais de vinte e cinco mil cargos de livre provimento. Ocorre que essa estrutura gigantesca aí está não porque o governo dela necessita, mas para aplacar a voracidade dos partidos que nela vão pendurar seus exércitos de apaniguados sanguessugas. Obscena ação entre amigos que exaure os cofres públicos, aqueles mesmos que nós contribuintes labutamos para encher, pagando impostos escorchantes. Já se vê, então, que a realidade destoa do mito e que a imagem da mandatária está muito turbinada no quesito intolerância com bandalheiras. Conquanto algumas posturas no trato da coisa pública cravem um bom avanço em relação aos predecessores imediatos, cada um a seu modo “père nourricier” de vastas catervas e lenientes em demasia com a praga arraigada da corrupção. Dois períodos de mandatos duplicados pela reeleição de má origem, dezesseis anos em que esses presidentes foram eleitos com folgadas maiorias de votos, podendo, ambos, empreender combate sistemático a nossas misérias morais, mas que preferiram abençoar privatarias e mensalões, roubalheiras homéricas merecedoras do mais veemente repúdio.

A realidade desses contorcionismos para não desestabilizar a maioria edaz no congresso, propiciadora da governabilidade, segundo se entende, escapa à compreensão dos estratos menos educados e com menos aporte de informações, circunstância que está na raiz da aprovação estratosférica da presidenta, vista como intransigente com nossas mazelas seculares. Pode-se dizer que as coisas estão melhores do que estavam com FHC e Lula, mas ainda carecemos de estadista na presidência. Alguém que encare o áspero desafio das reformas estruturais que deverão balizar a modernização do país para a construção de um Brasil mais justo e com menos corrupção, câncer que já agora não está circunscrito somente aos dois poderes políticos e que, por simbiose, tudo apodrece em todos os quadrantes da nacionalidade, capilariza-se pelas esferas do poder e mancha as relações de cidadania, que vê nos exemplos deletérios de cima licença para igualmente delinquir. Ainda não será desta vez. Haja paciência.

HÉRCULES DOMINGUES DE FARIA
Bancário aposentado; Mirassol

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