Perdi a conta do número de vezes, nas últimas semanas, em que fui abordada com a pergunta se considero bem sucedida a ação do Estado e da Prefeitura de São Paulo na região da Luz, no centro da cidade de São Paulo. A resposta invariavelmente é sim. E digo isso, porque os números respondem por mim. Podem não ser os ideais diante de tudo que ainda precisa ser feito na área conhecida como “cracolândia”, mas já sinalizam que o caminho escolhido faz acertos em seu percurso. Desde 2009, foram feitas 487 internações a partir de ações desenvolvidas na região para estímulo à busca de tratamento por parte dos dependentes químicos, conforme dados da Secretaria de Saúde do município. Agora, em duas semanas de “operação cracolândia”, 99 pessoas se internaram por livre iniciativa. Logo, há o que comemorar. Isso sem falar dos encaminhamentos para abrigamento, até agora 1.459, e para outros serviços de saúde, que somam 1.659. Até o momento, foram apreendidas quase duas mil pedras de crack, o câncer que corrói seres humanos, degrada a vida da cidade e gera medo entre os que trabalhadores que se vêm obrigados a circular pelas ruas do bairro da Luz. Uma região histórica, cheia de referências relevantes para os paulistas e que merecia uma ação do Estado e do Município em defesa da sociedade e do direito à cidadania. Nunca tivemos dúvida de que a área carecia de uma ação para debelar a logística do tráfico que ali ocorria de forma concentrada e persistente, dificultando o sucesso do trabalho dos agentes de saúde e de assistência social juntos aos dependentes químicos. Mais até que isso, a presença dos traficantes punha em risco os profissionais que realizam abordagens de usuários de drogas. Tanto é verdade, que, entre os 128 presos com a operação, estavam 43 condenados pela mais variada gama de crimes graves e violentos.
Em nenhum momento foi dito que seria tarefa fácil. O aumento do consumo de drogas ilícitas é um dos problemas de maior complexidade na sociedade moderna, em qualquer país do mundo globalizado. A busca por soluções vem sendo constantemente debatida e criticada enquanto sucessos e fracassos vão sendo experimentados. Um ponto, entretanto, não tem discussão em nosso País: ninguém tem o direito de usar ou comercializar crack, ou qualquer outra droga ilícita nas ruas. A nossa Lei não permite. Combater essa situação, onde a droga se instalou de forma ostensiva e agressiva, era necessário. Mais do que isso, era fundamental para se implantar qualquer plano que queira resultados para além das visões românticas, que esperam tudo apenas da boa vontade dos dependentes químicos bombardeados pela oferta fácil da droga. Violência ou desrespeito aos direitos individuais não serão tolerados, isso, evidentemente, está fora de questão. Mas algum movimento precisa ser desencadeado para se dar início ao desmonte das estruturas que favoreceram a proliferação do consumo. Temos pouco mais de uma semana de ação. Outras etapas precisam ser vencidas com a intensificação das abordagens e oferta de tratamento aos que deixam de ter acesso à compra do crack. A recuperação do espaço urbano, degradado nas últimas duas décadas, também é urgente. Foram retiradas mais de 130 toneladas de lixo das moradias e ruas na Luz. Agora, é fundamental a revitalização daquela região, para que os cidadãos possam usufruir da cidade. E, enquanto esses novos passos vão sendo dados, a presença policial se faz necessária, assim como a tolerância dos que não dão crédito aos esforços que estão sendo empregados.
ELOÍSA DE SOUSA ARRUDA
Secretária da Justiça e da Defesa da Cidadania do Governo do Estado de São Paulo
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