Quem é, afinal, o cavaleiro misterioso montado em seu cavalo negro, que arrebata a moça da janela sem deixar vestígios? E a moça da janela? Quem será? Ao partirem, deixaram pista? Sim. Deixaram. Uma única, mas deixaram! Os galos nem bem haviam começado a tecer a manhã com seus cantos ecoando pelas campinas e ele já se encontrava em pé. Perdera o gosto pela vida, e há muito não sabia o que era uma noite de sono bem dormida. Era assim desde que tudo aconteceu. Seu coração estava mortificado, dilacerado, mas ele tinha que reagir. Tantos meses se passaram desde a terrível tragédia que se abateu sobre ele e hoje, naquele instante, havia decidido que teria que partir. A decisão não fora tomada de rompante e sim de mansinho. Lentamente ele foi se despedindo do lugar que tanto amava, que com tanto esforço havia construído. “Meu rancho” - era assim que ele carinhosamente chamava a sua moradia, que fizera como quem constrói um castelo, mas agora não tinha mais sentido morar ali, só em companhia do cão de guarda, dos bichos no terreiro e uns poucos animais no pasto. Era pouco, mas era tudo o que ele tinha conseguido com o suor de seu rosto, o que lhe dava, afinal, muito orgulho. Tinha vendido tudo dias antes. Enquanto lavava as mãos e o rosto na bacia com água fria para despertar do sono que não veio, acendeu com uns poucos gravetos o fogão para um café forte. Do terreiro avistou o “Nêgo”, que ao perceber a presença do dono soltou um relincho e se aproximou da cerca adivinhando que em breve partiriam. A barra da manhã surgia pálida no horizonte. Ainda sentia na boca o gosto forte do café, quando ouviu bater atrás de si a porteira. Sentiu um nó no peito. Um fio de lágrimas escorreu-lhe fortuita pelo rosto. Sabia que estava partindo para não mais voltar. Deixava dependurado nos galhos da paineira no meio do quintal seus velhos sonhos, tão velhos quanto a imensa árvore que fora testemunha da sua felicidade. No tronco, fez a canivete um coração com o nome dela quase encoberto pelo tempo. “Foi bom enquanto durou” - pensou. E, antes que sumisse na curva da estrada, lançou um último olhar no torrão amado e prometeu a si mesmo nunca mais pensar naquela que fora o motivo da sua partida: “Ingrata!”. Esse foi o único sentimento que lhe ocorrera.
Durante meses caminhou de déu em déu, até que as feridas da alma se cicatrizassem e pudessem dar um novo sentido em sua vida. Durante suas andanças, sentia-se mais fortalecido e cada vez mais distante daquilo que mais desejava: esquecer o passado. Certa manhã, enquanto encilhava seu velho companheiro, percebeu que as cores haviam voltado. Ouvia cantos em todos os lugares. As flores nas árvores indicavam que a primavera havia chegado, havia um leve toque de perfume no ar. Ele, então, pode finalmente sentir a brisa fresca da aurora como há muito não sentia! Estava finalmente curado e seu coração, pronto para um novo amor. E assim viajou sem rumo. Cantarolando uma velha canção, nem se deu conta de que havia chegado a um povoado. A passos lentos entrou pela rua principal. A lua ia alta no céu azul escuro de estrelas cintilantes alumiando as casas. Sem saber, o destino o conduziu até aquele lugar e ao longe pode ver, emoldurando uma janela, a moça mais linda que já tinha visto. Seus olhos se cruzaram como que por encanto. Ele apeou do cavalo, suas mãos se tocaram num gesto rápido e com a mesma rapidez tomou-a nos braços. Beijaram-se longamente. Naquele momento o clarão da lua cheia assemelhara-se ao sol da meia-noite. Ninguém na rua por testemunha. Estavam prontos para partir! A moça mal teve tempo de fechar a janela e pulou na garupa, agarrando-se na cintura do seu príncipe caipira. Na fuga, sem que se desse conta, o cavaleiro deixou cair um lenço branco com um desenho entrelaçado quase se apagando. Com muito esforço dava pra se ver num dos cantos bordado em fios dourados: um esquadro e um compasso.
JOCELINO SOARES
Artista plástico. Membro da Academia de Rio-Pretense de Letras e Cultura
Quer ler o jornal na íntegra? Acesse aqui o Diário da Região Digital