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São José do Rio Preto, 14 de Outubro, 2010 - 1:50
Solidariedade

Eurípides A. Silva

No entendimento de Rubem Alves o sentimento de solidariedade não pode ser ensinado. Ele aconteceria como simples transbordamento da alma, da mesma forma que o poema transborda da alma do poeta e a canção da alma do compositor. Ensinam-se as “coisas que vêm do mundo de fora”, como a astronomia, os números e a gramática. Mas, segundo o escritor, não se ensina nem se ordena a solidariedade, por se tratar de uma “entidade do mundo interior”. Como o ipê, completa ele, que nasce e floresce independentemente de mandamentos éticos ou religiosos. Sem desejar contrariar o grande escritor Rubem Alves, antes reforçando sua tese, penso que o sentimento de solidariedade - assim como os demais sentimentos do nosso “mundo interior” -, pode ser estimulado a partir da experiência humana. Venha ela da família, da escola, da religião ou da própria sociedade. Ao se incentivar uma criança a policiar a mente e o comportamento a fim de evitar ou se despojar de deficiências morais, é evidente que se está investindo no cultivo e desabrochamento de suas virtudes. Isso também é ensinar, embora não da forma como se ensinam conceitos “que vêm de fora”, especialmente aqueles que prescindem de valores morais. Esse incentivo representa o orvalho, a rega suave, que pode despertar e fazer florescer as virtudes latentes que “nos humanizam”, conforme a expressão do escritor. As singelas historinhas a seguir favorecem a reflexão em torno da ideia, aqui exposta, de que o sentimento de solidariedade não só seria um atributo natural do ser humano como, também, na escala de nossos valores internos, um sentimento a ser perenemente incentivado.

Escurecia quando a garotinha chegou da rua, esbaforida, consciente de que havia se atrasado para o jantar. Recebida à porta pelos pais, censurada, ela se justificou alegando que demorara socorrendo uma amiguinha que tinha caído da bicicleta e ferido os joelhos. O pai, aborrecido, perguntou-lhe se por acaso era enfermeira para demonstrar tamanho zelo pela amiga. A garotinha, fazendo ouvidos moucos à ironia do pai, respondeu com naturalidade: “Ah, papai, eu só queria ajudá-la a chorar”. O escritor Wallace Rodrigues gostava de contar a seguinte passagem. “Quando tinha nove anos, ao alcançar as notas mais altas da classe, imaginei-me o ‘cérebro’ da turma. Soberbo, deixei de ser solidário com os colegas. Mesmo com aqueles a quem costumava auxiliar em véspera de prova. Um dia queixei-me ao meu pai - a quem não passavam despercebidas minhas jactâncias - a respeito das evasivas dos colegas para não mais frequentar nossa casa. Como se esperasse por aquele momento, ele foi até o escritório, apanhou um balão e, colocando-me no colo, me disse: ‘Filho, este balão é o João. Vou relatar alguns feitos extraordinários da vida dele. E para cada feito vou soprar um pouco de ar dentro do balão’. Após alguns instantes, quando o balão estava a ponto de estourar, para meu alívio, ele interrompeu a narrativa. ‘É desagradável permanecer ao lado de João, não é? Pois é o que está ocorrendo com você. Seu orgulho deixou sua cabeça grande demais e seus amigos se afastaram com medo do estouro’.” Por fim, uma oportuna historinha de Pedro Bloch. No consultório, ele conversava com Gustavo, uma criatura especial, que insistia em afirmar que o irmãozinho mais novo, em tudo, era melhor que ele. Era mais bonito, mais educado e mais querido pela família. O médico, desejando ver até onde ia o “espírito de solidariedade” do garoto, deu a cartada final: “Gustavo, seja franco! Em tudo, tudo, seu irmãozinho é melhor que você?”. Gustavo, com a pureza intrínseca às almas infantis, com as mãos em concha cochichou ao pé do ouvido do médico: “Ah, não! Eu sou mais irmão!”.

EURÍPIDES A. SILVA
Professor de Matemática aposentado pelo Ibilce/Unesp


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