Graças aos aquíferos Guarani e Bauru, complementados pelo rio Preto, a cidade possui hoje um sistema de abastecimento capaz de atender à enorme demanda de água tratada. Normalmente o volume de água produzido por estas fontes, apesar das perdas que ainda se verificam, quer ao longo da rede, quer praticadas pelos consumidores, é suficiente para a manutenção de um equilíbrio entre a demanda e a oferta de forma que toda população vive momentos de tranquilidade. Porém, quando se lançam as vistas para o futuro, e não para um futuro muito distante, algumas preocupações começam a ser identificadas. Mesmo que venhamos ter um controle absoluto das perdas, reduzindo-as a níveis sustentáveis, haverá um momento de se ampliar as fontes de água, além das atuais. O crescimento vegetativo da cidade, por si só já é um motivo a ser levado em consideração, mormente quando a política de loteamento e ampliação do perímetro urbano, que ora se pratica no município, acelera a taxa de crescimento. Dados publicados pela imprensa local dão conta de uma ampliação maior que 140 estádios de futebol, patrocinada pela câmara municipal, em 2009. Isto significa mais gente, mais água, mais tudo, a uma velocidade também maior.
Se a grande questão, diante deste quadro de aceleração da demanda é a busca de novas alternativas, como ela se apresentará na eventualidade de perda de uma das três fontes acima citadas? O que aconteceu dias atrás, com emulsão asfáltica derramada na rodovia Washington Luís (SP-310) por meio de acidente rodoviário, não foi episódio único, solitário. Não. Outros já ocorreram e mais graves. Pelo jeito, a coisa poderá ser muito mais frequente futuramente e, o que é pior, mais desastrosa. Já tive a oportunidade, por diversas vezes, de chamar a atenção para esta ameaça. A autopista corre paralela e bem próxima do rio Preto e das represas. Galerias pluviais, compactação do terreno marginal, limpeza da vegetação e outras circunstâncias favoráveis permitem a captação da água de chuva que cai no leito da rodovia e áreas marginais, e seu afastamento rápido como requerem os mecanismos de segurança de tais estradas. Assim, este fluxo superficial, de qualidade físico-química ruim, atinge o rio Preto e as represas em apenas frações de minuto. O que favorece a segurança da pista facilita o comprometimento do manancial. E quando os acidentes envolvem substâncias altamente poluentes, como combustíveis e outros hidrocarbonetos transportados por caminhões e até mesmo por via férrea, com alto potencial poluente? Um litro de gasolina é capaz de contaminar um milhão de litros de água.
Entendo que já passou da ora de se exigir dos responsáveis pela administração da autopista a adoção de sistema de proteção do manancial contra acidentes desta natureza que estão se tornando cada vez mais frequentes. Será que teremos que esperar a destruição definitiva do manancial para acordarmos? Mas além desta triste perspectiva existe outra ameaça a este manancial: a conurbação. Constata-se agora a tendência da ocupação intensiva do solo em toda a região leste da cidade, justamente a que compreende a bacia do alto rio Preto. Loteamentos e mais loteamentos estão intensificando a presença humana numa área estratégica muito sensível e extremamente vulnerável ambientalmente. Que mecanismos legais controlam esta tendência? As conclusões recomendadas pela comissão de especialistas, coordenada pelo vereador Abdanur, já foram implementadas pelo Poder Público ou estão dormindo num cantinho qualquer, de uma gaveta qualquer de alguma mesa qualquer? A análise de imagens de satélite atuais mostra como esta ocupação avançou. Como disse acima, a substituição do rio Preto como fonte de água de abastecimento público não será fácil, ainda que tenhamos recursos financeiros para tanto. Com cuidado, com carinho, com muito comprometimento com a coisa pública ainda é possível sanear, recuperar e proteger aquele manancial da saga dos gananciosos.