Subitamente retorno à escola, e imagino a professora me passando o dever de casa: fazer uma redação sobre eleições. Faço. Ela lê e sorrindo de mim, narrou-a aos colegas. Nada mais justo, em outras épocas, de sair candidato a vereador! Primeiro, porque precisava só de 3.000 votos e, segundo, porque não pretendia fazer coisa alguma por ninguém. Explico-lhes que se fizesse qualquer coisa, ver-me-ia em apuros, pois teria, certamente, uma centena de espíritos de colegas meus contra mim. Assim, para poder fazer alguma coisa útil, não faria coisa alguma. Com meu galardão, daria conforto à minha prole e, desde que eles passassem melhor, a humanidade ganharia. Isto, porque, sendo eles parcelas da humanidade, essa melhoria refletiria sobre o todo de que fazem parte. Avante! Fui aos votos! Só lá em casa, eu tinha, mas no mínimo mesmo, 6 votos; supondo mais 5 eleitores que cada um iria arrumar, aí já seriam 36 votos, botei mais 20 com os vizinhos da esquerda, da direita, da frente e dos fundos. Bem, 56. Pessoal do meu futebol, calculei por baixo 25. Aí já seriam 81. Arredondando, já me considerava com 100 votos. Só onde trabalho, além dos carros e tratores, com os professores, funcionários e os estudantes eu calculei, por baixo 30% como certo, ou 1.000 votos. Deitei mais 100 vindo de familiares e conhecidos. Bem, 1.200. Com o pessoal de meu clube, até onde sabia, o “papai” estava com tudo na mão porque tinha apoio por baixo, por cima e dos lados, inclusive da galera independente - pelo menos 800 votos, mas certos mesmos, 400. Já seriam 1.600. E não contava ainda com o meu bairro, nem dos bairros vizinhos! Precisava ver como era lá em casa, o telefone e a campainha não paravam de tocar, todo mundo pedindo santinhos, e mais santinhos.
Calculei, seguramente, 500, mas arriei: 400. Olha aí que já seriam 2000!
Naquela ocasião, eu conhecia um casal amigo, que sem gaguejar, eu diria estava comigo. Eles eram soberanos nesse negócio de igreja e benemerência. Só nos bairros em que atuavam, contando religiosamente, eu teria mais de 300 votos. Isto sem falar daquele médico que era o pai dos pobres. Se ele quisesse, elegeria deputado só com votos dos menos favorecidos. E era 100% meu, ia me dar mais de 1.000 votos. E o Clube Nipo-brasileiro, com mais de 300 sócios? Neste setor nem tinha graça, o “Ninja” aqui, como dizia o Sr. Yano: “era o candidato do sol nascente”! Vejo que estava eleito, sem contar as professoras e diretoras das escolas públicas, que só aí, ia ser uma “barbada”. Olhe, na época, achava uma grande burrice não ter saído para prefeito! Então, fui às urnas! Notei que na seção X da zona Y, onde eu e meus familiares votamos, eu não tivera nenhum voto. Palavra de político que eu ia votar em mim, mas como eu estava tão seguro que resolvi ajudar outro colega com o meu votinho. Foi o caos. Tenho a impressão de que os outros eleitores agiram do mesmo modo, e no quase final da apuração, se eu tivesse chegado à meia dúzia de votos ainda poderia me dar por satisfeito, que muitos outros nem isso tiveram. Só ficaram duas certezas! Primeiro, que este tal de voto secreto só serve para levar o eleitor a mentir. Segundo, além da decepção e do meu fracasso político, penso com meus botões: - que joça de democracia é esta? Pasmem! Fiquei conformado. Quieto, vou repetindo sem voz, pra mim mesmo, a eterna frase imbecil: “foi melhor assim”. São as eleições! Espero que me perdoem, inventei coisas. Certamente coisas sem maior importância.
SILVIO JOSÉ FERREIRA DE SOUZA
Professor Unesp/Ibilce; Rio Preto
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