A memória mais remota - li não sei onde ou escutei não sei de quem - recua até os quatro ou cinco anos de vida. Mais não alcança. Não existe. A pátina encobre cores, tessituras, tramas e arranjos dos vitrais. O cinza-esquecimento toma conta. Hera implacável, tudo engole, trucidado pela cipoeira sem clemência. Há de ser por isto que de Minas tenham restado poucas imagens. Ou talvez seja um tempo de não-lembrança voluntária, algo a que não se quer voltar. A casa velha de Minas, referência recorrente, dela falamos como propriedade, mas não era nossa, era do patrão, empregador do pai. Ele nunca dormiu sob um teto de seu. Coitado, sempre atormentado pelo aluguel custoso de pagar. Até que mano Walter, já arranjado, instalou-o na morada derradeira, que o veria partir. Depois Sinhá Ritinha, depois mana Maria e desde então se esvaziou. E os outros perdidos, vivendo vidas apartadas, sem local de encontros, sem amálgama nem visgos. Envelhecemos todos, cuidando das ninhadas, das carreiras, dos negócios. Não foi ruim. Distâncias não se medem por léguas ou quilômetros se há partilha de sentimentos, emoções. O pai foi uma bela figura, palrador, contador de causos, potoqueiro sobre caçadas e pescarias, andejo certo tempo, quando vivíamos feito galinhas na manguara, ele caçando oportunidades para colocar-se e à filharada. Aquilo não foi bom, deu rendimento nenhum, apenas canseiras e o complexo de desenraizados, adventícios. Tentativas vãs. Quando se aquietou, as abóboras se acomodaram no balanço da carroça, ele se foi. E era muito cedo. Deixou o culto do homem bom, ainda que meio desesperado. Única herança, grandiosa, não a do desespero, a de sua dedicação a todos, a de seu coração sem jaça.
“Está tudo bem, os meninos estão todos aí”. Dizia Sinhá Ritinha com a casa cheia, na azáfama de preparar o tutu, o feijão tropeiro, o pernil assado, a taioba, a couve cotidiana das casas mineiras, picada fininho, fininho e apenas assustada na gordura quente. Cada iguaria a preferência de um daqueles “meninos”, os filhos já avôs com a renca de filhos e netos, noras, genros. A casa, uma outra casa porque a velha de Minas se afogara no lago portentoso de uma hidrelétrica, a casa de Olímpia era o ponto zero, a não-distância dos afetos cruzados, irmãos abraçando-se, os sobrinhos - médicos, advogados, dentistas, psicólogos, militares, policiais - no já anacrônico mas ainda belo costume do beija-mão de Sinhá Ritinha e dos tios. Ela, incansável no pralá-pracá, semeando o pródigo cereal de seu amor, remexendo panelas, botando um tantim de tempero nesta, aquela já está no ponto, mas a outra precisa ainda ir ao fogo. Trabalha que trabalha Sinhá Ritinha. De vez em quando, fugidia, uma cheirada no rapé, denunciada pela fungada característica. E sempre negada, mesmo que surpreendida, hábito que queria secreto, porém tão evidente.”Está tudo bem, os meninos estão todos aí”. E a casa regurgitando. Agora, todos são órfãos. Da Sinhá Ritinha e de mana Maria, a que se fez alimento para que ali a consumíssemos, como a mamadre de Neruda. Nos encontros, agora espaçados e em locais alugados, como nos recentes 80 anos de Walter e 70 de João, sempre falta alguém. Mana Tereza, Tereza de tantas dores, foi quem me disse, olhos mareados. A falta é física. Certamente, de outro jeito, incorpóreos mas perceptíveis, estavam lá o pai, Sinhá Ritinha, Maria, José. Eram também festeiros, não perderiam aqueles momentos de alegria e congraçamento. Ah, não perderiam, inda mais sendo comemoração do João, o arrimo, o filho mais presente. “Está tudo bem, os meninos estão todos aí”.
HÉRCULES DOMINGUES DE FARIA
Bancário aposentado; Mirassol
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