Carrego comigo o orgulho de ter sido sempre um defensor das causas caipiras e hoje, com as publicações dos artigos aqui no Diário da Região, sinto que muito mais pessoas ligadas à terra se sentem à vontade para dizer dos seus sentimentos junto às velhas raízes. Alguns leitores vêm falar da sua ligação através dos seus antepassados, outros ainda, falam das suas próprias vivências, das suas lembranças e de suas memórias. Trazem consigo o orgulho de serem caipiras, de terem vivido na roça. Vieram para a cidade numa situação desfavorável e hoje encontram-se num outro patamar; ou seja, venceram! E nem por isso deixaram os velhos e saudáveis hábitos de manter a tradição, o gosto pela comida, a música e o jeito caboclo.
Às vezes acontece de me presentearem com peças ou coisas que me trazem recordações da minha infância e adolescência. Ganhei dia desses do meu amigo (nos conhecemos na Casa de Cultura em 1973) Antonio Márcio, meu colega na Secretaria Municipal do Meio Ambiente e chamado carinhosamente pelos amigos mais antigos de “minhoca”, uma muda de gabiroba. Confesso que fiquei emocionado em ver tão bela planta. Antes, a nossa região era tomada pelo pequeno arbusto que em dezembro se enchia de frutos amarelos e de um sabor inconfundível. Hoje, tornou-se raridade.
Não imaginava como uma arvorezinha pudesse “mexer” tanto com as minhas reminiscências como o pezinho de gabiroba. Ao plantar a muda em minha residência, imediatamente me vi transportado para a cozinha de chão batido da casa em que morávamos na roça enquanto aprofundava suas raízes na terra fofa do chão, como a música Pé de Cedro. Tive a visão da minha avó, ao lado do fogão cimentado de vermelhão, cantarolando uma canção qualquer. O fogo aceso e as labaredas controladas por uma espécie de registro na chaminé ditavam a altura e o calor das chamas. Sobre a chapa, uma grande panela de ferro frigindo com a banha quente do capado cevado no mangueirão. Era a hora de jogar o alho cateto picado, colhido na horta e armazenado na despensa pendurados em réstias.
Quando a minha avó jogava o tempero, o cheiro recendia pela vizinhança apressando a fome do caboclo. Ainda sobre a chapa, um bule de ferroagati (ferro ágata) vermelho cheio de café fresquinho, colhido, socado, torrado e moído lá mesmo na fazenda. A um canto da cozinha, o velho pote de barro desgastado pelo tempo e tantas mudanças guardava uma água fresquinha nos dias de muito calor. Junto da chaminé, as aranhas faziam suas teias e com o subir da fumaça do fogão, criava o tal picumã. Aliás, quando o caipira sofria algum tipo de ferimento, fazia-se um emplasto com picumã e açúcar, colocava sobre o ferimento e em alguns dias o machucado estava curado. Alguém que não conheça pode até duvidar, mas que curava, curava. As vasilhas de alumínio eram “areadas” todas as sextas-feiras e no tampeiro as tampas ficavam brilhando deixando orgulhosa a dona da cozinha. Num canto da cozinha, a mesa de tábuas rústicas e, em torno dela, cadeiras de palhas de taboa colhidas no brejo e feitas de maneira artesanal. Hoje as velhas mesas de peroba são desmontadas, aparelhadas e vendidas como objeto raro. Todos os dias pela manhã, depois de tratar das rolinhas e pombas do ar que se juntam às dezenas no fundo do meu quintal, eu rego a minha plantinha e espero com calma vê-la crescer. Não vejo a hora de vê-la produzindo, pois sinto em meus lábios antecipadamente o gosto da gabiroba madura.