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Receita
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São José do Rio Preto, 10 de Fevereiro, 2012 - 1:50
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Garrancho de médico vira problema de saúde pública
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Victor Augusto e Elton Rodrigues
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Hamilton Pavam
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Rosalina da Silva fica preocupada: “Não consigo ler nada aqui”
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O garrancho que desafia farmacêuticos a interpretar receitas e expõe pacientes ao risco de tomar medicamento errado já causou a demissão, por justa causa, de pelo menos um médico e gerou autuação de outros profissionais. A informação foi dada ontem pela Prefeitura. A síndrome da “letra de médico” deixou de ser um transtorno cotidiano e se firma como um problema de saúde pública, como prova o exemplo dos bebês de José Bonifácio. Mãe dos bebês gêmeos Maycon e Mayron, Jéssica Fernanda dos Santos Souza sentiu o drama na pele, anteontem, ao descobrir que os meninos tomaram remédio errado após uma possível dificuldade de interpretação da receita.
Em Rio Preto, os garranchos foram ontem constatados pela reportagem do Diário nas Unidades Básicas de Saúde, desobedecendo a lei municipal 9.715, a lei estadual 10.241 e o código de ética médica do Conselho Federal de Medicina, que exigem a prescrição médicas entregue ao paciente digitada, datilografada ou escrita em letra de forma. A aposentada Rosalina da Silva Paião, 73 anos, acha um absurdo o modo como as receitas são escritas pelos médicos, segundo ela, não dá para entender uma linha do que foi receitado. “Acho que é um direito nosso saber o que estamos tomando, eu não consigo ler nada aqui, nem mesmo como eu devo tomar. A minha sorte é que quando entregamos a receita aqui no posto, as atendentes decifram o que está escrito e anotam o jeito que temos que tomar, se é duas vezes por dia, qual a quantidade e etc, senão ia ter que adivinhar”, afirma.
Até os farmacêuticos que trabalham nas unidades básicas de saúde do município, acostumados com os garranchos, reclamam das letras dos médicos. A farmacêutica Heloisa Helena Camilo Fernandes da Unidade Básica de Saúde Central, disse que muitas vezes pede para os pacientes voltarem ao médico para que ele entregue uma receita legível. “Acontece sempre, todo dia pelo menos tem um ou dois casos que precisamos pedir para o paciente voltar a falar com o médico. Às vezes o paciente fica irritado, mas não posso correr o risco de entregar um remédio errado”, afirma Heloísa.
Ela conta ainda que além de ser ilegível, muitas receitas não possuem os dados mínimos necessários para dispensar os medicamentos. “Tem receita que falta o nome correto do medicamento, que falta a forma de administrar e até a dosagem indicada”, explica. A reportagem flagrou o caso da grávida Marta da Silva Bispo de Souza, 29 anos que precisou voltar para falar com o médico, pois na receita o profissional não indicou a dosagem certa do medicamento para a filha dela. “No caso dela eu não posso entregar o remédio, pois está escrito dar uma medida para o peso de 8 em 8 horas, uso contínuo. Uma medida de quantos mililitros?”,questiona a funcionária.
A médica Katia Izabel de Oliveira, que prescreveu a medicação para a filha de Marta, disse que a receita está correta, pois o medicamento vem junto com uma seringa graduada, tanto em quilos quanto em mililitros. “Na mesma hora a paciente me procurou, eu alterei a receita e ela saiu do postinho minutos depois com o medicamento”, afirmou a pediatra.
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Hamilton Pavam
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Marta da Silva Bispo: receita não indicava a dosagem certa
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Outro lado
Pedro Teixeira Neto, responsável pelo Conselho Regional de Medicina (CRM) de Rio Preto e região, disse que todo médico é obrigado a escrever de maneira legível para que o paciente possa saber o que está tomando e como deve administrar a medicação. A vice-diretora da Seccional de Rio Preto do Conselho Regional de Farmácia, Maria Luiza Rodrigues, disse que quando o farmacêutico não entende a letra do médico, ou tem alguma dúvida sobre a maneira de administrá-lo, o profissional deve entrar em contato com o médico responsável e tirar a dúvida, caso não consiga falar com o prescritor o farmacêutico não pode entregar o medicamento.
O secretário de saúde de Rio Preto, Valter Negrelli não quis atender a reportagem. Em nota a assessoria de imprensa disse que a Prefeitura já demitiu um médico por justa causa devido à letra ilegível, e também autuou outros profissionais sem dizer quantos. A fiscalização nas unidades básicas de saúde é feita pela gerente da UBS e pelo médico clínico responsavel. Todas as reclamações são encaminhadas à Diretoria de Atenção Farmacêutica.
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Hamilton Pavam
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Jéssica, ao lado da sogra Inês, deixa Hospital de Base com os bebês Maycon e Mayron recuperados após o susto
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Gêmeos sedados por engano têm alta
Os gêmeos Maycon e Mayron, de seis meses, que foram vítimas de intoxicação medicamentosa, receberam alta na manhã de ontem do Hospital de Base, em Rio Preto, após 14 horas de internação. Os bebês tomaram, por engano, um remédio para distúrbios de comportamento para tratar uma simples gripe e chegaram ao hospital com sintomas de sonolência, já que a medicação que ingeriram age como sedativo.
A mãe das crianças, Jéssica Fernanda dos Santos Souza, 16 anos, acusa a funcionária da farmácia do posto de saúde de José Bonifácio, município onde moram, de ter entregue o medicamento errado. A receita pescrevia prednisolona (antialérgico), que teria sido trocado por neuleptil, cujo princípio ativo é periciazia, indicado para crianças acima de 2 anos com distúrbios como autismo e agressividade. O remédio é de uso controlado, portanto a receita deveria ter sido retida, o que também não foi feito.
“Tinha uma moça do meu lado também pegando remédio. Acho que ela deve ter confundido. Mas essa confusão poderia ter matado meus filhos”, disse. Ela alega que não percebeu a troca porque a receita está ilegível e um carimbo ainda atrapalha a leitura no papel.
Outro lado
Ao contrário das acusações da mãe dos bebês, a farmacêutica A.P.T.A.B., que fez o atendimento, afirma que entregou o remédio correto. “Não dava para entregar errado porque o remédio que ela (a mãe) fala que recebeu é diferente do que estava na receita e fica em um armário trancado com chave.”
Ainda segundo ela, a última vez que a medicação neuleptil foi solicitado na farmácia foi no dia 26 de janeiro. A farmacêutica, inclusive, se comprometeu a enviar ao Diário cópia da receita dos gêmeos e prova de que o neuleptil não havia sido retirado em fevereiro, porém os documentos não chegaram até o fechamento desta edição. O Conselho Regional de Farmácia vai abrir sindicância para apurar o ocorrido. “Na próxima semana representantes do Conselho vão até José Bonifácio apurar o caso”, afirmou Maria Luiza Rodrigues, vice-diretora da seccional de Rio Preto do Conselho Regional de Farmácia.
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COMENTÁRIOS
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Ulysses Torres
postado em
10/02/2012
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É preciso deixar de lado termos sensacionalistas ou apelativos ao se fazer referência a determinados problemas do cotidiano das pessoas. Generalizar a ilegibilidade da caligrafia de uma classe profissional cunhando isto como "síndrome da letra de médico" e, pior, classificar isto como um "problema de saúde pública" é algo tendencioso, forçoso e lamentável. Falta na reportagem que se especifique se tal síndrome realmente é descrita, ou se é mero produto da invenção do repórter. Em se existindo essa síndrome, em qual referência médica ou científica se baseia seu estabelecimento como um problema de saúde pública? E, por fim, ainda que isso não exista como uma síndrome, baseado em qual referência o repórter afirma que a ilegibilidade de certas receitas vem se firmando como um problema de saúde pública? Pergunto isso pelo seguinte motivo: o que é um problema de saúde pública? Certamente isso envolve uma definição um pouco mais complexa que talvez não tenha sido considerada pelo repórter. Sugiro a leitura mais aprofundada de textos de epidemiologia, ou, no mínimo, que se cite uma boa fonte científica antes de se escrever tal absurdo. Como escrevem Verweij & Dawson em "The Meaning of 'Public' in 'Public Health'", "Calling something a public health problem often serves implicit normative or political purposes. This provides grounds for caution in thinking about the concept of 'public health' and public health activity". Sejamos mais comedidos, senhores do Diário da Região. Procuremos fugir de definições sensacionalistas pouco úteis e pouco fundamentadas. Bastaria ter reportado objetivamente o problema dessas famílias, sem demais firulas.
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