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Em cinco anos
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São José do Rio Preto, 29 de Janeiro, 2012 - 1:50
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297 pacientes morreram na fila do transplante
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Thomaz Vita Neto
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Rosemeire Ajala exibe foto do seu casamento com José Ricardo, que não resistiu na fila de espera por um transplante de rim
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O administrador de empresas José Ricardo Ajala, 57 anos, travou uma luta de oito anos, um e meio deles na angustiante fila do transplante, contra uma insuficiência renal crônica causada por hipertensão. Mas perdeu a batalha para a doença em agosto do ano passado. Ele é um dos 297 que morreram nos últimos cinco anos enquanto aguardavam por um novo órgão no Hospital de Base (HB) de Rio Preto, de um total de 1.222 inscritos na fila no mesmo período. As mortes são de pacientes que precisavam de fígado (156), rim (110) e coração (31). Um dos fatores determinantes para os óbitos é o tempo de espera pelo órgão, que varia entre dois a três anos para fígado e rim, e de um a dois para o coração.
Proporcionalmente, os pacientes cardíacos são os que mais morrem. Dos 73 cadastrados entre 2007 e 2011, 31 foram a óbito antes de conseguirem o órgão, ou seja, 42%. O número é maior do que o total de transplantes realizados no mesmo período, 26. Ou seja: mais gente morre do que consegue um coração na fila do HB. No ano passado foram dois procedimentos e em um deles o paciente morreu após o transplante.
Para o médico Reinaldo Bestetti, chefe do departamento de cardiologia do HB, as mortes poderiam ser em menor número caso houvesse melhoria no serviço de notificação de órgãos, setor responsável pela identificação de um potencial doador. “A população tem feito a sua parte e está doando. Agora falta o poder público investir nessa área. Precisam colocar uma equipe multidisciplinar em cada hospital que tem estrutura de neurocirurgia. Tem muitos doadores na região, mas temos poucos hospitais preparados para fazer a captação. Mais doações significa menos mortes”, disse.
O fígado tem a segunda maior taxa de morte na fila do transplante. Nos últimos cinco anos, foram 586 pacientes cadastrados, mas 156 deles morreram, o que representa 26%. “Diferente do rim ou do coração, quando há falência do fígado não há alternativa a não ser o transplante”, justifica Renato Silva, chefe do setor de transplante de fígado do HB.
O médico endossa a afirmação de Besteti de que é necessário melhorar a capacidade dos hospitais de identificar a morte cerebral. “A estrutura para buscar órgãos no Brasil é de primeiro mundo. É só identificar o órgão que buscamos até de avião, mas os hospitais têm de se envolver mais”, diz. Devido ao curto tempo entre a captação e o transplante, órgãos podem ser perdidos. O coração precisa ser transplantado em até seis horas após ser retirado do corpo do doador. O fígado 12 horas e o rim, 36.
Rins
Apesar de 110 mortes nos últimos cinco anos, dos 563 que precisaram de um novo rim, quem aguarda pelo órgão na Central de Transplantes de São Paulo e é cadastrado pelo HB tem mais esperança de sobrevida em relação ao fígado e ao coração. A taxa de mortalidade de Rio Preto é de 19%.
Mário Abbud Filho, chefe do setor de transplantes do HB, afirma que as mortes ocorrem devido à demora em conseguir um órgão compatível, mas que o número está dentro do aceitável e da média nacional. “Essa média, porém, pode ser reduzida. Uma alternativa seria o governo criar setores de notificação nos hospitais, inclusive os privados”, afirmou.
Capacitação não funciona
Equipes do serviço de procura de órgãos e tecidos (Spot) do HB fizeram no ano passado capacitações em hospitais da região, porém somente nos primeiros meses essas instituições fizeram a notificação de potenciais doadores. “Os profissionais da saúde acumulam função e acabam deixando de fazer isso. Fornecemos a orientação, mas não temos como ficar nesses hospitais o tempo todo. As instituições não têm interesse no serviço porque envolve custo com equipe multidisciplinar”, afirmou o médico João Fernando Pícolo, coordenador do Spot.
Mortes foram reduzidas
A quantidade de transplantes de rim tem aumentado nos últimos anos. Em 2007 foram 58, contra 104 em 2010. Porém, em 2011 caiu para 72. O aumento de quatro anos consecutivos de transplantes e a retirada de pacientes da fila devido a melhoras fizeram com que o número de óbitos caísse pela metade em cinco anos, de 27 para 15. “A nossa média é melhor do que a americana, mas ainda é pior que a francesa e a japonesa. Ainda pode ser melhorada com a otimização das equipes”, diz Abbud Filho.
As mortes na fila do fígado caíram três vezes, de 62 em 2007 para 19 no ano passado. Apesar da queda de óbitos, a quantidade de procedimentos realizados em 2011 foi menor que a de cinco anos atrás – 22 contra 25. “Isso é reflexo da regulação que é feita por gravidade da doença. Os pacientes mais graves têm prioridade no transplante”, afirmou o médico Renato Silva, do setor de transplante de fígado do HB.
Ricardo morreu após um ano e meio de espera
Os problemas de José Ricardo Ajala começaram em 2003, quando descobriu que tinha hipertensão. A doença evoluiu para insuficiência renal crônica, e o seu quadro de obesidade agravava ainda mais a situação. Pouco tempo depois, uma cirurgia de redução de estômago melhorou a doença cardíaca, mas os rins continuavam comprometidos.
Em um ano e meio na fila para o transplante, ele não resistiu à doença.
“Ele fazia tratamento e teve de fazer dois anos de hemodiálise. Tínhamos de ir três vezes por semana no HB, onde ficávamos quatro horas. Nos primeiros seis meses os médicos observaram que ele não melhorou, então o encaminharam para a fila de transplantes”, diz a esposa Rosemeire Pimentel Ajala, 56 anos.
Dificuldade
Enquanto tinha a vida dependente de uma máquina, o administrador vivia uma espera sem previsões, já que possuía um tipo raro de sangue. Por conta disso, ele poderia passar à frente da fila caso existisse um doador compatível, caso contrário não conseguiria um novo órgão. A segunda opção venceu. “Sempre estávamos esperançosos, mas ele foi ficando mais doente e órgão não vinha. Ele lutou enquanto pôde”, disse Rosemeire. Ricardo Ajala deixou duas filhas. Atualmente, Rosemeire trabalha no escritório de uma transportadora. Mora na Vila Azul, zona sul de Rio Preto.
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Sergio Isso
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Cristiane Canhola, 28 anos, está na fila do transplante de pâncreas e rim há seis meses
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Esperança move espera por novo órgão
A espera por um fígado mudou a vida do vendedor rio-pretense Luiz Augusto Poiani, 50 anos. No período de um ano, quando passou a integrar a fila do transplante, perdeu 27 quilos, parou de dirigir e hoje não consegue caminhar por longas distâncias. Passa a maior parte do tempo deitado. Além das limitações físicas e comportamentais, convive com a incerteza de receber um novo órgão. “Tenho medo de que o novo fígado não chegue.”
Poiani adoeceu em razão de uma cirrose hepática, diagnosticada em maio de 2010. Desde então, faz tratamento no Hospital de Base (HB). Ele toma nove comprimidos por dia e duas injeções a cada semana. “A situação é difícil, mas tenho que manter a esperança.” O transplante do vendedor quase se concretizou em duas oportunidades. Chegou a ser convocado pelo hospital, se preparar mental, física e psicologicamente e deitou na maca. Mas voltou para casa sem resolver o seu problema de saúde. Os fígados disponibilizados não reuniam boas condições.
A atendente Cristiane Gonçalves Canhola, 28 anos, há seis meses entrou na fila para o tranplantes de pâncreas e rim.
Ela engravidou, perdeu o bebê e agora depende de hemodiálise e insulina. A pressão alta prejudicou os rins e a diabetes, o pâncreas. “Tive o sonho da gravidez transformado em pesadelo. Preciso de um transplante para voltar a viver normalmente.” Em razão da hemodiálise, deixou o trabalho e teve a qualidade de vida prejudicada. “Tenho de passar 4h durante três dias da semana no hospital. Sinto muita fraqueza e não consigo fazer quase nada.”
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Sergio Isso
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José Silva recebeu um fígado após cinco anos de espera
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Qualidade de vida
Para o chefe do setor de transplantes do HB, Mário Abbud Filho, o principal problema da espera por um órgão é a queda na qualidade de vida. “Esses pacientes têm alternativas, como a diálise, no caso do rim. Mas só o transplante para melhorar esse quadro”, disse Filho.
Para o caminhoneiro José George Silva, 52 anos, de Votuporanga, a espera terminou. Ele aguardou cinco anos até a doação de um rim. O transplante foi realizada há dez dias. Ainda internado no HB, espera retomar a rotina pessoal e profissional em breve. Em razão da falência do órgão, motivada por hipertensão, parou de trabalhar. “É terrível essa situação, mas não havia outra opção. A gente vive na expectativa. Mas não se pode perder a esperança e a fé”, afirma Silva.
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Paulo Jose De Fazzio Junior
postado em
29/01/2012
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Paulo Jose De Fazzio Junior
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