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São José do Rio Preto, 9 de Março, 2010 - 3:04
Desmatamento faz barbeiros virar ameaça

Michelle Berti

 

Sérgio Menezes
Salime Canovas, aposentada que contraiu o mal de Chagas: cansaço
Pesquisa inédita realizada pela Unesp de Rio Preto revela que a doença de Chagas, mal geralmente associado ao campo, é uma ameaça para os municípios da região. O desmatamento das áreas rurais e o crescimento desordenado das cidades tem provocado a urbanização do barbeiro, inseto responsável pela transmissão da doença.

Nos últimos seis anos, 13,4 mil barbeiros foram capturados em cidades como Rio Preto, Catanduva, Jales, Fernandópolis e Votuporanga. Os dados são da Superintendência de Controle e Endemias (Sucen) e foram tabulados pela pesquisadora Rosana Silistino de Souza, do Departamento de Biologia da Unesp. No Hospital de Base, são atendidos entre 30 e 50 novos pacientes por ano em consequência da doença.

Entre 1995 e 2009, 700 doentes foram monitorados pela instituição, dos quais 350 morreram. “O crescimento descontrolado dos municípios com habitações precárias e falta de educação sanitária e de saneamento básico têm favorecido a domiciliação dos vetores, que buscam abrigo e alimento nas cidades, mantendo a transmissão da doença ”, diz Rosana.

Picada

O mal de Chagas é provocado pelo protozoário Trypanossoma cruzi. Ao picar um animal contaminado, o barbeiro se torna transmissor da doença. A forma clássica de contágio se dá por meio da picada do bicho - ao coçar a área lesionada, o protozoário penetra a pele e atinge o sangue. Nesse caso, a doença pode levar de 20 a 30 anos para se manifestar.

A forma mais preocupante de contágio, porém, se dá por via oral. Ao ingerir alimento contaminado pelas fezes do inseto, a doença se desenvolve rapidamente e pode levar à morte em poucos dias. Em 2005, caldo de cana matou três pessoas e contaminou outras 21 em Santa Catarina. Na região norte, o açaí também transmitiu a doença.

“O estudo é um alerta para órgãos de saúde e para a população. A doença existe e mata mais que a dengue e malária”, diz a professora Maria Tercília Vilela, que pesquisa espécies de barbeiro desde 1979 e orientou a pesquisa de Rosana.

Espécies

Uma das principais descobertas da pesquisa é a constatação das espécies de barbeiro predominante na região. O principal transmissor da doença no País, durante décadas, foi Triatomínio infestans. Ele foi eliminado das áreas urbanas após o trabalho dos órgãos de saúde. No entanto, espécies consideradas secundárias estão ocupando o seu lugar na cadeia de transmissão da doença.

“Há duas espécies de barbeiro que são encontradas em praticamente todas as cidades da região. Essa evidência, aliada aos pacientes atendidos no HB, mostram que o mal de Chagas merece atenção”, diz Rosana. A aposentada Salime Atuí Canovas, 62 anos, é portadora de Chagas desde os 20 anos. Ela acredita que se contaminou na fazenda em que trabalhava como professora. “Na época, descobrimos um criadouro de barbeiros”, diz.

Cansaço

Além do cansaço, a doença provocou uma arritmia no coração e ela precisou colocar um marcapasso em 2001. “Tomo os remédios e faço controle a cada seis meses da doença.” Segundo ela, falta informação para a população sobre o barbeiro e o mal de Chagas. “A doença existe e é penosa. Faltam ações para informar as pessoas e novas opções de tratamento.”

Célula-tronco é esperança para chagásico

Pesquisa realizada com células-tronco há cinco anos no Instituto de Moléstias Cardiovasculares (IMC) de Rio Preto trouxe esperança a um grupo de 60 pacientes portadores de problemas cardíacos, 30 deles provocados pela doença de Chagas. A taxa de mortalidade caiu de 50% (com o tratamento convencional) para 17%.

O método consiste em retirar células-tronco da medula óssea do próprio paciente, enriquecê-las em laboratórios e injetá-las novamente no paciente. “As células fortificam o músculo do coração, que fica fraco devido à doença”, explica Oswaldo Tadeu Greco, cardiologista que coordena a pesquisa.

Segundo ele, pacientes que mal saíam da cama já retomaram atividades como caminhadas e pequenos trabalhos. “Eles ganharam em qualidade de vida.” Os resultados animadores incentivaram o grupo de pesquisa do Instituto a realizar uma segunda etapa de estudo. “Queremos enriquecer ainda mais o cultivo da célula-tronco em laboratório, para que ela se torne mais potente. O objetivo é ajudar pacientes que não tiveram grandes avanços no tratamento”, diz. “Já estamos em contato com o Ministério da Saúde e devemos começar os trabalhos este ano.”

Outra pesquisa realizada na Faculdade de Medicina de Rio Preto (Famerp) também pode ajudar, no futuro, portadores da doença. “Concluímos um estudo que mostra que a evolução clínica dos pacientes com Chagas enquanto aguardam um transplante de coração é pior que os não chagásicos”, diz o chefe do departamento de cardiologia do Hospital de Base, Reinaldo Bestetti.

“A partir dessa informação, é possível discutir a priorização desses pacientes na fila.” Outro estudo concluído na Famerp mostra que drogas betabloqueadoras melhoram a sobrevida do infectado. As duas pesquisas serão publicadas em revistas científicas internacionais e apresentadas em congressos médicos.

Perfil

A população atingida pela doença é, na maioria, de baixa renda. “É uma doença relacionada a pobreza. Por isso faltam esforços para combatê-la”, diz Bestetti. Em Rio Preto, a pesquisa realizada por Rosana Silistino de Souza e Maria Tercília Vilela mostra que a maioria dos pacientes atendidos no HB nos últimos 15 anos são lavradores e donas-de-casa. A incidência da doença é maior entre os 50 e 80 anos.

Natural de países tropicais quando foi descoberta em 1909 pelo médico brasileiro Carlos Chagas, a doença se espalhou pelo mundo e hoje é encontrado na maioria dos países. No mundo, estima-se que haja 15 milhões de infectados. No Brasil, esse universo corresponde a 2,5 milhões de pessoas. “Em 1911, Chagas disse que para acabar com o mal era preciso casas de alvenaria. Cem anos depois, a solução ainda é essa.”

Combate

A coordenadora da Superintendência de Controle e Endemias (Sucen) de Rio Preto, Sirle Scandar, afirma que o órgão faz trabalho regular de vigilância e informação para combater o barbeiro e a transmissão da doença.

“Nossos agentes vão a escolas onde está concentrada a população rural para orientar sobre o vetor. Mostramos o inseto, ensinamos como identificá-lo e capturá-lo sem a necessidade do toque.” Se o animal capturado for mesmo o barbeiro, agentes voltam até a residência, buscam criadouros e fazem nebulização com insenticida em um raio de 200 metros.



 
     
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