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São José do Rio Preto, 10 de Janeiro, 2010 - 0:05
Pacientes esperam até 3h por consulta em UBS

Allan de Abreu, Vívian Lima e Graziela Delalibera

Sérgio Menezes
Cachorro divide espaço com pacientes na sala de espera da emergência
No período de 24 horas, entre os dias 6 e 7, 1.430 pessoas foram atendidas na Unidade Básica de Saúde (UBS) do Solo Sagrado, zona norte de Rio Preto, uma média de 59 pacientes por hora, ou um a cada minuto. Muitas vezes, pacientes chegam a esperar até três horas por uma consulta no ambulatório, se espremem nas salas apertadas da ala de emergência e esperam até uma hora na fila para agendar exames médicos.

O Diário acompanhou a rotina da UBS nessas 24 horas. Na emergência, médicos, enfermeiros e pacientes se comprimem em salas minúsculas e corredores apinhados. As paredes estão descascadas e encardidas, muitas com fios elétricos à mostra. Na sala de espera, dois cachorros passearam entre os doentes por cerca de meia hora na manhã do dia 6, sem ser incomodados em nenhum momento. Na madrugada, um deles dormiu na recepção da emergência. Não há sujeira no chão, mas é comum pedaços de algodão embaixo de bancos e cadeiras - algumas delas sem encosto.

A estrutura precária se repete no ambulatório. No corredor, sempre lotado, os ventiladores não espantam o forte calor. Não há papel higiênico no banheiro masculino, e o chão molhado exala um odor forte. O paciente tem dificuldade para fechar a porta do sanitário porque a soleira apodreceu. “Só pobre para suportar um lugar horrível desse”, diz a dona de casa Edna Alves Godoy. Ela reclama do atendimento ao marido, que há um mês sente uma forte dor no tórax. “É a terceira vez que venho aqui. Eles dão Tylenol e dipirona e mandam para casa. Deveriam encaminhar para um hospital.”

Sérgio Menezes
Com acidente vascular cerebral, Maria Corrente aguarda na UBS do Solo


Edna chegou à emergência por volta das 9h, horário de pico no período da manhã. Médicos e enfermeiros correm de um lado a outro para dar conta da demanda. O caso mais grave é o da aposentada Maria Joana Doval Corrente, 79 anos. “Ela sofreu um AVC, e está entre a vida e a morte”, afirma a chefe da enfermagem, Daniela Ferraz.

Na sala ao lado, a nora dela, Maria Aparecida Alves, 59 anos, chorava de preocupação. “Não sei se ela aguenta.” Vinte minutos depois as duas embarcam na ambulância do Samu e seguem para a Santa Casa. “Em casos mais graves só damos o atendimento inicial e encaminhamos para o hospital”, explica Daniela. Até sexta-feira, ela seguia internada em estado grave.

Todos os que chegam à emergência são entrevistados por duas enfermeiras. São elas que avaliam a gravidade do caso e decidem a ordem de atendimento. O pedreiro Fábio Dias Feitosa, 33 anos, ganhou logo prioridade. Entrou na emergência lívido, suando, um pano na mão esquerda. “Estava na obra quando enfiei um ferro na mão.” A enfermeira aplica medicação, faz curativo. Meia hora depois, ele sai mais corado.

Em frente à emergência, uma fila de até 50 metros se forma em frente a dois guichês. É lá que os pacientes agendam e retiram exames. Uma delas, a cabeleireira Rosimar do Carmo, esperou meia hora por atendimento e saiu decepcionada. “Preciso fazer um exame ginecológico, mas disseram que está em falta. Pediram para voltar daqui 15 dias.”

Para a aposentada Leonilde de Oliveira Cicone, a espera é muito maior. Com problemas neurológicos, o médico da UBS solicitou uma ressonância magnética no cérebro em julho do ano passado. Até agora não conseguiu. “Venho aqui toda semana, mas a resposta é sempre a mesma, que o exame está em falta.” Nesse período, diz, seu estado de saúde só piorou. “Preciso tomar remédio para não ter convulsão.”

Quando a hora do almoço se aproxima, o movimento na UBS cai. Só volta a aumentar por volta das 13h30, principalmente no ambulatório. Lá, o aposentado Vicente de Souza Leite, 74 anos, esperou duas horas para ser consultado por um clínico-geral. “Sou hipertenso, e não tenho me sentido bem.” Enquanto esperou ser chamado, sofreu com a pressão alta, medida pela enfermeira logo que chegou à unidade:16 x 12.

Ao lado dele, o vigia Adão Carlos dos Santos aguardou três horas para ser consultado. Com dores no braço direito, foi atrás de um clínico-geral. Chegou às 13h30, meia hora antes do horário marcado, e só deixou a UBS às 17h30. “Paciência tem limite. Perder o dia todo para uma consulta é demais”, reclama.

Às 17h40, o movimento na emergência ainda era grande, mas a espera para o atendimento era de, em média, 20 minutos. Foi quando chegou o aposentado Roberto do Amaral, 49 anos. Sentindo muita tontura ele achou melhor deitar no banco para esperar ser chamado, o que aconteceu dez minutos depois. Uma hora depois ele deixa a unidade. O diagnóstico: intoxicação alimentar.

Chega a noite e o movimento no ambulatório continua em ritmo frenético. O corredor do local, que abriga umas 25 pessoas, está sempre cheio. Só esvazia lá pelas 21h, uma hora antes do fechamento. Na emergência, o movimento também começa a reduzir pouco antes das 21h. Às 22h chega ao local o metalúrgico Jonatan Pereira Solbi, 18 anos. Um acidente com uma porta de vidro resultou em um corte no pulso direito e lesão em uma artéria. Depois de ser atendido, foi encaminhado para a avaliação de um cirurgião plástico na Santa Casa.

Rubens Cardia
Roberto do Amaral, deitado: intoxicação
Emergência vai ser transferida

A assessoria de imprensa da Secretaria de Saúde de Rio Preto informou por meio de nota que no próximo mês o setor de emergência da UBS será transferido para a unidade de pronto-atendimento da Zona Norte. O novo prédio, que custou R$ 2,2 milhões, tem 1.073 metros quadrados de área construída, seis consultórios e 36 leitos. “A mudança vai resolver nosso problema de estrutura física”, diz a gerente da unidade, Luciana Borges Garcia.

Logo após a transferência, o prédio atual será reformado, e irá abrigar apenas o ambulatório e o Programa de Saúde da Família (PSF). Quanto aos cachorros na recepção da emergência, a assessoria informou que os funcionários da unidade sempre orientam os usuários a retirar do prédio os animais domésticos que levarem ao local.

Atraso

No caso do vigia Adão Carlos dos Santos, a assessoria da pasta disse que sua consulta foi “encaixada” para o período da tarde, “a partir das 14h”. “No momento do agendamento, o usuário foi orientado de que havia outros pacientes agendados para o período da tarde e que o atendimento poderia demorar. Portanto, não houve atraso no atendimento do mesmo”, informa a nota.

Guilherme Baffi
Paciente é atendida na emergência: parede precária
Na emergência, doença tem hora

À primeira vista, o setor de emergência da UBS do Solo Sagrado parece caótico, sem rotina. Mas não é bem assim: há hora e data para a população ficar doente. Às segundas-feiras, por exemplo, muitos se dizem adoentados porque querem um atestado para faltar ao trabalho e esticar o fim de semana. “Explicamos que só emitimos o documento em caso de doença constatada”, diz a enfermeira Daniela Ferraz.

Nas noites de quarta-feira e tardes de domingo, horários tradicionais do futebol, a emergência fica vazia. O mesmo acontece quando chega o último capítulo da novela das oito. “Parece que ninguém fica doente nessas horas”, diz o enfermeiro Alessandro Alves.

No dia a dia, há horários padrões na emergência. Às cinco da tarde é a vez das crianças que saíram da escola, foram brincar e se machucaram. Às 18h começa a chegar a ambulância do Samu com as vítimas de acidentes no trânsito, maioria motociclistas.

Quando se aproxima a madrugada é a vez dos alcoolizados, viciados em crise e mendigos. Um morador de rua é conhecido de todos os funcionários: frequentemente ele aparece dizendo ter fortes dores no estômago. “A gente sabe que não é verdade, mas dá atendimento. Ele quer um lugar para dormir”, diz Daniela.

Na madrugada de terça-feira, um caso curioso chamou a atenção da equipe de plantão na madrugada. Um morador de rua solicitou o serviço do Samu quatro vezes. “Ele era atendido, andava um pouco e, se via bar aberto, pedia para o dono ligar porque estava com dor na barriga”, recorda a técnica de enfermagem Alessandra Okamoto, que atendeu as quatro ocorrências.

Já alguns moradores da região estão tão familiarizados com os funcionários da unidade que vão até lá à procura de um ombro amigo. Luís Antônio Guiotti, auxiliar de enfermagem, há 13 anos no Solo Sagrado, conhece bem essa tática. “É preciso muita psicologia. Já atendi paciente que veio aqui chorando sem parar e numa conversa descobri que o motivo era a briga que tinha acabado de ter com o marido.”

Rubens Cardia
Corredor do ambulatório: lotado todos os dias
Marcação de consulta melhora na unidade

Nove meses após a última visita da reportagem do Diário, a UBS do Solo Sagrado apresentou melhorias. A sujeira que era generalizada deu lugar ao chão limpo, com exceção de alguns pedaços de algodão. A triagem na emergência ganhou eficiência: agora são duas enfermeiras na função, no lugar de apenas uma em março. Além disso, no período da tarde uma funcionária faz a função de recepcionista. A mudança, aparentemente, deu resultado: durante a permanência da reportagem, ninguém aguardou mais de meia hora por atendimento no setor. “Não deixamos ninguém sem atendimento”, diz a gerente, Luciana Borges Garcia.

No ambulatório, o agendamento de consultas, que antes demorava mais de dois meses, agora dura em média uma semana - para a pediatria, há vagas para o dia seguinte, segundo a gerente Adriana Érika Marques Guarnieri. “Muita coisa melhorou nos últimos meses. O sistema para a gente marcar consulta está muito mais eficiente”, diz a dona de casa Gisele Magalhães Neves, que aguardava consulta no pediatra para o filho.

A presença do Diário no local, porém, alterou detalhes do funcionamento da UBS. Por volta das 15h, a reportagem constatou uma tomada no rodapé de um corredor do ambulatório com a fiação elétrica à mostra, possível risco para crianças. Meia hora depois, porém, a tomada foi devidamente tampada. “Os usuários roubam o que podem: espelhos de tomada, saboneteiras no banheiro, papel higiênico”, afirma.

Rubens Cardia
Médica Rosana Meluci atende paciente Jonatan Solbi, que sofreu corte no pulso
Funcionários sofrem com violência

A violência é uma ameaça constante aos funcionários da UBS do Solo Sagrado. “Somos xingados todos os dias. As pessoas acham que precisam ser sempre atendidas na hora e não é bem assim. Temos de dar prioridade aos mais graves”, diz a chefe da enfermagem da emergência, Daniela Ferraz. Não é raro que os insultos descambem para ameaças de morte e até agressão física. Um guarda está afastado depois de ter um dos dedos quebrados por um paciente.

Há um ano, na madrugada, Daniela atendeu um rapaz com vários cortes pelo corpo. “Ele estava todo ensanguentado e era soropositivo. Como estava sob efeito de droga, estava muito agressivo. Precisamos trancá-lo em uma salinha até ele se acalmar.” Minutos depois, porém, quando o pai dele chegou, o rapaz escapou da sala ainda mais nervoso. Nesse instante, o pai infartou. “Enquanto metade da equipe tentava reanimar o pai, a outra corria atrás do rapaz.” Ele só foi contido depois que um médico e um auxiliar de enfermagem conseguiram derrubá-lo e imobilizá-lo. O pai foi encaminhado para um hospital, mas não resistiu e morreu.

Stress

“Nosso trabalho é muito estressante. A gente tenta não absorver os xingamentos. Mas não é fácil você ser humilhado o tempo todo por gente mal-educada”, diz uma auxiliar de enfermagem que pediu para não ser identificada. Um enfermeiro do turno da tarde está afastado por depressão.

A correria dos funcionários é intensa durante a maior parte do dia. “Tem dia que não dá nem para tomar água”, diz o enfermeiro Alessandro Alves. Mas os profissionais da unidade parecem já terem se acostumado à jornada em pausas. “Eu entrei aqui às 13h45 e estou comendo uma maçã agora, às 21h30”, disse a médica do ambulatório Vera Lúcia Kawagoe. Mas ela não reclama. “Eu gosto muito daqui. Não tenho queixas não.”

Paz

Quem trabalha há mais tempo na unidade fala que a situação já foi bem pior e o clima agora “é de paz”. “Quando entrei aqui morria de medo. A gente sofria muita ameaça. Atendíamos muitos baleados e esfaqueados”, diz o auxiliar de enfermagem Luís Antônio Guiotti, que está há 13 anos na unidade. “As pessoas eram largadas aqui em frente para serem socorridas. Agora esse tipo de caso não tem mais.” Ele acredita que a mudança veio por causa da melhora da condição econômica da população.

Guilherme Baffi
Daniel, 1 mês, recebe cuidados na emergência: atendimento na UBS melhora
Bebê dá susto em madrugada atípica

Quando a reportagem chegou à unidade à meia-noite, parecia que a madrugada seria tumultuada. Um carro do Samu tinha acabado de entrar na emergência, e a técnica de enfermagem Sueli Cecutti descia com o pequeno Daniel, de um mês, no colo. A dona de casa Aline Cristina Leite, 22, mãe do bebê, acompanhava apreensiva. Ela pensava que o menino tinha engasgado, mas foi só um susto.

Sueli tinha entrado às 18h30 em seu turno e àquela altura contabilizou ter atendido 11 ocorrências. Na recepção, Devicente Fernandes de Sousa, 49, e sua família, aguardavam o aposentado Antônio, 75, que lá dentro era atendido pela médica Rosana Melluci. O paciente foi liberado por volta da 1h30 e a movimentação nos corredores da unidade estava menor. A estudante Mynara Fidélis Pinheiro, 17, era a única que ocupava um dos quartos, com o filho Ítalo, de 11 meses, que tomava soro. “Assustei demais. Parecia que ele ia vomitar todo o líquido do corpo.”

A equipe da noite conta com uma enfermeira e cinco auxiliares, além de dois clínicos gerais e dois pediatras. A maior procura ocorre até as 3h. Após esse horário, os pacientes começam a retornar a partir das 6h. A madrugada daquela quinta-feira, porém, foi atípica. Com a calmaria, o tempo demorou a passar. Houve momentos em que toda a equipe ficou reunida na emergência jogando conversa fora.

“Acaba sendo imprevisível. Hoje, por exemplo, esperávamos mais movimento, porque ontem choveu e aí a população não sai de casa”, disse a médica Rosana, enquanto tomava um café junto com o colega e diretor técnico da unidade, Alcides Pinto de Souza Junior.


Sete suspeitas de dengue

Durante as 24 horas que a equipe de reportagem esteve na UPA, sete casos de suspeita de dengue foram notificados. Pacientes com sintomas começaram a chegar nas primeiras horas da manhã para fazer a sorologia. Foi o caso da estudante Carla Nobre, 18 anos. Ela começou a ter os sintomas na quinta-feira retrasada. Começou a piorar na sexta-feira, com febre e mal-estar. No sábado, procurou a unidade, quando foi feita a notificação e agendado o exame.

Doença

“Hoje durante o dia vim de novo à unidade, mas já estou me sentindo bem melhor.” Se a doença for confirmada, será a primeira vez que a estudante contrai dengue. “Nessa época, o número de pacientes com os sintomas começa a aumentar”, observou o auxiliar de enfermagem Luís Antônio Guiotti.

Improviso

Por falta de espaço, os funcionários improvisaram uma mesa na entrada da emergência para fazer a primeira triagem dos pacientes com suspeita de dengue. Desde o dia 22 de dezembro até o dia 6 de janeiro, 68 notificações de suspeita de dengue foram anotadas num livro que fica no local. “Nesta época do ano chega muita gente com sintomas da doença, por isso deslocamos um funcionário exclusivamente para o serviço”, diz a chefe da enfermagem Daniela Ferraz.

Rubens Cardia
A conselheira Silvia Helena Assunção, que fiscaliza a UBS
Fiscal é ‘o olho do povo’


Se tem alguém que conhece a rotina do ambulatório e da emergência da unidade de saúde do Solo Sagrado essa pessoa é a conselheira de saúde do bairro Silvia Helena Paulina Assunção, 41 anos. Todos os dias ela passa no local para verificar como está sendo feito o atendimento, se médicos faltaram e se há atraso de consultas. “Me dedico a esta unidade há 16 anos.”

O trabalho não é remunerado, mas ela cumpre como uma obrigação. A intenção dela e de outros conselheiros é tornar os serviços no local cada vez mais eficientes. “Eu vejo o lado do usuário. Eu tenho de ser o olho do povo.” Nos dias em que trabalha como copeira, Silvia chega a unidade de saúde por volta das 18h30. “Espero a troca de plantão às 19h. Vou embora, faço janta e volto pouco depois das 20h e fico até 22h30.” Já nos dias em que não atua como copeira, ela afirma que passa quase o dia todo na unidade. “Eu tenho conta na venda e às vezes as meninas que trabalham aqui dividem o almoço comigo.”

Silvia afirma que o trabalho dos conselheiros já trouxe melhorias ao atendimento. “Um exemplo são as cadeiras para a espera na emergência. O pessoal achava que era pouco. Nós pedimos e eles colocaram mais.” Mas por passar tanto tempo vendo as necessidades da unidade, os conselheiros percebem também o que falta para os médicos. “Com a transferência da emergência para a nova unidade de pronto-atendimento da zona norte, vai ficar melhor para os médicos também. A sala de conforto, onde eles descansam à noite, lá vai ser melhor.”



 
     
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