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São José do Rio Preto, 18 de Outubro, 2009 - 11:02
Baixar colesterol é saída para coração bom

Cecília Dionizio

Orlandeli/Editoria de Arte
Cardiologista alerta que cuidados alimentares evitam o acúmulo de placas
Você já sabe que para se manter livre de um infarto, derrame ou outras doenças cardiovasculares, é preciso manter o equilíbrio da saúde. E isto implica manter os níveis do colesterol LDL-C (colesterol ruim), em dia. É fato que o organismo se vale do colesterol, mas ele em excesso pode danificar os vasos sanguíneos. E já há dados da Organização Mundial de Saúde (OMS) que mostram que, em média, a cada cinco minutos ocorre uma morte por infarto do miocárdio no Brasil. Isto mostra que as doenças cardíacas, hoje, matam mais do que a Aids e outros males.

Os consultórios médicos com inúmeros pacientes cardíacos indicam que este fator está atrelado ao consumo de alimentos pouco saúdáveis, de tabaco, excesso de gordura e falta de atividade física. São práticas negativas que levam ao acúmulo de gordura nas paredes das artérias, formando placas que dificultam a passagem do sangue e, em alguns casos, interrompem a circulação, levando às doenças citadas, que em alguns casos podem ser fatais. A Sociedade Brasileira de Cardiologia esclarece que é indispensável que a população aprenda a manter o colesterol ruim em nível ideal. Pacientes de alto risco, com diabetes, hipertensão e histórico de problemas cardiovasculares devem manter o nível de LDL-C menor que 70mg/dL”, explica o médico José Ramires, professor titular de cardiologia do Instituto do Coração (InCor) – Hospital das Clínicas, Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo.

Para falar um pouco mais sobre a necessidade de manter o indíce do LDL-C baixo, o Diário convidou o cardiologista Marcelo Bertolami, diretor científico do Instituto Dante Pazzanese de Cardiologia, para uma entrevista. Ele explica que quanto mais baixo o colesterol ruim, melhor. Isto porque a dislipidemia, doença caracterizada por elevadas taxas de colesterol no sangue, é silenciosa, e não apresenta sintomas. Daí, muitas vezes, a dificuldade de se evitar consequências como o infarto, o acidente vascular cerebral (derrame) e outros.

Diário - Alterações emocionais intensas podem afetar a saúde de modo a elevar os índices do colesterol ruim, também, a exemplo do que ocorre com os glicêmicos, por exemplo?
Marcelo Bertolami - Existe discussão se os problemas emocionais podem afetar diretamente as taxas dos lípides do sangue (colesterol e triglicérides). No entanto, se as pessoas, por causa da ansiedade ou depressão, passarem a comer como fuga, com erros na quantidade e/ou na qualidade dos alimentos, sem dúvida isto poderá promover mudanças em seu perfil lipídico.

Diário - Houve alguma mudança recente nos índices ideais de colesterol?
Bertolami - Para o colesterol total a taxa considerada adequada é abaixo de 200 miligramas por decilitro de sangue (mg/dL). No entanto, é muito importante a determinação das frações do colesterol: LDL-colesterol - colesterol ligado à lipoproteína de baixa densidade, que é a forma de depósito do colesterol nos tecidos e que por isso quanto mais alta for, pior para a saúde cardiovascular - a taxa ótima é abaixo de 100 mg/dL, mas pode-se aceitar até 130 mg/dL.

Diário - Os altos índices de colesterol ruim podem ser considerados um novo marcador para doença cardíaca iminente?
Bertolami - Entre 130 e 160 são taxas limítrofes (farol amarelo) e acima de 160 é considerado alto (farol vermelho). É importante observar que as taxas do colesterol recomendadas variam de acordo com a situação do risco cardiovascular das pessoas. Assim, para aquelas que têm risco mais alto de apresentar problemas, a taxa recomendada é abaixo de 70 mg/dL. A outra fração do colesterol é a ligada à lipoproteína de alta densidade (HDL-colesterol). Essa lipoproteína é a forma de retirada do colesterol das células e quanto mais alta ela for, em geral, maior é a proteção cardiovascular que a pessoa apresenta. São consideradas adequadas as taxas acima de 50 mg/dL para as mulheres e acima de 40 para os homens. Por que recomendamos sempre a determinação das frações do colesterol? Porque não é incomum encontrarmos pessoas que apresentam o colesterol total abaixo de 200 mg/dL, mas que apresentam o HDL-colesterol baixo com o LDL-colesterol alto, o que a coloca na situação de risco cardiovascular aumentado. Raramente aparecem pessoas que têm o colesterol total alto que quando se faz o fracionamento apresentam o HDL-colesterol muito alto (o que em geral é protetor). Infelizmente, não temos ainda um marcador confiável do risco de doença cardíaca iminente. Sabemos que quanto mais alto o LDL-colesterol, maior o risco cardíaco ao longo dos anos, mas não dá para prever se algo que poderá ocorrer em breve.

Diário - Como o colesterol pode ser controlado por meio de alimentação, desde cedo, de modo que se possa conciliar a rotina corrida e a alimentação fora de casa?
Bertolami - Os principais determinantes de nossas taxas de colesterol são a carga genética de cada um, a alimentação e a eventual presença de doenças que podem, secundariamente, levar ao aumento do colesterol (hipotiroidismo, doenças renais e hepáticas) ou o uso de remédios que podem aumentar o colesterol (isotretinoína para o tratamento da acne juvenil). Nos casos das doenças ou do uso de remédios, o abandono destes e o controle da doença de base, em geral, regulam as taxas do colesterol. No entanto, mais comumente estamos frente aos problemas de colesterol familiares ou decorrentes da má alimentação. Mesmo quando é necessário o uso de remédios para obtenção das metas de colesterol recomendadas para cada situação individual do risco cardiovascular, sempre as medidas não farmacológicas de tratamento devem ser implementadas. Parar o fumo (no caso dos fumantes), reduzir peso se for o caso, prática regular de atividade física e controle alimentar. Quanto mais cedo na vida esse controle for iniciado, maior a chance de prevenção.

Diário - Qual a idade ideal para se adotar estas medidas?
Bertolami - A recomendação é de que todas as pessoas a partir dos 10 anos de idade tenham o seu perfil lipídico (colesterol total, HDL-colesterol, triglicérides e LDL-colesterol) determinado. Alguns alimentos sabidamente aumentam o colesterol sanguíneo: gorduras saturadas - presentes em alimentos de origem animal como os leite e seus derivados (manteiga, queijos amarelos, creme de leite etc) e as carnes e seus derivados (embutidos como presunto, salame, linguiça etc). Quanto ao colesterol alimentar, devemos lembrar que ele só está presente em produtos de origem animal (ovos, leite e derivados e carnes) - sabe-se que a resposta ao colesterol alimentar é variável de pessoa para pessoa. Quanto ao consumo de gordura saturada é mais previsível que trará aumento de colesterol em todos que a consumirem. Mais recentemente se tem chamado a atenção para os alimentos que contêm uma gordura que é ainda pior do que as saturadas - trata-se da gordura trans, presente em alimentos industrializados (gordura vegetal hidrogenada) como biscoitos e bolachas recheados, margarinas duras, sorvetes de massa, entre outros. Algumas gorduras podem ajudar a diminuir o colesterol sanguíneo (embora todas as gorduras engordem, por serem muito calóricas) - como é o exemplo do azeite de oliva, do óleo de canola e de girassol, entre outros. O consumo regular de frutas, legumes, verduras e cereais é bom para o perfil lipídico e prevenção cardiovascular. Fast food é sinônimo de má alimentação. As pessoas que comem fora de casa frequentemente devem aprender como escolher os alimentos entre os saudáveis porque o problema da alimentação está no erro regular, frequente. Comer algum alimento mais gorduroso vez ou outra é natural para quase todas as pessoas, exceto para aqueles que têm problemas mais graves e que não podem “bobear” nem de vez em quando.

Diário - Quais tipos de gordura podem ser ingeridas de fato, e em quais quantidades, sem que isto interfira na saúde do coração?
Bertolami - As melhores gorduras são as insaturadas (monoinsaturadas - presentes, por exemplo, no azeite de oliva, óleo de canola, abacate, frutas secas como nozes, avelãs e polinsaturadas - caso do óleo de girassol, milho e soja). Lembrar que toda gordura engorda e elas não devem ser consumidas com exagero. Quanto às gorduras saturadas, a recomendação é no máximo de 7% do valor calórico total dos alimentos. As trans devem ser zero.

Diário - Que novos medicamentos surtem efeito no controle e manutenção de baixos índices do colesterol ruim?
Bertolami - Hoje dispomos de medicamentos extremamente eficazes para o controle do LDL. Ainda há carência de bons produtos para aumentar o HDL. Os principais medicamentos capazes de reduzir o LDL são as estatinas, que agem diminuindo a fabricação de colesterol pelas células. Quando elas não forem suficientes para obtenção da meta de LDL recomendada para cada situação de risco cardiovascular, ou a dose necessária da estatina é muito alta, pode-se associar um remédio que age na absorção do colesterol pelo intestino. Trata-se da ezetimiba, que produz em média queda do LDL-colesterol de 20% em cima da estatina que já vinha sendo usada. Existem evidências concludentes que a redução do LDL-colesterol mantida por vários anos leva à diminuição do risco de eventos cardiovasculares e de morte.



 
     
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