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Sazonalidade
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São José do Rio Preto, 27 de Dezembro, 2009 - 0:26
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Época é favorável ao sofrimento mental
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Edvaldo Santos
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Psiquiatra Altino Bessa Marques alerta para o risco de consumo de medicamentos para ansiedade sem controle e diz que, às vezes, só com terapia pode-se resolver o problema
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Pode parecer exagero, já que estão todos em clima de festas natalinas, mas o que se vê hoje, em alguns lares, são muitas pessoas em depressão. Não existem dados de pesquisa consistentes, mas as alegações mais presentes na prática clínica estão relacionadas às situações que causaram sofrimento. Além disso, essa é uma fase do ano em que as pessoas se cobram mais e se questionam por não terem alcançado um objetivo, por exemplo. Toda essa ansiedade e cobrança gera estresse contribuindo para o agravamento do quadro depressivo ou até mesmo o surgimento da doença em pessoas geneticamente predispostas. Por isso, pode-se dizer que esses episódios têm duas causas: psicológica e ambiental”, afirma o psiquiatra professor Acioly Lacerda, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).
É bem verdade, que é um tipo diferente e nem sempre ocorre com a pessoa que já tende a ser deprimida. O que causa estranheza é justamente o fato de afetar pessoas que no dia a dia são animadas e têm alto-astral. É a depressão sazonal, problema que afeta uma quantidade importante de pessoas em outras épocas do ano, em especial no inverno, pela menor quantidade de luz.
O psiquiatra ainda explica que não existe uma forma direta de intervir nos estressores, mas que algumas medidas podem ser consideradas preventivas. “Um caminho pode ser a reestruturação cognitiva, ou seja, ajudar o paciente mudar a maneira de pensar e lidar com adversidades presentes e passadas. Além disso, é comum adiar um processo de retirada de medicação nesta época, caso o paciente já tenha um histórico de recaída no final de ano”, diz.
Segundo o psiquiatra Altino Bessa Marques, a sazonalidade não atinge as pessoas só nas festas de final de ano. “Diz-se que um portador tem transtorno afetivo sazonal (transtorno do humor com padrão sazonal) quando, em geral, experimenta depressão em período de luz do dia diminuído com o avanço do inverno”, explica.
O médico observa ainda que de acordo com os estudiosos Louzã Neto e Elkis, a depressão é mais comum no início do outono e do inverno, sendo que ocorre uma remissão na primavera. Além disso, estudos mostram que é mais comum em mulheres (pelo menos 75% de todas as pessoas afetadas são do sexo feminino) e os sintomas são um pouco diferentes dos quadros depressivos típicos. Elas demonstram mais avidez por consumir carboidratos, aumento do apetite, têm vontade de dormir excessivamente (hipersonia) e letargia (ou inércia). A idade média de apresentação deste quadro é de 40 anos, sendo raro em quem tenha mais de 55 anos. Isto pode acontecer também na depressão bipolar.
Contudo, é muito comum, em final de ano, se ouvir falar em pessoas que estão excessivamente tristes, ou que chegam mesmo a por fim na própria vida nesta época. O psiquiatra alerta para uma relação temporal regular entre o início dos episódios depressivos maiores no transtorno bipolar I, II ou transtorno depressivo maior recorrente, e uma determinada estação do ano, por exemplo, aparecimento regular do episódio depressivo maior no outono ou no inverno, conforme a classificação americana.
Evidente que não se pode incluir aí, os casos nos quais exista um efeito de estressores psicossociais claramente ligado à estação do ano, como um garçom de praia em cidade de inverno rigoroso, que esteja sempre desempregado nesta época. “O padrão sazonal também é encontrado em remissões completas e em “viradas” da depressão para mania ou hipomania (quadro mais brando, sem psicose, que a família consegue monitorar em casa, sem internar o portador) em uma época característica do calendário. Por exemplo, depressão desaparecendo na primavera”, diz.
Na verdade, Bessa Marques explica que existe um rigor quando se fala em pessoas com padrão para a depressão sazonal (período específico do ano). “É necessário que tenham ocorrido dois episódios depressivos maiores, demonstrando as relações temporais sazonais e nenhum episódio depressivo maior não sazonal no mesmo período (de dois anos)”, diz.
Para complicar um pouco, o último critério para a especificação do padrão sazonal registra que os episódios depressivos maiores sazonais superam em grande número os episódios depressivos maiores não sazonais que podem ter ocorrido durante a vida do indivíduo. Na entrevista concedida ao Diário, o psiquiatra Altino Bessa Marques, que é médico no Hospital Psiquiátrico Bezerra de Menezes e doutorando em depressão, explica melhor este e outros assuntos.
Diário - O que é crucial para diferenciar o depressivo sazonal do depressivo convencional?
Altino Bessa Marques - É possível que estudos futuros enfoquem a diferenciação entre indivíduos deprimidos com padrão sazonal e outros indivíduos deprimidos. Mas o que se tem hoje, são dois tipos de evidências que indicam que o padrão sazonal pode representar uma entidade diagnóstica separada: 1- Os pacientes têm uma probabilidade de se beneficiar com tratamento com luz, embora não se tenham conduzido estudos adequados para avaliar esse recurso em pacientes não sazonalmente deprimidos.
2- Um estudo com PET (tomografia por emissão de pósitrons) mostrou que os pacientes exibem redução da atividade metabólica no córtex orbitofrontal e no loboparietal inferior esquerdo. Outro estado emocional que pode ocorrer é mais uma tristeza não patológica, em que o indivíduo se recusa a participar de algo que julga apenas comercial, não espontâneo ou falso.
Também pode ter ocorrido alguma perda por morte, separação, finanças e a pessoa se entrega a uma reação de “aniversário” negativa, acreditando que a partir de tal ou qual dia estará melhor, sem constituir uma verdadeira sazonalidade.
Diário - Por que, aparentemente, tem tanta gente se desentendendo com os familiares, numa época em que, geralmente, é tempo de reconciliações e comemorações?
Altino - Pelo menos dois fatores podem colaborar para os desentendimentos familiares:
1- Maior oportunidade de aproximação, justamente pelas festas, onde se abusam de álcool e outras substâncias, lícitas ou não, alguns ficando apenas sonolentos e outros irritáveis. Se estes últimos já tiverem algum ressentimento anterior, a intoxicação por álcool pode ajudar a liberar a agressividade verbal e até física.
2- Insegurança crescente, tanto no plano pessoal quanto no núcleo familiar (piora da política nacional, demagogia crescente, enriquecimento ilícito, valores culturais e sociais em questionamento, com a sensação de injustiça), fazendo com que, consciente ou inconscientemente se busque um bode expiatório (que pode ser o torcedor de outro time, um pedestre, outro motorista ou até um parente.
Diário - Por que tantas pessoas fazem uso de medicamentos controlados?
Altino - Sabe-se no momento que 30% da população precisa de alguma forma de tratamento psiquiátrico e/ou psicológico, e que ao longo da vida serão 60%. São taxas alarmantes e ainda piores quando existem 300 psiquiatras brasileiros da infância e adolescência para cerca de nove milhões desta população precisando de atendimento. Outra constatação, esta pessoal, é que por trás do preconceito quase sempre existe a automedicação com ansiolíticos.
Diário - Em geral, os ansiolíticos têm sido receitados até mesmo por cardiologistas, como fica esta questão em termos de controle dos órgãos de classe?
Altino - Se a prescrição for monitorada, o risco para dependência será menor. Se for levado em conta o risco-benefício, uma pessoa adulta ou na Terceira Idade pode até ficar dependente e aumentar a sobrevida; a ansiedade pode prejudicar o tratamento e a evolução.
Diário - Qual a eficácia da terapia quando a pessoa associa o uso de medicamentos?
Altino -Existem casos em que só a terapia surte um bom resultado e não há necessidade de medicamentos. Ansiedades situacionais, tristezas não patológicas proporcionais aos estresses, autoconhecimento etc.
Em casos patológicos (esquizofrenia, depressão maior, depressão bipolar, quadros bipolares mistos, transtornos de ansiedade: generalizada, transtorno obsessivo-compulsivo, pânico e fobias) a associação dos dois tratamentos, psicoterápico e medicamentoso, é sempre mais vantajosa do que cada um isoladamente.
Diário - Quem deve fazer uso de ansiolíticos, antidepressivos? Em que situações são indicados de fato?
Altino - Mais de 70% das prescrições de ansiolíticos (calmantes: lorazepam, bromazepam, alprazolam, diazepan e clonazepam) são feitas por médicos não psiquiatras. Hoje, em psiquiatria, a indicação é bem menor do que nos anos 60 e 70, devendo ser passados com monitoramento de quem os prescreve, já que usuários podem desenvolver tolerância (necessidade de aumentar a dose para ter o mesmo efeito inicial) e abstinência quando diminuem ou suspendem o remédio. A administração por mais de seis meses, diariamente, coloca a pessoa em risco de dependência (tolerância e abstinência).
Diário - Mas como agir então para evitar a dependência e outras situações que o senhor descreve, quando se faz uso destes medicamentos?
Altino - O emprego eventual, pulando-se vários dias ou semanas para voltar a ingerir um determinado “calmante” (ansiolítico) pode ser benéfico em caso de insônia, por exemplo, em alguma noite isolada, em viagens noturnas desconfortáveis, corre-se muito menor perigo de ficar dependente. Em caso de síndrome do pânico, por exemplo, a administração por poucos dias (até duas semanas costuma ser seguro), até que o antidepressivo comece a surtir efeito, pode ser que seja a melhor indicação.
Os ansiolíticos são “gostosos” de tomar, pois provocam uma melhora da ansiedade em pouco tempo, mas não impedem que ela volte. O que significa que já é uma função para os antidepressivos que são mais ansiolíticos que os ansiolíticos. Mas o bem-estar é rápido e o portador de transtornos ansiosos vai querer tomar outro assim que passar a boa sensação. Quando se instala a dependência, o mal-estar é criado pela falta do ansiolítico (iatrogenia).
Os antidepressivos, além da já referida indicação nos quadros ansiosos, são também empregados em episódios propriamente de depressão (seja único ou recorrente) e associados aos estabilizadores de humor (carbonato de lítio e ácido valpróico ou divalproato de sódio) na depressão bipolar (que se alterna com episódios maníacos).
Diário - Como saber se já é hora de parar com a medicação?
Altino -Cada transtorno tem suas regras consensuais para tempo mínimo de tratamento para o primeiro episódio, segundo e a partir do terceiro em geral o recomendável é que ele ou um substituto sejam contínuos. Mas toda a Medicina é repleta de quadros crônicos, não é só a psiquiatria e provavelmente não se devem estimular portadores de transtornos graves a suspenderem psicofármacos.
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