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Problema
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São José do Rio Preto, 25 de Dezembro, 2009 - 0:05
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Gagueira pode se agravar sem tratamento adequado
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Orlandeli/Editoria de Arte
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Só quem tem o problema ou convive com alguém que tem, sabe o quão desconfortável é viver com gagueira. E simpatias como susto, colher de pau na boca, jogar milho para galinhas entre outras, é pura ilusão, segundo afirmam pessoas que já tentaram. Esses e outros 25 mitos são alvo de estudos aprofundados no Brasil e no exterior, e estão todos desmistificados num artigo publicado pela fonoaudióloga Sandra Merlo e o curador digital Hugo Silva, do Instituto Brasileiro de Fluência (IBF).
Ambos explicam que a gagueira não ocorre por algum processamento simples. “É, na verdade, um distúrbio neurobiológico causado, provavelmente, pelo mau funcionamento de áreas do cérebro responsáveis pela automatização da fala: os núcleos da base não conseguem ajustar adequadamente o tempo de duração de sons e sílabas, ocasionando alongamentos, bloqueios ou repetições da fala. Sandra, que tem vivência pessoal com a gagueira, é mestre e doutoranda em Linguística pela Universidade de Campinas e autora de artigos científicos nacionais e internacionais, observa que esta disfunção é resultado de uma predisposição genética ou de alteração na estrutura do próprio cérebro.
Portanto, a fonoaudióloga afirma que gagueira não pode ser simplesmente aprendida por imitação, porque ocorre em pessoas que, de alguma forma, estão propensas a ela. Entretanto, há muitos casos em que é necessária a intervenção de um terapeuta cognitivo-comportamental, uma vez que a gagueira pode estar relacionada ao transtorno de personalidade dependente. Como no caso de A.M.G., uma estudante de 25 anos, que é um exemplo típico e que dava indícios desde cedo do problema, conforme relatado em artigo publicado pela Revista Brasileira de Terapia Comportamental.
Ela nunca brincava sozinha quando criança – a mãe ou alguma amiga sempre participavam; apresentava gagueira leve desde os 11 anos. Sempre foi uma das primeiras alunas da classe e a mãe enfatizava isso para as amigas e os familiares; teve um único namorado, com quem está até hoje; ansiosa em situações sociais (quase nunca lia textos em público quando a professora pedia, pois tinha medo de gaguejar); baixa autoestima, sintomas de desvalia e depressivos; fez cinco anos de cursinho até entrar na faculdade; esquivava-se sempre em situações de decisões (a mãe sempre tomava a frente em todas as situações e com todos os membros da família); ansiedade em situações novas; necessidade da família em situações diárias; medo de não ser aceita; poucas amigas.
Enfim, estes e outros sintomas são alguns dos sentimentos que acompanham a gagueira, conforme esclarece Aline Mara de Oliveira, especialista em voz, da Santa Casa de São Paulo, que observa ser este um problema que abrange diversos fatores que se inter-relacionam e, dada à sua complexidade, torna-se difícil defini-la. “O gago sofre com a cobrança do bem-falar imposta pela sociedade, com os elementos do inconsciente que o fazem ter a imagem de si próprio com um mau falante, e a consciência de que vai falhar durante no momento da fala e a necessidade de tentar falar bem, além dos elementos corporais como tensões nos gestos de fala e corpo”, diz.
Pais podem ajudar filhos a identificarem o mal
Na entrevista abaixo, a especialista em voz Aline Mara de Oliveira, que é mestranda em Linguística pela Universidade de São Paulo (USP), além de atuar na Santa Casa de São Paulo, esclarece algumas dúvidas que, normalmente, acompanham quem sofre com a gagueira.
Diário - Como se pode definir a gagueira?
Aline Mara de Oliveira - A gagueira pode surgir em situações que o indivíduo sente dificuldades para falar, como quando ele não encontra uma palavra para expressar o que deseja, ou quando mais de uma palavra concorrem entre si num mesmo instante da fala, ou em situações que o falante não domina bem o assunto sobre o qual fala. Além dos momentos que podem gerar ansiedade ou medo ao falar. Essas condições associam-se ao aparecimento de disfluências, logo a falta de fluência na fala está ligada com a subjetividade do falante.
Diário - Como se sentem as pessoas que sofrem com isso?
Aline - Quando me procuram no consultório para tratar a gagueira, as pessoas dizem que sofrem muito com esse problema. São pessoas que se sentem estigmatizada pelo outro por causa do seu padrão de fala, ou seja, consideram-se “maus falantes”. Essa imagem de si gera na pessoa um sofrimento que causa tensão em um ou vários grupos musculares envolvidos na fala. Isso desperta bloqueios, hesitações, repetições de sílabas, prolongamentos, utilizam outras palavras para mascarar sua dificuldade ou ficam em silêncio.
Diário - Como se comporta no dia a dia quem é gago?
Aline - Já atendi pessoas que por causa da gagueira se privavam do contato de outras pessoas por vergonha de sua fala, e tinham até mesmo dificuldades em participar de entrevistas de empregos e que já até pensaram em suicídio.
Diário - Por que algumas crianças apresentam o problema em uma determinada época da vida, e em qual é mais comum?
Aline - Na minha experiência clínica e acadêmica acompanhei casos que surgiram no período de desenvolvimento da linguagem, principalmente, dos dois aos quatro anos de idade. As etapas do desenvolvimento linguístico são confundidas pelos pais com os sintomas da gagueira. A falta de fluência, as pausas atípicas e involuntárias, as repetições, as hesitações, os bloqueios, são sintomas comuns e naturais do desenvolvimento da linguagem, no entanto, essas “gagueiras fisiológicas” podem vitimar as crianças. Nessas situações, os pais, pensando em ajudar, costumam antecipar ou completar a palavra ou a frase que a criança pretendia falar. Essas correções do adulto fazem com que a criança focalize nesse “problema”, que na verdade é um estágio normal do aprendizado da linguagem. Com isso, a criança passa a querer controlar o que vai falar, porém não consegue. Essa tentativa frustrada de controlar o que não pode ser controlado traz muita preocupação, ansiedade, medo e vergonha de falar, e é dessa maneira que se instala a gagueira nas crianças.
Diário - Como combater o problema?
Aline - Se essa gagueira for intensa, incomodar a pessoa, causar problemas psicológicos ou atrapalhar sua comunicação com outras pessoas, ela deve procurar ajuda de um fonoaudiólogo especializado. Porém, não podemos esquecer que todas as pessoas têm certo grau de gagueira ao falar, se você reparar na fala das pessoas, perceberá que frequentemente elas repetem algumas sílabas ou prolongam alguns sons, mesmo aquelas que não são consideradas gagas. Isso passa desapercebido porque não incomoda a comunicação.
Diário - Que tipo de tratamento tem sido usado com mais sucesso?
Aline - Há alguns em uso, mas o que utilizo na minha prática clínica é baseado na visão dialético-histórica proposta por Silvia Friedman. A gagueira é o efeito de uma forma de funcionamento subjetivo singular na produção de fala, resultado de uma imagem estigmatizada de si como falante. Focamos o tratamento para a ressignificação da experiência de fala e a modificação dessa imagem negativa que o gago tem de si mesmo. O processo terapêutico não fica apenas voltado para a execução de exercícios para a fala, mas sim num trabalho conjunto do diálogo entre o paciente e o fonoaudiólogo, além da sensibilização do corpo do paciente.
Diário - Que tipo de resposta o paciente apresenta?
Aline - Esse processo possibilita aos gagos que saiam da posição estigmatizada de falantes, aquela que duvidam de sua capacidade de falar e sentem a fala como um lugar de sofrimento. Vão trabalhar para se tornarem bons comunicadores.
Diário - Você poderia sugerir alguns exercícios simples que as pessoas pudessem treinar em casa, a fim de melhorar a gagueira?
Aline - Bem que gostaria de sugerir alguns exercícios, mas não é algo tão simples assim. A gagueira é uma dificuldade de fala complexa e não se limita a ser curada apenas com exercícios. Se eles forem utilizados de maneira inadequada, podem piorar os sintomas da gagueira.
A minha orientação principal é voltada para a família e para as pessoas que convivem com o gago. A maioria deles não gosta “da ajuda” que os outros falantes dão na sua fala, como antecipar ou completar o que está tentando falar, porque isso mostra ainda mais a dificuldade dele e causa mais sofrimento. Isso vale também para as crianças, se os pais perceberem que essas “tentativas” de fala pertencem ao processo normal do aprendizado da linguagem, o melhor a fazer é deixar a criança “experimentar” as possibilidades de fala. No entanto, se esses “erros” na fala persistirem, os pais devem procurar a ajuda de um fonoaudiólogo especializado.
Diário - A pessoa pode ter gagueira na fase adulta?
Aline - Sim, a pessoa pode vir a adquirir a gagueira após uma lesão cerebral, decorrente de um derrame, de uma hemorragia intracerebral ou de um trauma craniano. Essa gagueira é conhecida como gagueira adquirida, neurogênica ou afásica.
Diário - Quais são os tipos característicos de gagos?
Aline - O gago pode ser uma pessoa que tenha uma imagem de mau falante já constituída, uma imagem de mau falante em constituição ou ainda uma imagem de mau falante ausente (não se sente mau falante, porém é visto como tal).
Essa diferenciação é fundamental para uma boa conduta terapêutica. O gago contará ao fonoaudiólogo sobre sua história como falante. As suas vivências, os seus sentimentos, as suas sensações e as suas estratégias de fala serão consideradas para o diagnóstico. Quando se trata de crianças quem conta a história são os pais e o terapeuta observa o modo como os pais se relacionam com a criança, o modo como a fala se produz entre pais e criança, o corpo da criança e seu modo de produzir fala.
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