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São José do Rio Preto, 20 de Dezembro, 2009 - 0:06
Academias ameaçam saúde com venda de ‘bombas’

Hélton Souza, Allan de Abreu e Marival Correa

 

Edvaldo Santos
B.O.R.S., que ganha R$ 300 por mês vendendo anabolizantes proibidos (detalhe): produto causa série de danos ao corpo
Nem a morte dos jovens Mike Jeferson Silveira de Lira, 26 anos, em Rio Preto, e Miguel Suzuki Neto, 23, em Catanduva, este ano, foram suficientes para inibir o consumo de anabolizantes esteroides. A reportagem do Diário constatou nas duas últimas semanas que academias de musculação de Rio Preto comercializam as drogas hormonais livremente.

Na academia Company, no Eldorado, foi possível comprar duas ampolas do medicamento Deca-durabolin por R$ 16 cada. Na Físicus, localizada na avenida Mirassolândia, o dono indicou a farmácia Progresso, distante cerca de 500 metros da academia, que também vendia e aplicava. Nela, a compra só não foi realizada porque, segundo o dono, não havia anabolizantes no estoque.

Todas as negociações com os locais que vendem anabolizantes foram gravadas. Na Company, o vendedor brinca com o repórter: “Toma uma ‘durinha’ que você vai ficar bom”. Ele se referia ao anabolizante de nome fantasia Deca-durabolin. Na academia Físicus, o dono diz que não tem para oferecer, mas indica um farmacêutico que vende e aplica.

Lá, o farmacêutico conta que vende o mesmo Deca-durabolin a R$ 23. Quando questionado se o “medicamento” pode dar alguma efeito colateral, ele brinca: “Tudo pode fazer mal, até água em excesso faz mal.” Ele sugeriu cinco doses, com uma injeção por semana, para se obter o efeito desejado.

Crime

Vender anabolizantes sem receita médica é crime que pode resultar em condenação que oscila de um a três anos de prisão. Se a pessoa que fizer uso do medicamento morrer, quem vendeu vai responder por homicídio culposo, quando não há intenção de matar. Os responsáveis pelos estabelecimentos citados negam que vendem e tenham vendido anabolizantes (leia texto ao lado). Em nota, a Secretaria Municipal de Saúde informou que os estabelecimentos que vendem anabolizantes podem ter o alvará sanitário cassado, além do pagamento de multa que varia de R$ 158,50 a R$ 158 mil.

Segundo Kazuo Nagamine, chefe do Departamento de Epidemiologia e Saúde Coletiva da Faculdade de Medicina de Rio Preto (Famerp), anabolizantes são medicamentos de uso controlado. O Deca-durabolin é recomendado, por exemplo, para pessoas idosas e debilitadas que passam por cirurgia. Nessa situação, é receitada pequena dose do produto para o paciente reagir melhor ao tratamento. No caso de pessoas raquíticas, pode ser indicado para ganho de peso.

Nagamine diz que as pessoas têm costume de usar medicamentos por acreditarem na sua “função milagrosa”. Porém, se esquecem dos efeitos que as drogas hormonais podem causar. No homem, o principal sintoma é a diminuição dos testículos. Já a mulher ganha músculos, os seios perdem volume e fica com corpo masculino. Além disso, ambos correm o risco de desenvolver tumores cancerígenos e doenças no coração e fígado.

‘Uso e vendo anabolizante sem medo’

Sem suar a camisa, o jovem B.O.R.S., 22 anos, ganha uma média de R$ 300 por mês apenas vendendo anabolizantes. De acordo com ele, a procura é intensa, mas nem sempre os fornecedores têm os medicamentos para pronta-entrega, o que acaba “empacando” as vendas. Para facilitar o acesso, um amigo se infiltra nas academias e oferece os produtos para os “clientes em potencial”.

B.O.R.S. faz academia há três anos e vende anabolizantes há um ano e meio. Ele conta que começou a vender os medicamentos depois de perceber que outros vendedores ganhavam dinheiro fácil. “Eu uso e vendo sem medo porque todo mundo quer e ninguém atrapalha.” Além do dinheiro, ele usa anabolizante para manter o corpo “em dia”. Ele conta que antes de usar o hormônio pesava 65 quilos, hoje está com 76. Para ele, os peitos definidos, as coxas grossas e a barriga de “tanquinho” atraem as mulheres.

O amigo que ajuda a vender as drogas hormonais conta que é sempre muito fácil ter acesso às academias. “Nem preciso me matricular. Chego como amigo de alguém e fico rodeando os equipamentos, até pegar amizade com novas pessoas.” A estratégia dá resultado. Ele conta que aborda os frequentadores mais magros, que têm interesse em ganhar peso e músculo imediato. “Chego como amigo e pergunto se estão a fim de tomar algo. Depois ofereço os anabolizantes, e tudo é combinado por telefone ou fora da academia.”

Proprietários negam que comercializam

O dono da academia Company, que não quis fornecer o nome, informou que desconhecia a venda de drogas hormonais dentro do estabelecimento e disse que iria apurar os fatos. “Sou contra, e o funcionário que vendeu será demitido.”

Gisele Lima, da farmácia Progresso, negou que o estabelecimento tenha anabolizantes para vender. “Nem vendemos produtos para academia.” Ricardo Giba Porto, dono da academia Físicus, disse que apenas indicou a farmácia porque trata-se de um medicamento farmacêutico. “Tem um monte de farmácia que vende, mas eu não.”



Guilherme Baffi
Depois do susto, o personal trainer passou a rejeitar as ‘bombas’
Personal trainer redescobre o valor da vida

O personal trainer Fábio Ricardo Corrêa, 23 anos, viu a morte de perto após tomar 6 ml do anabolizante hormonal Estanazolol. Ele aplicou duas doses no músculo em setembro de 2006 e, menos de 15 dias depois da primeira aplicação, teve início de parada cardiorrespiratória. Incentivado pelos amigos, Corrêa comprou o medicamento com facilidade, mas o que parecia ser um benefício estético se tornou um pesadelo.

Após a aplicação do anabolizante, o personal trainer conta que foi obrigado a ficar um ano sem praticar qualquer atividade física e até deixou de trabalhar durante um mês. “Fiquei estagnado, não podia comer comidas gordurosas e frituras. Tive que cortar tudo da noite para o dia, me cuidar sempre na alimentação para não sofrer estresse e não sobrecarregar o coração. Eu tinha de me isolar.”

Hoje, Corrêa é um exemplo para os alunos das três academias em que trabalha. Segundo ele, o susto serviu para alertar familiares e amigos sobre o “quanto a vida é valiosa e não vale a pena tomar anabolizantes para ter um corpo sarado e que segue os moldes da mídia”.

Confira, abaixo, a entrevista com o personal:


Diário: Quando você se interessou pela musculação e por que começou a utilizar anabolizante?
Fábio Ricardo Corrêa: Comecei a treinar com dez anos e fui introduzido na musculação para fortalecimento de joelhos, ombros, porque jogava vôlei. Como não cresci, entrei na musculação de cabeça e usei anabolizante com 20 anos. Fui na ideia dos amigos, naquela coisa de ficar “gigante”, mais por benefício estético.

Diário: Durante dez anos de academia você não conseguiu ter o corpo que desejava?
Corrêa: Eu tinha o corpo, mas quando você está na musculação você olha no espelho e sempre quer algo mais. E os amigos falavam: “vai, toma, é facinho, baratinho”. E eu consegui comprar a preço de banana.

Diário: Como conseguiu comprar o anabolizante e quanto pagou?
Corrêa:: Comprei por intermédio de um amigo, que era o dono da academia em que eu treinava: 30 ml saiu por R$ 100. Dividi com mais dois amigos.

Diário: Quais os primeiros sintomas depois que usou anabolizante?
Corrêa:: Tremedeira, secura na boca e cansaço. Sem fazer nada eu já estava cansado. E junto com uma situação de estresse desencadeou-se uma parada cardíaca. No dia em que passei mal eu estava trabalhando como personal e senti uma fadiga. Foi quando falei para minha aluna que não estava bem e ia embora para a casa. Meu coração parecia que apertava. Quando cheguei na catraca da academia, desmaiei.

Diário: Como foi a reação dos seus amigos?
Corrêa: Me levaram direto para o PS Central. Minha mão formigava, os lábios brancos e dor no peito. Minha pressão estava 19 por 11 e fui para casa esperando que fosse só um susto. No outro dia eu me trocava para trabalhar quando tive fadiga, dor no peito, formigamento nos membros e pedi para a minha irmã correr comigo até o Hospital de Base.

Diário: Qual foi a reação dos familiares quando descobriram que você havia usado anabolizante?
Corrêa: Eles nem imaginavam porque eu sempre fui contra. Depois conversaram comigo e me deram apoio na recuperação.

Diário: Em algum momento ficou com medo de morrer?
Corrêa: Lógico, tanto que pedi ajuda. Eu só utilizei uma vez e não tinha noção da reação que aquele anabolizante iria fazer no meu corpo. Eu estudava na faculdade, sabia os efeitos no corpo das pessoas, mas nunca imaginamos que isso vai acontecer com a gente. A gente acha que pode mensurar esse risco.

Diário: O que mudou na sua vida depois que parou de tomar anabolizante?
Corrêa: Só melhorou: tive um crescimento profissional e pessoal. Em resposta a tudo isso fui estudar, tirar dúvidas com professores e entrei de cabeça na questão. Hoje eu sou contra. Nenhum dos meus alunos tem acesso a isso e, se eu ficar sabendo que meu aluno faz uso dessa substância, não dou mais aula para ele. Sou totalmente contra. Aprendi que com a musculação você consegue ter um corpo legal, mesmo que seja de uma forma mais demorada.

Diário: Qual a mensagem que você deixa para as pessoas interessadas em usar anabolizante?
Corrêa: Que em primeiro lugar pensem na saúde. O lance do culto ao corpo se desprendeu da musculação. Hoje em dia, apesar de ter feito aquela burrada, eu consigo passar minha experiência, e a pessoa se espelhar nela. Tudo isso serviu como exemplo e hoje eu tenho o corpo que eu quero.

Venda sem receita pode dar até três anos de prisão

Vender produtos nocivos à saúde, como anabolizantes, sem receita médica é crime previsto no artigo 278 do Código Penal, de acordo com o promotor criminal em Rio Preto Antonio Baldin. A pena varia de um a três anos de prisão. “É uma questão de saúde pública. O sujeito que vende anabolizante indiscriminadamente coloca em risco a vida do usuário”, diz o promotor. Se o usuário morre em decorrência do uso irregular da substância, aquele que vende pode ser processado por homicídio culposo (sem intenção), segundo o delegado titular do 1º Distrito Policial em Rio Preto, Genival Ribeiro Santos.

O delegado suspeita que a morte do estudante rio-pretense Mike Jéferson Silveira de Lira, 26 anos, tenha sido provocada pelo uso de anabolizantes de uso veterinário. Segundo ele apurou, Lira teria injetado seis mililitros de esteroides para cavalo nos dias 12 e 19 de setembro, e morreu no dia 25 de parada cardiorrespiratória no Hospital de Base (HB). A droga foi comprada pela mulher dele, Tatiele Aparecida Ferraz.

A pedido de Ribeiro Santos, o corpo foi exumado no dia 2 de outubro para que fosse colhido o sangue e parte das vísceras. O material foi encaminhado para o Instituto Médico Legal (IML) em São Paulo. “O objetivo do exame é provar que a morte dele foi provocada pelo esteroide”, disse o delegado. O laudo, porém, ainda não foi finalizado.

Academia ignora lei e não exige atestado

Exigido por lei, o atestado médico no ato da matrícula é ignorado por academias de ginástica de Rio Preto. Dos 15 estabelecimentos para os quais a reportagem do Diário ligou, apenas cinco impuseram o documento como condição para iniciar as atividades. As demais não fizeram qualquer tipo de exigência ou orientaram que fosse submetido a uma avaliação no local apenas por um professor de educação física. A inobservância da legislação, conforme explica o médico Nabil Ghorayeb, especialista em cardiologia e em Medicina do Esporte, coloca o aluno em risco e pode levá-lo até mesmo à morte súbita durante a prática de exercícios.

“O mais lógico seria fazer a avaliação cardiológica antes da avaliação física, o que tem sido desprezado por algumas razões, entre elas pelo fato de os alunos detestarem fazer exames médicos ou ser mal-informados”, afirma Ghorayeb, chefe da Seção Médica de Cardiologia do Exercício e Esporte do Instituto Dante Pazzanese de Cardiologia, em São Paulo.

O cardiologista diz que o exame de avaliação da capacidade física também é imprescindível. “Por ser simples e limitado não causaria riscos e até ajudaria a ‘descobrir’ algum problema. Na verdade, o que falta é a avaliação médica - cardiológica prévia, acrescida do teste ergométrico (feito por cardiologista habilitado) seguindo-se as diretrizes da Sociedade Brasileira de Cardiologia.”

O cardiologista Paulo Nogueira, professor da Faculdade de Medicina de Rio Preto (Famerp) e médico do Hospital de Base, faz o mesmo alerta, e acrescenta: “O atendimento médico é extremamente importante. Algumas pessoas sofrem de problemas congênitos, isto é, não apresentam sintomas no dia a dia”. Como exemplo, ele cita a cardiomiopatia (o músculo fica aumentado ou anormalmente rígido) e estenose aórtica (abertura incompleta da válvula aórtica).

Segundo Nogueira, a realização de um eletrocardiograma pode indicar se o paciente tem algum problema cardíaco. “O exame é capaz de mostrar se há algum tipo de doença. Se for diagnosticado, definimos a realização de exames específicos.” O resultado da avaliação vai definir o tipo de atividade que a pessoa pode fazer”.

A indicação dos especialistas tem respaldo na lei estadual 10.848, de 6 de julho de 2001. Nela, o artigo 5º especifica que as matrículas para frequentar os estabelecimentos “dependem de apresentação, pelo cliente, de atestado médico recente, específico para a prática esportiva em que pretende se inscrever”.

Segundo a advogada Kátia Masoti, o descumprimento dessa exigência legal acarreta ao infrator, além da aplicação de multa dos órgãos fiscalizadores, a possibilidade de uma sanção cível, quando constatado que a sua inexistência acarretou danos físicos ao aluno. “Esse tipo de sanção, denominada como responsabilidade civil, poderá surgir para o omissor quando for suprimido esse documento médico e sobrevier algum dano.”

Responsáveis pelos estabelecimentos se defendem

A reportagem do Diário ligou para academias de ginástica, como aluno interessado em atividade física. Na ligação foi perguntado se era obrigatória apresentação do atestado médico na matrícula. Das 15, dez demonstraram desconhecer a lei que exige o documento. Na CGP, o responsável, que se identificou como Luiz Eduardo, disse que é exigido exame médico, mas que depende da situação. Na Aquática, a informação é de que é feita avaliação física no local para verificar itens como índice de gordura, IMC e batimento cardíaco.

Na Acqua Sport, o aluno passa por avaliação e precisa levar atestado do cardiologista ou clínico geral, mas a entrega desse documento não precisa ser imediata. Segundo o sócio Marco Antonio de Paula Silva, a academia exige o atestado específico para a atividade que o aluno vai fazer. “Ele faz a aula experimental. Se ele diz que vai se matricular, informo que preciso do atestado já na próxima aula.”

A Acquaroni Sports orienta que “é bom” levar o atestado médico, mas não é obrigatório de início. O responsável não foi localizado. Na Pro-Trainer, a informação é de que o aluno interessado deve ir até a academia para conhecer o local e conversar com um personal. “Fazemos a nossa avaliação e pedimos o atestado médico”, diz a sócia Fabiana Barbosa.

O educador físico Rubens Pinheiro Filho, da Oficina do Corpo, afirma que não há necessidade de levar atestado, a não ser que o interessado tenha antecedente de lesão. O aluno passa por avaliação no local. Ele atende muitas pessoas que precisam se recuperar de lesões e a maior parte dos alunos chega à academia já por indicação médica.

A Pronadar informou que oferece nutricionista que indicará, ou não, a necessidade de um exame. Segundo Renato de Souza, professor da Mergulho, é oferecido ao iniciante um fisioterapeuta para quem tiver necessidade de fazer exame. “Se existe lei, vamos começar a exigir o atestado.”

Walter Rodrigues Marques, sócio da academia Swim & Gym, diz que os professores estão orientados a conversar sobre as condições de saúde. “Fazemos avaliação, com informações da pessoa, se vai ao médico, se tem diabetes, pressão alta, pratica exercícios.” Na Augusto, ninguém atendeu.



 
     
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