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São José do Rio Preto, 29 de Setembro, 2010 - 1:50
Atraso, briga e morte na UPA Norte de Rio Preto

Elen Valereto e Graziela Delalibera

Guilherme Baffi/Álbum de família
Carlos Ferreira da Silva, o Rocha, morreu por infarto agudo do miocárdio enquanto esperava remoção
O atraso de cerca de uma hora e meia na chegada de uma UTI Móvel do Samu e a briga com agressão física entre dois médicos responsáveis pelo atendimento resultaram na morte do vendedor Carlos Ferreira da Silva, de 51 anos, conhecido como Rocha, na madrugada de ontem, na UPA Norte de Rio Preto, por infarto agudo do miocárdio. O cardiologista Rodrigo Silvestre, que seria o responsável pelo suposto atraso da ambulância e pela agressão ao plantonista João Carlos de Mauro Filho, foi punido com demissão por justa causa.

O secretário José Victor Maniglia anunciou, no início da noite de ontem, que a demissão será oficializada hoje assim que o médico comparecer ao setor. Segundo Maniglia, Mauro Filho será afastado temporariamente por 30 dias para apuração do caso por meio de uma sindicância administrativa.

O vendedor foi levado pela família por volta das 23h30 à UPA com dor no peito e formigamento das mãos. Na unidade, o médico plantonista confirmou a suspeita de infarte e solicitou uma Unidade de Suporte Avançado (USA) do Samu para encaminhá-lo imediatamente a um hospital. No entanto, o vendedor morreu quase duas horas depois de dar entrada no local sem conseguir a transferência para uma unidade hospitalar.

A família de Silva ameaça entrar com ação por danos morais e negligência contra o Samu. “A ação não irá trazer meu irmão de volta, mas não queremos que isso se repita. Ele poderia estar vivo se tivesse recebido o atendimento adequado”, desabafa a irmã de Silva, Marisa Ferreira da Silva.

O médico cardiologista e professor da Faculdade de Medicina de Rio Preto (Famerp) Moacir Fernandes de Godoy confirma a possibilidade de aumento do risco de morte com demora no atendimento. “O tempo limite para oferecer o tratamento adequado ao paciente nessa situação é de 1h a 1h30, caso contrário a chance do músculo morrer é muito alta.”

Guilherme Baffi
Prefeito Valdomiro Lopes compareceu ao velório da vítima, ontem
Desentendimento

Quando a USA chegou para efetuar a transferência de Rocha, o cardiologista Rodrigo Silvestre teria se irritado com o plantonista Mauro Filho que o questionou sobre a demora da ambulância e o agredido com um tapa no rosto. Segundo Boletim de Ocorrência registrado na Polícia Militar pela família e pelo médico agredido, a causa da discussão e agressão teria sido a demora no envio da ambulância. Mesmo com a solicitação de Mauro Filho por uma USA, o Samu teria enviado uma ambulância comum, incompatível com a necessidade do paciente.

“O plantonista questionou a demora e o outro médico (Silvestre) começou a discutir e agredi-lo enquanto ele prestava socorro ao meu sogro. Precisei ajudar a separar a briga enquanto meu sogro passava mal”, conta o genro de Silva, Leandro Oliveira. A família acredita que Rocha tenha morrido durante a discussão.

Maniglia admitiu que uma das possíveis causas da discussão e agressão entre os médicos tenha sido um erro de comunicação. Segundo o secretário, o paciente não chegou a ser removido pelo Samu para um hospital porque já havia morrido. “Vamos começar a investigar o caso, mas a briga teria acontecido após o óbito do paciente e Mauro Filho já estaria fazendo massagem para ressuscitação quando a USA chegou.”

A Secretaria de Saúde abriu sindicância para investigar as causas da briga e o suposto atraso da USA. O prefeito Valdomiro Lopes compareceu ao velório para prestar os pêsames aos familiares e amigos de Silva, mas saiu rapidamente. “Estamos apurando o que aconteceu e a secretaria irá punir as pessoas envolvidas.” Mauro Filho é funcionário concursado desde 2004 e Silvestre prestava serviços ao Samu por meio de um convênio com o Ielar.

Profissionais não são localizados

O cardiologista Rodrigo Silvestre não foi localizado até o fechamento da edição para falar sobre o assunto. Em seu consultório, que fica na rua Siqueira Campos, a secretária informou por telefone que o médico não estava em Rio Preto. O Diário também não conseguiu localizar Silvestre pelo telefone de sua residência. O plantonista João Carlos de Mauro Filho também foi procurado, mas não foi encontrado. A Sociedade de Medicina de Rio Preto foi procurada, porém não havia registros sobre o profissional naquela entidade.

Atendimento imediato faz diferença

Pacientes vítimas de infarto precisam de atendimento médico e tratamento imediato - em especial a angioplastia. A informação é do médico cardiologista e professor da Faculdade de Medicina de Rio Preto (Famerp) Moacir Fernandes de Godoy. “Em caso de infarto, a conduta é tratar o mais rápido possível para evitar a morte do músculo cardíaco”.

O especialista diz que se o paciente estiver num hospital o procedimento indicado é a angioplastia primária, em que é colocado um catéter dentro da artéria coronária para desentupi-la. O limite crítico para o procedimento é de 1h a 1h30 a partir dos sintomas.

Se não houver tempo para encaminhá-lo a um hospital, o indicado é aplicar um remédio na veia para dissolver o coágulo que está dentro da artéria coronária, chamado fibrinolítico, o que pode ser realizado na unidade de pronto-atendimento ou na ambulância. O médico diz que o infarto ocorre quando há o entupimento da circulação do sangue e o músculo do coração deixa de funcionar. “Quanto mais tempo se espera, maior a chance do músculo morrer.”

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