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São José do Rio Preto, 2 de Dezembro, 2009 - 0:24
Esperanças se renovam aos que precisam de transplante

Cecília Dionizio

Lézio Júnior/Editoria de Arte
Com medidas de impacto na legislação brasileira, o Ministério da Saúde deu nova vida ao Sistema Nacional de Transplantes (SNT) ao investir mais de R$ 24,1 milhões, no último semestre, para melhorar o fluxo do Sistema. O objetivo é que diversas ações sejam adotadas a partir de agora para agilizar e incentivar o número de transplantes de órgãos em todo o país, e tornar todo o sistema mais eficaz.

As medidas foram anunciadas pelo ministro da Saúde, José Gomes Temporão, que declarou ser a primeira medida aumentar o valor pago pelos procedimentos aos serviços públicos, além de incorporar em todo o País, a legislação vigente em São Paulo com relação à prática dos transplantes. “Esse conjunto de medidas com certeza vai impactar a vida das pessoas que aguardam ansiosamente por um órgão em uma fila de espera”, declarou Temporão ao anunciar as medidas no Rio de Janeiro.

A atual legislação permite que todo brasileiro seja doador após a morte. No entanto, mesmo tendo declarado ou registrado sua vontade, por exemplo, na carteira de motorista, na hora da doação será necessário que a família da vítima aprove, alerta o nefrologista Mário Abbud Filho, do Instituto de Urologia e Nefrologia, professor da Faculdade de Medicina de Rio Preto (Famerp ) e diretor do Centro Interdepartamental de Transplantes de Órgãos e Tecidos (Cintrans).

De acordo com o enfermeiro Marcos Morais, da Organização de Procura de Órgãos (OPO), da Famerp, as pessoas saudáveis também podem doar órgãos. “Um doador vivo pode doar um dos rins, parte do fígado, da medula óssea e do pulmão. Pela lei, parentes até quarto grau, filhos ou pais adotivos e cônjuges podem ser doadores; não parentes, somente com autorização judicial”, explica.

Em se tratando de doador falecido, em geral aqueles que já estão na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) vítimas de morte encefálica (quando o cérebro, incluindo o tronco cerebral que desempenha funções vitais como o controle da respiração já está dado como morto), geralmente vítimas de traumatismo craniano ou derrame cerebral (AVC). A retirada dos órgãos é realizada em centro cirúrgico, como qualquer outra cirurgia.

Em campanha divulgada em todo o Brasil, membros da Associação Brasileira de Transplante de Órgãos (ABTO) lembram que doar órgãos é um ato de solidariedade, resultante da conscientização de que, afinal, qualquer pessoa está sujeita à necessidade de um transplante. “Hoje, a maioria dos transplantes marca o reinício de uma vida normal para o transplantado. O que tem dificultado o processo de salvamento de muitas vidas é a falta de informação de como proceder quando um familiar tem morte encefálica. Quanto mais rápido a família avisar as autoridades competentes de sua cidade, maiores as chances de outras vidas serem salvas” , afirma Abbud.

Já está em estudo por grupo de pesquisadores especialistas em transplantes da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto, da USP, em parceria com o Centro de Pesquisas em Óptica e Fotônica (Cepof) de São Carlos da Universidade de São Paulo (USP) o desenvolvimento de uma nova forma de biópsia óptica que fornece, em tempo real, de maneira não-invasiva e objetiva o teor de gordura (esteatose) acumulada no fígado doado. O aparelho emite um feixe de laser sobre o tecido em análise, absorve a luz devolvida pelo tecido biológico e envia os dados para um espectrômetro e um computador portátil acoplados em uma maleta. Esse processo fornece o grau de risco de insucesso do órgão se adaptar ao novo portador. Fígados gordurosos, com esteatose maior do que 30%, não podem ser utilizados para doação.

Novas regras para doação de órgãos:


::Doadores que tenham alguma doença transmissível passam a poder doar para pacientes que tenham a mesma enfermidade

::A ficha do paciente deve estar sempre atualizada

::Pessoas abaixo de 18 anos passaram a ter prioridade para receber órgãos de doadores da mesma faixa etária

::Todas as crianças e adolescentes passaram a ter direito a se inscrever na lista para um transplante de rim antes de entrar na fase terminal da doença renal crônica e de ter indicação para diálise

::Criação de organizações de procura de órgãos

::A doação intervivos de doador não aparentado passa a precisar de autorização de uma comissão de ética formada por funcionários dos hospitais

::O plano visa a estimular a implantação de organizações de procura de órgãos. São equipes que atuarão em diversos hospitais buscando facilitar a doação de órgãos. “A ideia é agilizar e criar órgãos de assessoria técnica, distribuídos por todo o Brasil, para auxiliar os coordenadores hospitalares e os médicos intensivistas na identificação e manejo adequado nos casos de morte encefálica”, afirmou Rosana Nothen. “Essas organizações vão melhorar a estruturação da captação de órgãos”, diz Alberto Beltrame, Secretário Nacional de Atenção à Saúde

::“Criamos mecanismos legais para consolidar o que antes estava na esfera das boas práticas, ou seja, impedir a transmissão de doenças por transplantes. Órgãos de um doador que tenha hepatite C, por exemplo, passam a poder ser transplantadosemumpaciente que também seja portador do mesmovírus, e sob seu consentimento formal”, afirma Rosana Nothen, coordenadora do Sistema Nacional de Transplantes (SNT). As equipes transplantadoras também precisam dar o consentimento. As definições complementam os preceitos da Lei Brasileira de Transplantes

Lei criada em Rio Preto se espalha para o País

Na entrevista concedida ao Diário, o nefrologista Mário Abbud, do Instituto de Urologia e Nefrologia de Rio Preto, e membro da Associação Brasileira de Transplantes de Órgãos explica um pouco mais sobre o assunto. Acompanhe.

Diário - Quem são os potenciais doadores?
Mario Abbud - Todos aqueles que tiverem sido diagnosticados com morte encefálica, de 2 a 70 anos.

Diário - Quais órgãos podem ser doados em vida?
Mário - Todos, desde que com autorização da família após a morte do familiar.

Diário - O que mudou com a nova Lei de doações e em que ela irá melhorar a atual situação no Brasil?
Mário - Em São Paulo, mudou pouco porque o sistema implantado era muito semelhante. No Brasil, passou a ser adotado o sistema paulista (criado em Rio Preto e Ribeirão em 1985) e vai melhorar a alocação de órgãos para crianças e menos órgão serão perdidos nos casos de hepatite B e C, que serão transplantados com consentimento do paciente.

Diário - Quantos são os transplantes realizados ao longo do ano na cidade e desses quantos evoluem com sucesso?
Mário - Em 2008, realizamos 72, este ano atingimos 72 ontem. O sucesso só pode ser medido no mínimo após o primeiro ano. Nossos resultados mostram que a chance do rim estar funcionando no primeiro ano é de 80%.

Diário - Qual a diferença na vida de uma pessoa que recebeu um transplante cardíaco? Há restrições a serem adotadas no dia a dia, comparado com quem tem o órgão sadio?
Mário - Nenhuma, apenas tomar as medicações e evitar possíveis infecções.

Diário - Quais são os critérios para priorizar os candidatos a doação de órgãos e como é possível identificá-los em meio a tantos doentes?
Mário - Existe uma lista para cada órgão. O rim segue critérios de compatibilidade biológica, ou seja, o órgão mais compatível vai para o receptor adequado; o fígado segue uma fórmula que expressa gravidade do caso. Em algumas situações que sempre são julgadas pelas câmaras técnicas pode-se pedir a priorização de um receptor.

Diário - Após o transplante, todos os pacientes têm de conviver com o uso de medicamentos, quais são os mais comuns?
Mário - Os medicamentos são para sempre. Alguns podem ser retirados, mas ficar sem o uso de nenhum, é raridade. Existem hoje menos que 100 receptores no mundo com mais de 500 mil pessoas transplantadas, no caso do rim. (CD)



Fonte: Fonte - Ministério da Saúde
 
     
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