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São José do Rio Preto, 4 de Janeiro, 2014 - 1:50
AACD fecha as portas para 1,2 mil crianças

Larissa de Oliveira

Guilherme Baffi
Familiares exibem cartazes de protesto contra a redução
“Meu filho chegou aqui se arrastando. Hoje, ele já dá alguns passos com o auxílio de um andador.” É com essa frase que a moradora de Ilha Solteira, Lucimar Maria da Silva Fagundes, 36 anos, resume o quanto foi importante o atendimento que o filho dela recebeu na Associação de Assistência à Criança Deficiente (AACD), em Rio Preto.

Durante um ano de acompanhamento médico, o pequeno João Victor da Silva Fagundes Dias, 3 anos, que nasceu com paralisia cerebral, teve uma melhora significativa no quadro clínico. Mas o tratamento dele e de outros 1,2 mil pacientes das cidades da região vai ser interrompido a partir do dia 15, quando a AACD - atingida pelo corte de verba anunciado pela Prerfeitura de Rio Preto - vai parar de atender pacientes fora do município.

Com o corte, o repasse fixo do município caiu de R$ 150 mil mensais para R$ 50 mil - pode eventualmente chegar a até R$ 80, dependendo da demanda por atendimento. De acordo com a presidente voluntária, Adriane Alburquerque Cirelli, a AACD foi inaugurada, em 2008 e custou R$ 3 milhões provenientes do Teleton - campanha nacional de arrecadação de recursos liderada pelo Sistema Brasileiro de Televisão (SBT).

Na época, foi firmado um convênio em que a Prefeitura repassaria R$ 150 mil para a associação, que tem um custo mensal total de R$ 170 mil. “Os outros R$ 20 mil de diferença sempre foram bancados pelas doações e campanhas realizadas, em parceria com outras instituições do município. Assim, nós atendíamos pacientes de Rio Preto e região.”

O convênio tinha validade até novembro do ano passado. Foi na renovação da parceria que a Prefeitura reduziu o valor repassado. Agora, a Prefeitura destinará mensalmente R$ 50 mil para a Associação atender os pacientes de Rio Preto, que atualmente somam 600 pessoas, do total de 1,8 mil pacientes. A AACD poderá também receber uma verba a mais de até R$ 30 mil. “Esse valor é volátil e dependerá do número de atendimentos e serviços que prestaremos. Por isso, não estamos contanto fixamente com esse segundo valor”, explica Cirelli.

Demissões

Além da interrupção do atendimento dos pacientes da região, a associação teve de despedir 12 funcionários, entre terapeutas, fonoaudiólogos, nutricionistas e outros, para se adequar ao novo orçamento. O quadro de funcionários era composto por 42 pessoas. O horário de atendimento também será alterado das 7h às 13h.

“Com essa mudança, a unidade central de São Paulo arcou com as despesas para que todos os encargos da associação fossem quitados, mas com esse repasse reduzido, é impossível atender os pacientes dos outros municípios”, destaca a presidente, que é voluntária. Ela destaca que é impossível uma mudança no posicionamento da Prefeitura, mas espera contar com o apoio das pessoas, para que a associação possa continuar atendendo os pacientes de Rio Preto e região.

Esperança

“Vamos buscar uma forma de conseguir uma independência financeira, estruturando métodos de conseguir recursos. As doações podem ser feitas ao longo do ano. É importante que as pessoas tenham ciência que precisamos do recurso todo mês. Além disso, encaminhamos cartas as prefeituras da região e comunicamos a situação, com o objetivo de conseguir o apoio deles. Até agora, nenhuma se manifestou”, disse Cirelli.

A Prefeitura informou que a redução no valor do repasse é referente a uma readequação do convênio realizado pela Secretaria de Saúde, que prevê atendimento dos pacientes moradores de Rio Preto. A justificativa é que o dinheiro do Sistema Único de Saúde (SUS), do Ministério da Saúde, somente pode bancar o atendimento oferecido aos rio-pretenses. A diferença do valor anterior, diz a Prefeitura, será investida em benfeitorias na área da saúde que beneficiará os moradores da cidade.

Parada repentina faz paciente regredir

Segundo o gerente médico da associação, Hamilton Hidalgo, a interrupção do tratamento de forma repentina pode resultar na regressão do quadro clínico do paciente. “Um paciente com deficiência física, é portador de doenças crônicas, que muitas vezes não são curadas, mas apresentam uma melhora no quadro clínico de acordo com o trabalho que é desenvolvido com ele”, diz.

Com esse corte imediato de atendimento, acrescenta ele, os pacientes acabam perdendo toda a evolução conquistada, além do psicológico dele e da família acabar sendo afetado. Preocupados com essas consequências, familiares estão indignados. Mães ouvidas pelo Diário ontem disseram não saber o que será do tratamento dos filhos delas.

“Quando cheguei na AACD estava sozinha e desesperada. Não sabia como tratar e lidar com o meu filho. Aqui ele ganhou vida, teve estímulo. Agora, toda a minha esperança dele ser alguém na vida foi por água abaixo, já que não sei o que farei para ele continuar fazendo tratamento”, desabafa a moradora de Ilha Solteira, Lucimar Maria da Silva Fagundes, 36 anos, com os olhos cheios de água e a cabeça repleta de incertezas.

Ela é a mãe do João Victor, 3 anos, que chegou na associação, sem qualquer movimento das pernas devido uma paralisia cerebral. O menino nasceu de seis meses, devido uma infecção de urina, que Lucimar teve durante a gestão. Ele ficou internado 38 dias na UTI pediátrica e outros 12 no quarto. “A doença dele só foi constatado quando ele tinha um ano e dois meses de vida. Ninguém me deu qualquer tipo de apoio. Na minha cidade mesmo, pouco se sabe sobre a doença. Vim com a cara e coragem buscar ajuda na AACD e fomos recebidos de braços abertos. É inaceitável que isso aconteça.”

Quem também terá que buscar novos rumos para continuar o tratamento é Juliana Ralio, 31 anos, de Américo de Campos. Há 10 anos, ela sofreu um acidente de carro, teve traumatismo craniano e Acidente Vascular Cerebral (AVC). Como sequela, ela teve o equilíbrio do corpo afetado, o que impedia que ela ficasse em pé.

“Passei por fisioterapeutas do meu município, mas eles me ajudaram dentro dos limites deles. Fui encaminhada para a AACD de São Paulo, onde fiquei 100 dias internada. Depois fui transferida para a AACD de Rio Preto, onde cheguei de cadeira de rodas e hoje já dou meus passos com o auxílio de uma espécie de bengala”, conta a paciente.





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