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São José do Rio Preto, 13 de Dezembro, 2009 - 11:17
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Ministro do Supremo critica foro privilegiado
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Thomaz Vita Neto
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Marco Aurélio Mello diz que direito do cidadão de ser informado é assegurado pela Constituição
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Diante dos recentes escândalos políticos em Brasília, com direito a vídeo de maços de dinheiro em meias e cuecas, o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Marco Aurélio Mello, 63 anos, fez duras críticas ao mecanismo do foro privilegiado, pelo qual governadores, deputados e senadores só podem ser julgados por instâncias judiciais superiores. “Todo privilégio é odioso. Eu acredito no tratamento igualitário dos cidadãos”, disse o ministro durante visita a Fernandópolis na sexta-feira, onde deu palestra sobre meio ambiente a convite da Associação Paulista de Magistrados (Apamagis).
Apesar da crítica, Mello rebateu o argumento de que a lentidão de julgamentos no STF seja sinônimo de impunidade para os políticos. “O Supremo não é um cemitério de autos, nem de processos criminais.” O ministro também atacou a censura à imprensa, voltou a defender a obrigatoriedade do diploma para jornalista e admitiu constrangimento na briga entre os ministros Joaquim Barbosa e Gilmar Mendes, em que o primeiro acusou o presidente do STF de ter “capangas” no Mato Grosso. Leia a seguir os principais trechos da entrevista, parte dela exclusiva ao Diário, concedida minutos antes da palestra no hotel Água Viva, onde Mello se hospedou.
Pergunta - Nos últimos anos, a mídia brasileira tem revelado vários escândalos políticos, como o mensalão do DEM de Brasília. No entanto, a maioria dos políticos contam com foro privilegiado. O que, quase sempre, é sinônimo de impunidade. Qual a opinião do senhor sobre esse dispositivo?
Marco Aurélio Mello - Todo privilégio é odioso. Eu acredito no tratamento igualitário dos cidadãos. Dizer que a prerrogativa visa simplesmente defender o cargo não é satisfatório para dar-se a si mesmo tratamento privilegiado.
Pergunta - Nesta semana a revista “Veja” trouxe reportagem dizendo que o STF nunca condenou nenhum político do Brasil. Isso procede?
Mello - O Supremo não é um cemitério de autos, nem de processos criminais. Não vejo a coisa dessa forma. É que até há pouco tempo, não podíamos tocar as ações penais sem autorização da Câmara ou do Senado.
Pergunta - A Justiça brasileira é lenta, o que favorece a impunidade. O que fazer para mudar esse quadro?
Mello - Não podemos exigir de um juiz, principalmente de um juiz de primeira instância, um esforço maior pela agilidade. Não é compreensível que um único juiz tenha a quantidade de processos que tem. Há uma sobrecarga muito grande da máquina.
Pergunta - O fato de haver muitos recursos judiciais não agrava ainda mais a situação?
Mello - Temos realmente uma parafernalha de recursos. Todo aquele que perde uma causa acredita que a decisão esteja errada e recorre.
Pergunta - Recentemente, o senhor comparou a Constituição Federal a um periódico, tamanho era o número de emendas. Qual sua opinião sobre essa questão?
Mello - Não vejo com bons olhos o fato de em 21 anos nossa Constituição ter sido emendadas 68 vezes. Certa vez, um brasileiro entrou em uma livraria e procurou comprar um exemplar da Constituição brasileira e o balconista disse a ele que a livraria não trabalhava com periódico (risos).
Pergunta - O STF negou recurso do jornal “O Estado de S. Paulo” contra sentença de julho que impediu o jornal de publicar reportagens sobre a Operação Boi Barrica, da PF, que investigou a família Sarney. Qual a sua opinião sobre a censura ao jornal?
Mello - Temos um direito maior, assegurado constitucionalmente, que é o direito do cidadão de ser informado. A lei não pode causar qualquer embaraço à informação. No caso concreto há o sigilo (do processo resultante da operação da PF), mas o sigilo diz respeito aos dados enquanto armazenados na fonte. A partir do momento que dados sigilosos cheguem à imprensa, eles deixaram de ser secretos.
Pergunta - O Supremo deixou para o presidente Lula a decisão de extraditar ou não Cesari Battisti, acusado de terrorismo pelo governo italiano. A decisão foi duramente criticada pelo senador Demóstenes Torres (DEM-GO), para quem o Supremo se “desmoralizou”. O senhor, que votou contra a extradição, concorda com essa opinião?
Mello - O pronunciamento do Supremo visa apenas assentar se é legítimo ou ilegítimo. Não se defere no Judiciário a entrega (de Battisti ao governo italiano), se é legítimo ou ilegítimo o ato do governo. Sempre foi assim nossa jurisprudência. Na França, por exemplo, no início do ano o tribunal superior daquele país decidiu pela extradição de um homem acusado de crimes pelo governo italiano, mas Nicolas Sarkozi (presidente francês) concedeu o asilo. Desrespeitou a decisão do Judiciário? Não. Temos aí o funcionamento das instituições, cada qual atuando no espaço que é reservado constitucionalmente.
Pergunta - O senhor foi o único favorável no julgamento pelo STF sobre a obrigatoriedade ou não do diploma para jornalistas. Como o senhor vê a tentativa, via Congresso Nacional, de se restabelecer o diploma para a profissão?
Mello - Continuo convencido da obrigatoriedade do diploma, e olha que não sou um juiz turrão (risos). O decreto (derrubado pelo Supremo) não impede a liberdade de informação e expressão. É assim que eu vejo.
Pergunta - No Brasil há a liberdade de se mostrar o voto dos integrantes do Supremo, inclusive com transmissões ao vivo pela TV Justiça. Nos Estados Unidos se fecha e apenas se apresenta a decisão. Na sua opinião, o que é melhor?
Mello - Existem aqueles que dizem que a TV Justiça serviu apenas para melhorarmos as nossas gravatas (risos), mas eu não penso assim. Nós temos de atuar com a maior transparência possível. Aqui, nós discutimos entre nós - o que os americanos não fazem. Eles discutem mediante memorandos, inclusive a evolução de pensamento sobre conflitos de interesses e depois proclamam a decisão. Eu gosto do sistema brasileiro, em que as discussões, as sessões são em público, as audiências são públicas e o cidadão pode exercer um controle externo.
Pergunta - Mas há os efeitos colaterais, como a troca de farpas entre os ministros Joaquim Barbosa e Gilmar Mendes.
Mello - Foi preciso encerrar a sessão. Muitos disseram: “logo você que costuma questionar, discutir, bancou o bombeiro”, mas a ocasião era delicada.
Pergunta - Para o senhor foi constrangedor?
Mello - Claro que há o constrangimento e há perda de credibilidade da instituição. Mas episódios assim servem para que os integrantes da casa se policiem quanto ao que verbalizam. Lá, discutimos ideias, não podemos deixar a discussão descambar para o campo pessoal, o campo da ofensa.
Pergunta - Na cidade de Fernandópolis vigora há dois anos um toque de recolher para menores de idade. O senhor concorda com essa medida?
Mello - Sou contra toda proibição extremada. Acredito na autodeterminação dos homens e no poder de polícia do Estado, mas sem o Estado ser o tutor da sociedade e dos homens em geral. Não estou criticando colegas (estava ao lado do juiz autor da medida, Evandro Pelarin), porque não conheço o caso concreto (de Fernandópolis).
Pergunta - Em relação a ações que serão julgadas no mutirão, o senhor acredita que mutirões da Justiça, como os da última semana, são a solução para garantir a celeridade da Justiça?
Mello - Eu não acredito em mutirão porque potencializa a celeridade e não a avaliação do conteúdo. A arte de julgar se faz a partir de uma reflexão, a partir da avaliação dos elementos do processo. Não se tem aí como determinar que se cumpra uma meta de liquidação de certos processos em um espaço pequeno e determinado. Isso não é bom. Cada processo é um processo.
Pergunta - Um decreto do presidente Lula publicado hoje (sexta-feira) adiou o início da sanção aos produtores rurais que não respeitam a reserva legal. Como o senhor vê essa polêmica?
Mello - Não quero agasalhar extravagâncias, atos que tenham se mostrado à época, considerada a legislação existente, extravagante. Esses atos devem ser corrigidos. Agora não se imagina também a aplicação retroativa das novas regras. Há um princípio básico na Constituição Federal que é a segurança jurídica. A sociedade, como eu ressalto, não pode viver à base de sobressaltos. O Estado existe para nos proporcionar tranquilidade. Às vezes o que ocorre é que no afã de se consertar o Brasil, se atropela direito adquirido. Nós precisamos preservar a natureza, mas sem olvidar as garantias constitucionais. A lei é editada para vigorar de forma projetada. Toda vez que se pretende retroagir, se tem algo inseguro em relação à questão jurídica. Guardemos e aguardemos se isso terá questionamento sobre o ângulo da lei.
Pergunta - Desenvolvimento e meio ambiente podem caminhar juntos ou são como água e óleo?
Mello - Podem e devem caminhar juntos. A conciliação é possível. O que não se pode conceber é um atropelo, porque o atropelo implica, sobre o ângulo cultural, um retrocesso.
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COMENTÁRIOS
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Jorge Gerônimo Hipólito
postado em
13/12/2009
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Eu concordo com o ministro de que não deve haver privilégios, pois os efeitos da lei deve sim alcançar a todos da mesma forma. Eu até ouso opinar e também discordar do privilégio de prisão especial daquele individuo detentor de curso superior, uma vez que justificam, assim: ah, ele não pode ficar recluso junto aos comuns, por causa da formação cultural. Oh!
Eu não aprecio denominar alguém de comum, na minha opinião somos sim todos iguais, inclusive nenhum de nós poderá dizer que “dessa água eu não bebo”, a vida e o nosso comportamento estão cheio de imprevisibilidades.
Agora, com relação ao meio ambiente, eu, respeitosamente, discordo do ministro, haja vista, que os efeitos da lei deve sim retroagir. Por quê? Porque a lei nº 4.771 (código florestal) está vigente e vem sendo aplicada desde 15 de setembro de 1965, pela POLÍCIA MILITAR AMBIENTAL e IBAMA (IBDF). Desde que a lei foi sancionada, milhares de cidadãos que a infringiram com atos de supressão de vegetação foram autuados e muitos desses assumiram compromissos de recuperar áreas degradadas. Portanto, não retroagir significa perdoar aqueles que não respeitaram a lei e que eram sabedores de sua existência. Notem: tempos atrás, bem como hoje, empreendedores abrem valas ao lado das árvores e as soterram para assim ludibriar a fiscalização. O ato de não retroagir possibilitará privilégios e na contrapartida produzirá prejuízos, esses alcançarão a todos e sem distinção.
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