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Entrevista
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São José do Rio Preto, 27 de Agosto, 2010 - 1:47
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Pagodeiro defende ‘comunismo brasileiro’
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Lézio Júnior/ Editoria de arte
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Pagodeiro adepto do que chama de “comunismo brasileiro, que dá força ao trabalhador”, Netinho de Paula, 40 anos, se escora na fama de cantor e apresentador de TV para tentar um voo inédito ao Senado Federal pelo PC do B. Em quarto lugar na última pesquisa Datafolha, com 17% das intenções de voto, aposta na crítica à pobreza, às drogas e à má qualidade da educação para se eleger no dia 3 de outubro.
Ex-vocalista do grupo de pagode Negritude Júnior, foi do “Dia de Princesa”, quadro que apresentou na Record e no SBT, que, segundo ele, veio a vontade de ingressar na política. “Eu estava com uma menina dentro do carro e tinha mais de mil olhando e pensando ‘meu Deus, quando vai chegar a minha vez?’. Aí fiquei pensando como é que a gente poderia fazer para olhar para essas meninas, para esses pobres em grande escala”, diz Netinho, que nega ser assistencialista e reclama do preconceito em estar em um partido tradicional da esquerda brasileira.
“Tenho preocupação social, que me credencia a ser senador.” Entre suas propostas, o atual vereador na Capital quer transformar todo o ensino médio brasileiro em escolas técnicas. Na região, deseja “ampliar” a BR-153 e combater o crack, “uma grande epidemia no interior”. Leia a seguir os principais trechos da entrevista:
Diário da Região - Por que o eleitor deve votar no senhor para o Senado Federal?
Netinho de Paula - Porque vê em mim, na minha história, na minha biografia, a preocupação social que sempre deixei clara não só na minha obra musical mas nesses quase 20 anos sendo o único apresentador negro na TV brasileira. Essa preocupação me credencia para ser um senador por este Estado.
Diário - O que levou o senhor a ingressar na carreira política?
Netinho - A política não é uma profissão, mas um estado de espírito onde cada cidadão sente a necessidade de contribuir. Com a minha experiência de vida, o que eu passei na minha vida, sempre ouvi os políticos dizerem que é preciso melhorar a vida dos pobres... pobre sou eu (risos). Então, quando eu comecei a fazer o quadro da princesa, quando eu ia embora, olhava para trás e estava com uma menina dentro do carro e tinha mais de mil meninas olhando e pensando “meu Deus, quando vai chegar a minha vez?”. Aí fiquei pensando como é que a gente poderia fazer para olhar para essas meninas, para esses pobres em grande escala. A gente não pode ter uma juventude que só tem expectativa de melhora de vida através de um programa de televisão. Somente a política é capaz de tratar e curar esse estado de pobreza em grande escala. Por isso eu quis participar e ingressei no PCdoB.
Diário - Como o senhor pode ser útil no Senado Federal?
Netinho - Tenho duas bandeiras cruciais, que somente uma pessoa vinda das bases poderia tratar, no Senado, de uma causa como essa. Entre todas as atribuições que cabem ao Senado, de intermediar as relações do Brasil com o mercado internacional e com os outros países, de trazer os recursos para o seu Estado e defender os interesses paulistas, pode também intervir no método educacional do Estado. Não dá mais para a nossa escola pública ficar tratando a juventude de baixa renda fazendo de conta que fornece educação e frustrando esses jovens, levando muitos deles a não ter mais esperança, e descambar para o mundo das drogas. A minha proposta principal no Senado vai ser transformar todo o ensino de segundo grau das escolas públicas em cursos técnicos. Não é construir mais escolas técnicas, isso não é necessário. Mas adaptar, melhorar o espaço das escolas já construídas, e dar direito ao jovem de ter uma profissão. E isso lhe é negado hoje.
Diário - Então, pela sua proposta, todo o ensino médio seria transformado em ensino técnico?
Netinho - Exatamente.
Diário - Como cidades do interior, como Rio Preto, podem se beneficiar do mandato de senador?
Netinho - O interior de São Paulo precisa participar desse processo produtivo do interior do Brasil. A proposta do nosso bloco de esquerda sempre foi interiorizar a economia. Nós defendemos uma intervenção junto ao Dnit e ao Ministério Público para juntos a gente poder encontrar um caminho para ampliar a BR-153, por exemplo. Essa é uma função que o senador pode exercer. Isso é levar a economia para o interior. Rio Preto tem uma escola técnica que, se não me engano, foi construída quando eu nasci, em 1970. Pô, é uma cidade com 400 mil habitantes! E se você fizer uma pesquisa mais apurada vai perceber que quem entra nessa escola técnica não são os jovens de periferia. As vagas ficam restritas a quem vem das escolas particulares. Isso precisa ser mudado. Poder ampliar a participação dos jovens do interior nos cursos de escolas técnicas, dar vazão às escolas públicas. Estruturá-las para receber essa demanda técnica, isso é um avanço. É interiorizar a economia. Construir centros de tratamento para dependentes químicos. O crack, por exemplo, é uma grande epidemia no interior. Eu sei que na área de infraestrutura pode ser feita muita coisa.
Diário - Como o senhor avalia o trabalho feito pelos atuais senadores por São Paulo?
Netinho - O nosso Senado sempre olhou muito para a questão da infraestrutura e nunca conseguiu olhar pra gente. Como a gente pode não tratar o crack como epidemia? Se a gente não criar clínicas em que esses jovens possam ser tratados de maneira gratuita - porque o jovem de classe média vai para clínica particular - acaba morto em até cinco anos de forma violenta. Isso é estatística. Eu acho que o Senado pode intervir, pode se humanizar e trazer propostas como essas para dar oportunidade a esses jovens voltarem curados ao seio das suas famílias.
Diário - O senhor construiu um longa carreira no meio artístico, mas está na política há pouco tempo. Como lida com o preconceito daqueles que torcem o nariz para um pagodeiro na política?
Netinho - Eu vim preparado. Eu sabia que as pessoas iriam me discriminar, como você mesmo disse. Mas na minha vida nunca nada foi fácil. Quando eu vendia doce, muitos me tratavam como um trombadinha. Quando montei o Negritude Júnior, era o pagodeiro que fazia lixo musical. Quando fui para a televisão, ninguém me chamava de apresentador. Falavam em programa apelativo, assistencialista. Agora, quando me candidato ao Senado, já é esperado que tentem me discriminar. São as mesmas pessoas que nunca gostaram (de mim). É diferente dessa legião de pessoas que acompanha a minha carreira nos últimos 20 anos. Entre erros e acertos, encontram muito mais acertos.
Diário - O senhor fez fama com o quadro “Dia de Princesa”, na Record e no SBT, em que oferece tratamento de beleza e cursos de capacitação profissional para meninas carentes. Não acha que pode passar a ideia para a sociedade de que só maquia os problemas sociais, sem resolvê-los?
Netinho - Nós fazíamos os quadros e mostrávamos o resultado no final do ano. Fizemos isso durante 12 anos. Foram mais de 800 famílias tratadas no programa. Mais de 60% adquiriram sua casa própria, tiveram inserção na área da educação, fizeram os seus cursos de segundo grau, e a gente sempre mostrava isso no final do ano. Isso não procede, porque o que a gente fazia mostrava no final do ano. Eram todos os domingos na casa do povo brasileiro, não só do nosso Estado. Portanto não é legítimo isso. Eu acho que minha boa colocação nas pesquisas contraria todas essas críticas de assistencialismo barato que as pessoas faziam ao quadro.
Diário - O senhor vai buscar preferencialmente o voto dos jovens?
Netinho - Não sei, porque essa proposta de tratar da família é abrangente, vai do idoso ao jovem. Acho que é muito bacana essa mensagem para o jovem de que ele tem direito a uma profissão e que ninguém pode pedir experiência para ele se não tem a primeira oportunidade. Os pais ficam muito contentes com isso, porque você está mexendo com o futuro do filho dele. Serei um senador que vai cuidar da família.
Diário - O seu partido tem uma longa trajetória na esquerda política brasileira. Como o senhor se identifica com a ideologia do PCdoB?
Netinho - O PCdoB não é mais um partido radical. Defende sua bandeira socialista, mas entende que vive em um universo capitalista. Tenta, através de sua visão, formar nosso comunismo brasileiro. Esse comunismo ajudou o governo Lula a ser bem avaliado nos últimos 8 anos, porque nesse período sempre estivemos ao lado do presidente Lula e do PT. O PCdoB tenta mostrar que cuidar do trabalhador, do menos favorecido, ainda é um caminho de desenvolvimento, sem perder o caminho comunista, que é dar força ao trabalhador.
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