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São José do Rio Preto, 30 de Maio, 2010 - 1:48
Análise revela contaminação de 3 fontes de água

Allan de Abreu

Rubens Cardia
Técnico do Labcentro exibe amostras de água coletada na bica do Pinheirinho, no Solo Sagrado, zona norte de Rio Preto
A água fornecida pelo Serviço Municipal Autônomo de Água e Esgoto (Semae) na bica da praça do Pinheirinho, no Solo Sagrado, zona norte de Rio Preto, está contaminada com coliformes totais, que podem causar problemas gastrointestinais. A conclusão é de análise feita a pedido do Diário pelo laboratório Labcentro, de Votuporanga. Outros dois poços particulares também estão contaminados, segundo a análise. A mesma água da bica da praça do Pinheirinho abastece 10% do volume do reservatório de distribuição para todo o Solo Sagrado e Eldorado, além de parte do Maria Lúcia. Somados, os três bairros têm 49,4 mil moradores, de acordo com a Secretaria de Planejamento de Rio Preto.

O Semae nega a possibilidade de contaminação da água da rede. Neste ano, a autarquia constatou contaminação por coliformes totais na bica do bairro Costa do Sol, zona norte, mas a assessoria não informou a data da coleta nem quais bairros são atendidos pelo poço do local. A fiscalização das bicas particulares é de responsabilidade da Vigilância Sanitário Municipal. Os coliformes totais englobam cerca de 20 bactérias do aparelho gastrointestinal e também decorrentes da decomposição de matéria orgânica. Embora menos grave do que os coliformes fecais, presentes nas fezes, a presença de coliformes totais na água indica a existência de micro-organismos causadores de doenças gastrointestinais, como diarreia, febre tifoide, cólera, leptospirose e hepatite.

“As chances de o coliforme total trazer esses patógenos são consideráveis”, afirma o médico sanitarista da Unesp Carlos Macharelli. A Secretaria de Saúde de Rio Preto não informou o número de atendimentos por problemas gastrointestinais na Unidade de Pronto-Atendimento (UPA) do Solo Sagrado. Para José Luiz Negrão Mucci, do departamento de saúde ambiental da Faculdade de Saúde Pública da USP, os coliformes são indicativos de falhas no tratamento da água, uma vez que o cloro, em dosagens corretas, eliminaria esses micro-organismos. A análise constatou ausência de cloro na amostra coletada no Pinheirinho.

Procura
Não há estatísticas oficiais, mas, de acordo com moradores da rua Manoel da Costa Branco, onde fica a bica, cerca de 50 pessoas pegam água no local, por dia. “Faz muitos anos que pego água aqui. É muito melhor do que a da torneira de casa”, afirma o aposentado Geraldo de Carvalho, 65 anos. Ao lado dele, o encarregado-geral Claudemir Neves enchia 25 litros em garrafas pet na última quinta-feira. “Esta aqui é mais leve, gostosa de beber.”

Alguns bebem na própria torneira, inclusive crianças. “Todo dia eu passo aqui quando saio da escola”, diz o estudante Luan Fernando Peixoto, 10 anos. A dona de casa Célia Regina Meneghini, 52 anos, dá a água da bica para a neta de três meses. Informados pela reportagem da contaminação, prometeram parar de pegar água no local. “Vou voltar a comprar galão”, garante Célia.

Norma
A portaria do Ministério da Saúde 518, de 2004, estabelece que os coliformes totais devem estar ausentes em 95% das amostras coletadas no mês. Como as coletas no ponto da bica do Pinheirinho são semanais, isso significa que, para a contaminação estar dentro do limite tolerável, apenas uma amostra pode apontar contaminação.

De acordo com a bióloga do Semae Cláudia Regina Rodrigues, nenhuma amostra colhida neste ano no local apontou a presença de coliformes. “Ainda que esteja no limite tolerável, há um indicativo de má qualidade da água que não pode ser desprezado”, diz o sanitarista Macharelli.

Ferdinando Ramos
Luan Fernando Peixoto, 10 anos, bebe água na bica do Solo
Bica perto de cemitério está contaminada

A água que sai da bica de um poço semiartesiano particular a cerca de 200 metros do cemitério da Ressurreição, na Vila Ercília, está contaminada com coliformes totais, de acordo com análise feita pelo laboratório Labcentro, de Votuporanga. Para o hidrogeólogo Leziro Marques Silva, a contaminação pode ser motivada pelo necrochorume, líquido tóxico decorrente da decomposição de cadáveres. “Como os coliformes totais contêm matéria orgânica em decomposição, é possível que o necrochorume penetre em um poço que tenha falhas de revestimento”, diz Silva, um dos maiores especialistas no assunto no País.

A bica fica instalada em um posto de combustível na rua 14 de julho, esquina com a avenida da Saudade. De acordo com os funcionários do local, por dia cerca de 20 pessoas pegam água na torneira do poço. A fiscalização desses poços cabe à Vigilância Sanitária. Mas o dono do posto, Eduardo Zuim, não se recorda da presença de fiscais da Vigilância no local. Ele promete regularizar a água. Em 2006, o hidrogeólogo Silva comprovou a contaminação da água do lençol freático nas proximidades do cemitério São João Batista, também em Rio Preto, e em outros sete cemitérios da região. Para o especialista, a mesma situação se repete nos 115 cemitérios do Noroeste Paulista.

O líquido decorrente da decomposição do corpo se infiltra no solo e chega até o lençol freático. O necrochorume é composto por substâncias altamente tóxicas, que em contato com a pele provocam dermatites graves e, se ingerido, pode causar envenenamento. Uma resolução de 2003 do Conselho Nacional de Meio Ambiente (Conama) estabelece prazo até dezembro deste ano para todos os cemitérios despoluírem o subsolo e passem a monitorar a qualidade da água do lençol.

Parque Industrial

A análise também constatou contaminação com coliformes totais em um poço particular na avenida Cenobelino de Barros Serra, no Parque Industrial. Há dois anos a água do poço, que pertence a um supermercado, não é mais utilizada para consumo humano - a bica no local foi fechada. O líquido é utilizado apenas para lavagem de piso, de acordo com a gerência.

Autarquia vai eliminar bicas

O Semae informou que, por conta da contaminação da água da bica do Pinheirinho, vai eliminar os 11 pontos de captação de água pela população na cidade. “A única saída é acabar com as bicas. Porque as pessoas lavam objetos nesses locais, passam a mão nas torneiras e isso pode acabar contaminando a água”, diz a bióloga da autarquia Cláudia Regina Rodrigues. “Vamos fechar todas, no máximo até a próxima semana”, afirma Alessandro Toscano, chefe de operações do Semae.

Cláudia disse que o Semae não trata com cloro a água do poço de onde sai a água da bica do Pinheirinho devido à “resistência da população”. “O cloro altera o sabor da água e os usuários rejeitam.” Ela ressaltou que a amostra contaminada encontrada na bica está dentro do limite tolerável pelo Ministério da Saúde - para análises com menos de 40 amostras mensais, caso do Pinheirinho, uma pode apresentar resultado positivo. A bióloga negou contaminação na água distribuída na rede. “O poço abastece apenas 10% da água do reservatório do Pinheirinho, que é tratada antes de ser distribuída”, diz a bióloga.

Em nota, a assessoria da Secretaria de Saúde informou que cabe ao proprietário de poço particular enviar mensalmente amostra da água ao órgão. Por ano, são analisadas 308 amostras, incluindo as bicas do Semae e as particulares. Além disso, a Vigilância Sanitária, responsável pela fiscalização dos poços particulares, diz manter uma equipe permanente para fiscalização da qualidade da água dos locais. Caso haja irregularidade, o proprietário do poço é punido com multa que varia de R$ 820 a R$ 164 mil e pode ter o poço interditado.

Rubens Cardia
Técnicos usam fogo para evitar contaminação pelo ar em amostra de água
Entenda a análise nos pontos

A pedido do Diário, o Labcentro analisou a água consumida pelo rio-pretense em dez pontos da cidade, seis deles oriundos do sistema público de abastecimento e quatro particulares. A coleta foi feita na tarde do dia 20 de maio. Técnicos usam fogo nas torneiras e nos recipientes para evitar a contaminação das amostras de água por bactérias presentes no ar. Para cada ponto analisado, foram colhidas duas amostras: uma para o exame microbiológico e outra para o físico-químico. Em dois pontos, no poço do Semae na Cidade das Crianças e no poço do Parque Industrial, também foi analisado o índice de cromo, metal cancerígeno.

No primeiro caso, o poço, que abastece 5 mil moradores dos bairros Gonzaga de Campos e São José Operário, chegou a ser interditado em setembro de 2009 depois que a Cetesb constatou a presença de cromo na água em volume quase duas vezes maior do que o máximo permitido pelo Ministério da Saúde. O poço voltou a operar neste ano. A análise do Labcentro apontou 0,02 miligramas por litro de água, dentro dos parâmetros.

No Parque Industrial, o índice foi de 0,04 miligramas por litro, próximo ao limite, de 0,05. Nesse caso, o objetivo era verificar a presença do metal em decorrência dos tanques de combustível no local. Em outros dois pontos, uma torneira no Centro e outra no Jardim Herculano, também foi verificada a presença do ferro - o problema é recorrente nesses dois bairros devido à tubulação antiga, que solta o metal e o dissolve na água. Mas a quantidade verificada ficou dentro dos parâmetros.


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Colaborou Michelle Berti

 
     
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