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Potencial da natureza
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São José do Rio Preto, 4 de Abril, 2010 - 3:40
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Rios da região movimentam R$ 3,33 bilhões ao ano
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Allan de Abreu e Michelle Berti
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Edvaldo Santos
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Moradores da região sobrevivem das águas dos rios; são 3 mil pescadores profissionalizados
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Os rios que cortam a região de Rio Preto geram um faturamento anual de R$ 3,33 bilhões. A riqueza, equivalente à soma do Produto Interno Bruno (PIB) de Catanduva e Votuporanga, reflete as diversas vocações dos grandes rios do Noroeste Paulista. São pelo menos seis atividades econômicas: geração de eletricidade, pesca, turismo, extração de areia, transporte de cargas e garimpo de diamantes.
“Fomos privilegiados pela natureza. Por aqui passam três dos mais importantes rios do centro-sul brasileiro, o Tietê, o Grande e o Paraná”, diz Germano Hernandes Filho, vice-presidente do Comitê da Bacia Hidrográfica do Turvo/Grande. É natural, segundo ele, que parte da população regional tire o sustento dos grandes cursos d’água. São pelo menos 32,6 mil pessoas que sobrevivem direta ou indiretamente dos rios regionais, conforme estimativas do poder público, empresas e entidades.
As usinas hidrelétricas são, de longe, as que mais tiram dinheiro dos rios. Por ano, as seis unidades instaladas nos rios Grande, Paraná e Tietê chegam a um faturamento bruto estimado em R$ 3 bilhões, sem contar os R$ 35,8 milhões de royalties distribuídos em 2009 aos municípios parcialmente alagados pela atividade. “Temos um potencial hidráulico muito grande que soube ser aproveitado pelo homem. Não é à toa que somos conhecidos como a região dos grandes lagos, devido às grandes represas formadas pelas usinas”, diz Paulo Roberto Martins, técnico em operações da usina Três Irmãos, em Pereira Barreto.
Martins é funcionário da Companhia Energética do Estado de São Paulo (Cesp) há 32 anos. Metade desse tempo ele trabalhou na usina de Ilha Solteira, terceira maior do País. Em 1993, foi transferido para a recém-inaugurada Três Irmãos, no Tietê. Desde então, não saiu mais da frente dos computadores de onde controla, pelos botões, o funcionamento das cinco turbinas. “Se não fosse pela força do Paraná e do Tietê, eu não teria esse emprego”, diz. Os dois rios mantêm a família Martins há três décadas. Casado, o técnico tem duas filhas: uma enfermeira e uma médica veterinária.
Empregos
O turismo é a atividade ligada aos rios que mais emprega na região - são 4 mil proprietários de bares, restaurantes, ranchos e pousadas, sem contar os funcionários desses estabelecimentos. “Tirando o turismo de negócios, os rios são o nosso principal atrativo”, afirma Heloísa Helena Abudi, diretora regional da Secretaria de Estado do Turismo.
O diretor do departamento de turismo de Ilha Solteira, Darley Barros Júnior, afirma que pelo menos 30% da cidade sobrevive dos rios Paraná, Tietê e São José dos Dourados. “Muitas pessoas vêm para cá em busca da pesca esportiva, esportes náuticos e lazer. Nos fins de semana, as prainhas artificais recebem cerca de 1,5 mil turistas.” O grande número de visitantes fez com que o município se organizasse, ao longo dos anos, para deixar a cidade cada vez mais atrativa. “Atualmente, fazemos duas grandes festas que atraem pessoas de todo o Estado.”
Até mesmo a usina hidrelétrica Ilha Solteira, instalada no rio Paraná, atrai os turistas. “Muita gente quer conhecer o processo de produção de energia. Isso abriu as portas para o turismo tecnológico”, diz Barros Junior. Também banhada pelo rio Paraná, Santa Fé do Sul desponta como um dos mais recentes polos de turismo da região.
A cidade conta com 368 ranchos, praia artificial com estrutura de parque e trilhas ecológicas. Na cidade, as cabines dos orelhões são em formatos de peixes ou pássaros e diversos monumentos e praças garantem aos visitantes diversão fora da água. Segundo a Secretaria de Turismo da cidade, toda a rede de restaurantes, hotéis e o transporte rodoviário só existem devido ao turismo gerado pelo rio.
Em Sales, as águas do rio Tietê garantem, além do turismo, meios para a agropecuária se desenvolver. “A proximidade do rio facilita a irrigação, o que ajuda a agricultura da região”, diz o prefeito Genivaldo de Brito Chaves. Rafael Galan Alamino, 24 anos, cresceu trabalhando no restaurante do pai, à beira do Paraná no porto de Ilha Solteira.
Aos 11 anos já ajudava a servir as peixadas que são a especialidade do local. Com a morte do pai, assumiu o empreendimento e a gerência dos cinco funcionários. Se os pintados ao molho e filés de tucunaré são o atrativo gastronômico, o rio caudaloso é o cenário que enche os olhos do freguês. “Se ficasse na cidade, não teria tanta procura. Comer peixe na beira do rio é a melhor combinação possível.” O rapaz perdeu a conta das propostas de compra do restaurante que recebeu. Uma delas chegou a R$ 200 mil. Todas ganharam um ‘não’ como resposta. “É daqui que sustento minha mãe e meus irmãos. Minha vida está aqui, na beira do rio. Não troco isso aqui por nada.”
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Edvaldo Santos
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Paulo Martins está há 32 anos em usinas: emprego mantido por rios
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Cresce transporte hidroviário
Principal via de navegação no Estado de São Paulo, o trecho regional da hidrovia Tietê-Paraná gera cerca de 300 empregos diretos e movimenta 5 milhões de toneladas por ano, 212% a mais do que em 2001, de acordo com o Departamento Hidroviário, ligado à Secretaria de Estado dos Transportes.
Seis empresas atuam na hidrovia, que serve para o escoamento da produção agrícola dos Estados do Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Goiás e parte de Rondônia, Tocantins e Minas Gerais até o porto de Santos e a foz do rio do Prata. Os principais produtos transportados nos dois rios são açúcar, areia, calcário, adubo, cana-de-açúcar, farelo de soja, madeira, carvão, milho, soja e trigo. Ao todo, as balsas fizeram 862 viagens completas (ida e volta) pela hidrovia em 2009.
Areia
A região de Rio Preto tem 50 empresas de extração de areia regularizadas no Departamento Nacional de Produção Mineral (DNPM) e na Companhia Ambiental do Estado de São Paulo (Cetesb). O faturamento estimado do setor é de R$ 4,8 milhões mensais.
A família Brambilla começou na atividade em 1993 na beira do Tietê, em Pereira Barreto. “Era uma casinha na beira do rio que mal cabia todo mundo”, lembra Maurício, na época com 4 anos. Hoje, a empresa tem 16 funcionários e extrai do rio 340 metros cúbicos de areia por dia de duas balsas. “Dá muito trabalho, mas graças a Deus temos retorno”, diz Maurício, que hoje gerencia o negócio junto com o pai e um dos tios.
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Edvaldo Santos
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Mauricéia de Lima se profissionalizou como pescadora; marido e quatro filhos também vivem da pesca
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Pesca garante o sustento de famílias
De tanto pescar no rio Paraná, o Paranazão, Alfredo Alves Cruz Neto, o Maninho, 57 anos, sabe por intuição o ponto exato onde encontrar o tipo de peixe que precisa para tirar o sustento da família. “Se preciso de tucunaré, é em um local. Se for porquinho, é em outro. Tá tudo aqui na cabeça.”
A vida de Maninho se confunde com as águas do Paraná. Nascido na Bahia, mudou-se aos 8 anos para São Paulo. Trabalhou de servente de pedreiro até os 18 anos na Capital, quando foi a passeio para Ilha Solteira. Foi aí que conheceu a pesca e nunca mais largou. “Decidi viver do que a natureza me dá.” Tornou-se pescador profissional nos anos 70 e hoje fatura de R$ 600 a R$ 700 por mês com a atividade. “Não é muito dinheiro, mas basta para tocar a vida sossegado.”
Por dia, Maninho pega em média 30 quilos de pescado. Em casa, faz questão de exibir à reportagem os quatro freezers lotados de peixes de todo tipo, vendidos para bares e restaurantes de Ilha Solteira a R$ 5 o quilo. A fartura, afirma, já foi maior. “Antes pescava o dobro mas não dava conta de vender. Estragava muito.” A rotina de Maninho é simples. Às 6h30 já está com o barco de fibra de plástico no meio do rio, armando a rede. Às 10h retorna para a casa, vizinha ao porto de Ilha e vai para o boteco mais próximo jogar conversa fora. Às 17h, “quanto os peixes começam a nadar no rio”, volta a armar a rede. Finaliza o trabalho às 19h, quando contabiliza o pescado.
A família toda está envolvida com a pesca. Sua mulher, Mauricéia Rita de Lima, seguiu o mesmo caminho e se profissionalizou pescadora no início dos anos 80. Dos oito filhos do casal, quatro vivem da pesca, dois homens e duas mulheres. “Criamos todos com os peixes do Paraná e ensinamos a molecada a pescar”, diz Mauricéia, enquanto espalha a rede pelo rio na tarde de terça-feira.
Fartura
Sensako Matsumoto, presidente da Colônia de Pescadores de Santa Fé do Sul, a maior da região, estima que 15% das 10 mil toneladas de peixes que saem dos rios paulistas, conforme dados do Ministério da Pesca, sejam originários dos rios do Noroeste Paulista. Outras 20 toneladas mensais saem de duas empresas que há três anos criam tilápias tailandesas em tanques-rede no rio São José dos Dourados, em Ilha Solteira. “Ainda estamos engatinhando no negócio, mas o futuro é promissor”, afirma o proprietário de uma das empresas, Roberto Sales.
Região ‘exporta’ eletricidade
As seis usinas construídas na região geram, juntas, uma média mensal de 3,89 milhões de megawatts de energia, o suficiente para abastecer 15,5 milhões de residências por um mês, quase o dobro do total de domicílios no Estado de São Paulo, 9,3 milhões. Tanta energia acaba direcionada, na maior parte, para a Capital, onde abastece tanto as residências como as grandes indústrias. É o caso da usina de Ilha Solteira, terceira maior do País.
“O potencial hídrico da região é muito maior do que nossa capacidade de consumo. Por isso ‘exportamos’ a maior parte da energia que produzimos”, afirma o engenheiro elétrico Jair Antonieto. Já a unidade de Três Irmãos, menor, com capacidade para gerar 4,28 milhões de megawatts por ano, é direcionada ao consumo regional. “Essa é a configuração predominante do sistema. Mas é bom lembrar que a rede é toda interligada”, diz o técnico em operações da usina Paulo Roberto Martins.
Como a usina de Três Irmãos é considerada um “braço” da usina de Ilha Solteira, há poucos funcionários na unidade de Pereira Barreto, apenas 15. Cabe ao grupo acompanhar por 24 horas a vazão do Tietê e o nível de produção de energia de cada uma das cinco turbinas. Um trabalho tranquilo, exceto quando ocorrem blecautes, como o de novembro do ano passado. “Varei a madrugada trabalhando, até restabelecer o sistema completo. Fui para casa às 6h da manhã”, lembra Martins.
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