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São José do Rio Preto, 22 de Março, 2010 - 10:15
Rio Preto joga fora 20 mi de litros d’água por dia

Allan de Abreu e Michelle Berti

Guilherme Baffi
Desperdício de água causa prejuízo mensal de R$ 1,29 milhão
Rio Preto desperdiça, todos os dias, 20 milhões de litros d’água. É como se a cidade jogasse fora o conteúdo de oito piscinas olímpicas cheias, diariamente, volume suficiente para abastecer Mirassol e Fernandópolis juntas. O prejuízo financeiro da gastança, calculado a partir da matriz tarifária do Serviço Municipal de Água e Esgoto (Semae), chega a R$ 1,29 milhão por mês ou R$ 15,48 milhões anuais. Prejuízo e desperdício são apenas alguns dos assuntos que o Diário vai tratar todos os domingo, a partir de hoje, na série de reportagens “Nossa água vale ouro”.

A publicação tem início um dia antes do Dia Mundial da Água, comemorado amanhã, e termina no dia 5 de junho, Dia Mundial do Meio Ambiente.A população de Rio Preto consome diariamente 87 milhões de litros de água, segundo estimativas do Semae. Levando em conta o consumo racional preconizado pela Organização Mundial de Saúde (OMS), de 110 litros/dia por pessoa, o gasto racional do produto no município seria 30% menor, 67 milhões de litros diários. O gerente de operações do Serviço Municipal Autônomo de Água e Esgoto (Semae), Alessandro Toscano, deixa claro que o consumo do rio-pretense é só uma estimativa - nem a autarquia sabe ao certo quanto de água é captada e distribuída por ela.

Tanto desperdício se deve ao baixo custo da água na cidade, aliado a um sistema de abastecimento ultrapassado. Cada litro do produto custa R$ 0,002 ao rio-pretense. “A água chega quase de graça na torneira. E o que vem fácil ninguém dá valor”, diz Toscano. Rio Preto tem a quarta tarifa de água mais barata entre as 80 maiores cidades brasileiras, aponta estudo de 2007 do Ministério das Cidades. Com o preço médio de R$ 1,14 para cada mil litros, só perde para Uberlândia (MG), Pelotas (RS) e São Luís (MA).

Cerca de 65% da gastança está na torneira do consumidor. “Lavar calçada é algo que está impregnado na cultura do rio-pretense. Tem gente que nem usa vassoura, empurra a sujeira com o esguicho”, diz Eujécio Aureliano Queiroz, assessor de manutenção do Semae. A faxineira Márcia Cintra Esteves, 39 anos, já viu muita água escorrer pelo ralo inutilmente durante seu trabalho. “Fiz muita limpeza em condomínios fechados e precisava lavar o quintal todos os dias. Era uma determinação dos patrões, e um desperdício que dava pena”, diz ela, flagrada pela reportagem lavando uma calçada na Vila Angélica. “Achei até que ia levar uma multa. Sei que não é certo, mas é o meu trabalho.”

A comerciante Maria da Costa Mendonça, 47 anos, lava a calçada de sua casa duas vezes por semana. “Estou com uma dor no braço muito forte e não consigo varrer”, diz. “Além disso, tenho um bar que funciona aqui, e a sujeira é grande.” Para o vice-presidente do Comitê da Bacia Hidrográfica do Turvo Grande, Germano Hernandes Filho, o desperdício de água faz parte de uma cultura que precisa ser revista em Rio Preto, especialmente por meio da educação. “Precisamos aprender a utilizar a água de maneira racional, consumindo apenas o que é necessário. Isso é possível por meio da educação. Mantemos projetos em escolas, com os agricultores, indústria e comércio, ” afirma Hernandes.

Elevar tarifa é uma saída

Uma alternativa para estimular o consumo racional da água é aumentar o valor pago pelo produto. “O comitê estuda cobrar pelo uso da água. Hoje, a tarifa que pagamos é apenas pelo tratamento e não pelo recurso que utilizamos da natureza”, afirma o secretário-executivo do Comitê Hidrográfico da Bacia Turvo Grande, Hélio Suleiman. “Cobrar por esse uso é uma alternativa. Pode estimular uma redução no consumo, além de preservar os recursos hídricos”, diz Germano Hernandes Filho, vice-presidente do comitê. Cobrar mais caro pelo uso da água, porém, esbarra na questão política. “Nenhum prefeito é louco de aumentar 100% o valor da tarifa de um dia para o outro, ainda que seja correto do ponto de vista técnico e ambiental. A impopularidade seria imediata”, diz um técnico do Semae.

Vazamentos

Ligações clandestinas, furto de água por fraudes no hidrômetro e vazamentos na rede respondem por um terço do desperdício. Todos os dias os técnicos do Semae fazem 30 a 40 reparos nos 1,3 mil quilômetros da rede. Com deficiência de pessoal, muitas vezes a autarquia não consegue resolver tantos furos na tubulação. Na terça-feira, fazia uma semana que o ramal de uma residência no Centro vazava sem parar. “Chamamos o Semae, mas até agora nada”, diz o pedreiro Marcelo Mateus Gonçalves. A assessoria prometia o reparo para este fim de semana. Na quarta-feira de manhã, a água começou a brotar do asfalto de uma rua do bairro Dom Lafayette, zona norte. Milhares de litros d’água, misturada com o barro, borbulhavam na via até se perder no córrego Piedade.

Guilherme Baffi
Rio Preto terá de construir outra estação para tratar água retirada do rio Grande; transporte do líquido pode custar até R$ 400 milhões
Captação de água pode custar R$ 400 mi

O crescimento populacional aliado ao desperdício e às fontes limitadas de captação fizeram com que o Serviço Municipal de Água e Esgoto (Semae) de Rio Preto iniciasse este ano estudo técnico para captação de água do rio Grande. O transporte do líquido até Rio Preto seria feito por meio de 65 quilômetros de dutos, o que pode custar entre R$ 300 milhões e R$ 400 milhões, três vezes mais do que para construir a estação de tratamento de esgoto (ETE).

A ideia de trazer água do rio Grande é antiga - há pelo menos uma década o assunto é discutido pelo Comitê da Bacia Hidrográfica do Turvo/Grande. A preocupação tem motivos técnicos. Estudo divulgado pela Agência Nacional de Águas (ANA) no fim do ano passado mostra que, se não houver um investimento mínimo de R$ 23 milhões no sistema de captação de Rio Preto até 2015, a cidade vai enfrentar problemas na oferta de água. O maior desafio está no rio Preto, responsável por 30% do abastecimento da cidade. “Com o crescimento populacional e o aumento da demanda, será necessário discutir projetos alternativos de captação”, diz o gerente de estudos da ANA, Sérgio Ayrimoraes.

Segundo o gerente de operações do Semae, Alessandro Toscano, a demanda por água cresce 4% ao ano na cidade. A dificuldade é saber quanto de água é distribuída na rede. “Sabemos a vazão dos poços, mas nem toda essa água chega ao consumidor devido aos vazamentos e às ligações clandestinas”, diz Toscano. Para ter essa medida, o Semae iniciou no fim do ano passado estudos de macromedição em cada bairro com aparelhos que medem a vazão na rede e o consumo final pelo consumidor. A autarquia comprou 20 macromedidores por R$ 20 mil cada, incluindo a instalação. Faltam cem, que serão comprados este ano.

Até 2011, será possível saber qual o consumo de água na cidade e comparar com a produção dos 222 poços ativos, cuja vazão somada é de 850 litros por segundo, e a captação no rio Preto, de 420 litros por segundo. “Com o gráfico do consumo e da produção, vamos saber o ano em que teremos problema na captação”, afirma Toscano. A saída imediata para dar conta do crescimento do consumo seria aumentar a captação subterrânea nos aquíferos Bauru, Botucatu e Guarani. Mas a estratégia tem limites: se a captação é maior do que a capacidade de regeneração do lençol, o nível da água desce, o que obriga a construção de novos poços mais profundos e caros. “As origens dos colapsos no abastecimento decorrem da falta de planejamento e manejo das bacias hidrográficas”, diz o engenheiro hídrico da USP Eduardo Mendiondo.

Daí a preocupação em iniciar os estudos para trazer água do rio Grande. A obra não se limita aos dutos de Icém a Rio Preto. Seria necessário construir uma nova estação de tratamento de água (ETA), próximo ao entroncamento das rodovias Transbrasiliana (BR-153) e Assis Chateaubriand (SP-425). O sistema teria de ser outorgado pelo Departamento de Água e Energia Elétrica (Daee), que avalia se a captação não prejudica o rio Grande. O vice-presidente do Comitê da Bacia do Turvo/Grande, Germano Hernandes Filho, afirma que um estudo realizado pelo Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT) confirmou que o rio não seria afetado pelo abastecimento de Rio Preto. “A vazão do rio é grande pela quantidade de água que precisamos”, diz. Como as demais cidades da bacia que utilizam o abastecimento são pequenas, não haveria risco de sobrecarga.

É preciso, porém, que haja planejamento para o bom desenvolvimento da obra. “Rio Preto precisa crescer cada vez mais para a zona norte, seguindo o leito do rio que abastece a cidade. Quanto mais o município crescer para lá, menor é a distância até o Grande”, diz. Crescer para o norte também implica aliviar a zona sul e leste, onde está localizada a Represa Municipal. “Não podemos crescer em cima de nossa caixa d’água.” Como a obra é uma alternativa a longo prazo, Hernandes Filho afirma que alternativas mais rápidas devem ser executadas. Um exemplo é a drenagem urbana. “A água da chuva precisa infiltrar no solo. Isso garante o abastecimento dos rios, da Represa e do lençol freático. Se o ‘estoque’ for grande, não é necessário buscar água longe. A permeabilização do solo também ajudaria a conter as enchentes.”

Outros casos

A maior inspiração do Semae está em Presidente Prudente, onde há 12 anos a Sabesp construiu um sistema de 42 quilômetros de dutos para captar água do rio do Peixe. A obra começou a ser planejada depois que o rio Santo Anastácio, que corta a cidade e era a principal fonte de abastecimento foi assoreado. Como a água do subsolo tem concentração de cromo acima do limite, a saída foi buscar água no Peixe, responsável por 70% do abastecimento da cidade - outros 30% vêm do Santo Anastácio.

Edvaldo Santos
Eujécio Aureliano Queiroz, do Semae, com cano com carbonato; substância entope rede e obriga substituição
Reajuste será anunciado em 15 dias

Uma comissão nomeada no início do mês pelo superintendente do Serviço Municipal Autônomo de Água e Esgoto (Semae), Antonio José Tavares Ranzani, vai definir o percentual de reajuste na tarifa da água consumida pela população de Rio Preto. O prazo para o grupo apresentar uma proposta termina daqui a duas semanas. Entre os itens analisados está a inflação acumulada e as despesas do Semae com energia elétrica. O reajuste entra em vigor em agosto deste ano. No ano passado, a comissão propôs reajuste de aproximadamente 12,36% nas contas de água, mas o aumento apontado pelo prefeito Valdomiro Lopes, a quem cabe a decisão final, foi de 5,61%, índice correspondente à inflação no ano.

Atualmente, a tarifa mais baixa do Semae, chamada social, é de R$ 6,70 por dez metros cúbicos consumidos. A residencial é de R$ 16,70 a cada dez metros cúbicos e a comercial, R$ 26,60 pela mesma medida. Na comparação entre as tarifas residenciais, a água em Rio Preto é mais barata do que a das cidades atendidas pela Sabesp (R$ 24,56) e de Bauru (R$ 17,71), mas é mais cara do que em Ribeirão Preto (R$ 11,50), Campinas (R$ 13,23), Catanduva (R$ 13,16) e a cidade de Votuporanga (R$ 14,45).

Automação

Nem só os vazamentos obrigam o Semae a trocar a tubulação subterrânea de água. Outro vilão da rede é o carbonato, substância presente na água que, com o passar dos anos, forma uma camada interna no cano que diminui a vazão da água. O problema, ainda não pode ser sanado, a não ser com a troca da tubulação. “Como não é possível retirar o produto sem danificar o cano, a tubulação precisa ser substituída com o passar por anos”, diz o assessor de manutenção do Semae, Eujécio Aureliano Queiroz.

Guilherme Baffi
Em São Paulo, o morador que é flagrado lavando calçada paga multa de R$ 100; em Rio Preto ninguém foi multado
Lavou calçada, multa nele!

Para inibir o desperdício de água, a Prefeitura de São Paulo implantou uma lei que multa em R$ 100 quem é flagrado lavando o carro na calçada. A norma foi instituída em 2002, na gestão de Marta Suplicy (PT). A assessoria da prefeitura não soube informar quantas autuações foram registradas nos últimos oito anos, nem os valores arrecadados.

A Capital é abastecida pelas represas Billings e Guarapiranga, cada vez mais assoreadas e poluídas pela ocupação do entorno, e pelo sistema Cantareira, um conjunto de seis represas. “Ao contrário do Interior, onde a água ainda é abundante, em São Paulo a falta d’água é constante porque o sistema de distribuição é muito complexo e sempre ocorrem problemas”, diz o assessor de manutenção do Semae Eujécio Aureliano Queiroz, ex-funcionário da Sabesp na Capital.

Em 1972, o então prefeito de Rio Preto, Adail Vetorazzo, promulgou uma lei municipal que multava quem desperdiçasse água. “É proibido o uso de água na irrigação de ruas e calçadas e na lavagem de veículos em logradouros públicos”, previa o artigo 6º da lei 2.093. A multa foi fixada em 40% do salário mínimo. “Era uma época em que a falta d’água era um problema constante na cidade”, afirma o assessor jurídico do Semae, Roberto Carlos Martins.

A lei, no entanto, nunca foi posta em prática. “Virou letra morta”, diz Martins. Foi só em 2001, com a criação do Semae, que a norma foi regulamentada: a proibição e a multa valem apenas para épocas de escassez, quando há grandes estiagens ou problemas na rede, a exemplo da enchente de janeiro deste ano, que deixou 160 mil rio-pretenses sem água. Até hoje, porém, ninguém foi multado por lavar o carro ou a calçada, de acordo com o assessor jurídico.

Bauru e Indaiatuba também autuam o morador que lava o carro ou a calçada apenas em períodos críticos do abastecimento. Em Bauru, a multa, prevista em lei de 2005, é de 5% da fatura de água do mês anterior, e de 10% em caso de reincidência. Já em Indaiatuba, desde 2007 foram aplicadas 32 multas de R$ 185 por desperdício de água em períodos de escassez.

Thomaz Vita Neto
Jurandir Pereira lava carro com água captada da chuva; dutos no telhado permitem armazenamento do líquido em caixa d’água: economia e consciência ambiental
Empresas economizam com água da chuva

Reutilizar a água da chuva faz parte do cotidiano do engenheiro mecânico Pedro Pereira, 49 anos, de Rio Preto. Ele construiu um sistema para armazenar as águas pluviais em sua casa há cerca de sete anos. “Fui visitar um amigo quando estava planejando a minha casa. Achei muito interessante a ideia de reaproveitar a água que vem da natureza.” O sistema é simples. A água é coletada do telhado por meio de calhas ligadas a uma tubulação, que a leva até uma caixa d’água. O reservatório pode ser subterrâneo, para não ocupar espaço, ou na área externa.

A água armazenada pode ser utilizada na descarga do vaso sanitário e em atividades como regar as plantas e lavar a calçada. “É uma forma de contribuir com o meio ambiente, pois deixamos de jogar fora água tratada.” Além dos ganhos ambientais, há também a recompensa financeira. No ano passado, Pereira instalou o sistema em um lava-jato da região central da cidade. Antes da execução do projeto, o gasto mensal com água para a lavagem de carros era de R$ 211,85.

Em novembro, devido a grande quantidade de chuvas, o valor chegou R$ 26,60. Em março, quando as chuvas diminuíram, o gasto foi de R$ 48,62. A instalação do sistema custou R$ 2,5 mil. “O consumo cai e com ele os gastos diminuem. Para empresas e comércios, o reaproveitamento é muito rentável”, diz o engenheiro. Em residências, o sistema só compensa quando a casa ainda não foi construída. “Adaptar em uma casa já pronta é bem mais complicado.”

Bons exemplos
Em Rio Preto, algumas empresas investiram no reaproveitamento da água para evitar o consumo exagerado. É o caso do Plaza Avenida Shopping, que utiliza água da chuva para regar os jardins, e da Arcontemp, que reaproveita a água pluvial nos vasos sanitários. Já a Circular Santa Luzia trata a água utilizada na lavagem de ônibus em uma mini-estação de reciclagem instalada na própria empresa. O líquido é filtrado e oxigenado em diferentes níveis, e depois armazenado em um reservatório de 180 mil litros. O processo reaproveita 83% da água usada na lavagem dos veículos da empresa, o que corresponde a quase seis milhões de litros.

Clique aqui e confira o projeto do bombeamento da água do rio Grande para Rio Preto





 
     
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