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São José do Rio Preto, 21 de Fevereiro, 2010 - 3:02
Rio Turvo se recupera em meio à poluição

Helen Ventura

Carlos Chimba
Sucuri com espinhos flagrada no percurso: predador se deu mal
Poluição industrial e doméstica, lixo, ranchos construídos em áreas que deveriam ser preservadas, assoreamento, falta de vegetação, pesca predatória e a retirada de água indiscriminada por indústrias são os principais problemas que o rio Turvo apresenta no trecho compreendido entre os municípios de Tabapuã e Guapiaçu. A reportagem do Diário percorreu, de barco, 20 quilômetros do rio, durante três horas, e constatou as irregularidades. Garrafas pets e sacolas plásticas são encontradas em meio à vegetação nativa. Parte da mata ciliar, por conta das intervenções humanas, ainda está em fase de regeneração.

De acordo com o tenente Luís Antônio Vaserino, da Polícia Ambiental de Catanduva, o índice de oxigênio nas águas está abaixo do normal. “Principalmente por causa do esgoto. Não dá para mensurar qual é o índice hoje, mas percebe-se, visualmente, que não está dentro da normalidade.” Vaserino afirmou que, durante a piracema, período em que há a reprodução dos peixes e a pesca é proibida, o rio fica mais limpo.

Apesar das intervenções, o tenente afirma que o local ainda é considerado um Pantanal em miniatura. “Aqui existem várias espécies de peixes e de pássaros. A natureza, por enquanto, consegue sobressair-se.” O rio Turvo, na área explorada, tem aproximadamente cinco metros de profundidade. Durante o percurso, o Diário flagrou, ainda, pescadores e “turistas” em ranchos construídos em áreas de preservação. O aposentado Ideval Zagatti, 74 anos, mora em Catanduva e diz que frequenta o local há dois anos, mas sem fazer pesca.

“O rancho é da família. A gente vem para descansar apenas. Pescar é só de vez em quando, mas sei que agora está proibido. No período em que a pesca é permitida, pegamos muitos peixes bons por aqui.” Ao contrário de Zagatti, o pescador profissional Benedito Coelho, 49 anos, afirmou morar em um rancho próximo a Guapiaçu e localizado a cerca de 30 metros da margem do rio Turvo. Ele diz que não tem para onde ir e mora no local de favor, como caseiro.

“O que vou fazer? Preciso sobreviver e esta é a minha profissão. Se tivesse condições, eu montava um trailer longe daqui, não teria problema nenhum. Se derrubarem o rancho, não sei para onde vou.”
Durante o percurso, foi possível avistar cerca de 15 ranchos em áreas irregulares.

Lagoa

Durante o percurso, foram avistadas algumas lagoas marginais – águas represadas que se formam ao lado do rio e que servem como um viveiro natural. O local funciona como um criadouro de peixes onde, de acordo com o tenente, a pesca é proibida em qualquer época do ano.

O soldado Luiz Cláudio Virgínio da Cruz, que também participou da viagem de barco, declarou que nessas áreas a mata ciliar costuma atingir 2,5 quilômetros de extensão. “Se não houvesse tantas ações humanas, todo o resto do rio teria uma vegetação mais fechada.”

Esgoto ‘mata’ São Domingos

O rio São Domingos, com extensão de 83,9 quilômetros, de Santa Adélia a Tabapuã, enfrenta problemas graves com relação ao esgoto, jogado ainda in natura no trecho de Catanduva. A nascente dele é em Santa Adélia, onde toda a área já foi mapeada, inclusive com autuações a proprietários de sítios e usinas que utilizavam áreas de preservação indevidamente. Foram visitadas 56 propriedades. Na maioria delas, a intervenção era de cana ou pastoreio de gado.

De acordo com o tenente Luís Antônio Vaserino, assim como no rio Turvo, o São Domingos possui 120 pontos de captação de água. “O problema é que não há como vistoriar a quantidade que é retirada. Existem empresas que utilizam essa água para irrigação e o uso pode ser indiscriminado, mas não há como avaliar.”

A maior parte da vegetação, por conta do mapeamento realizado no ano passado em Santa Adélia e das providências tomadas pela Polícia Ambiental, já está em fase de regeneração. Porém, dependendo da mata, a regeneração pode levar até 50 anos. Em Pindorama, onde o mapeamento está começando, a situação é parecida. O município inaugurou a lagoa de tratamento de esgoto no início do ano passado e, com isso, possibilitou a melhora do rio. Há até quem arrisque nadar, como é o caso de Everson Carlos Moreno, 18 anos. “Venho aqui sempre. Moro em um vilarejo aqui perto e, quando está muito calor, procuro me refrescar aqui. Só não se encontram muitos peixes.”

O pastoreio de gado também é um dos problemas enfrentados no município. “Mas já estamos tomando as providências”, afirma o tenente da Polícia Ambiental. A situação piora em Catanduva. Empresas, segundo Vaserino, depositam produtos no rio, além do esgoto in natura que ele já recebe.

A Prefeitura de Catanduva, através da assessoria, informou que desde 2005 investe em obras para despoluir o rio São Domingos. Desde 2004, foram feitos cerca de 25 quilômetros de coletores de esgoto nos córregos da cidade, que drenam para o rio São Domingos. No ano passado, o município teve a confirmação de dois empréstimos que viabilizarão tanto as obras de implantação de interceptores de esgoto ao longo do rio quanto a construção da Estação de Tratamento de Esgoto (ETE). A área destinada a esta finalidade já foi adquirida.

Para a viabilização das obras, que incluem 5,5 quilômetros de corredores verdes ao longo do rio, foram firmados convênios com o governo federal, através da Caixa, e com o Banco Interamericano Mundial (BID). A Caixa deverá liberar R$ 10 milhões através do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), além de R$ 2 milhões previstos como contrapartida. Já o BID, vai liberar US$ 8,4 milhões, com contrapartida da prefeitura no mesmo valor. A prefeitura pretende concluir as obras em quatro anos, após a liberação.



 
     
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