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Chacina ambiental
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São José do Rio Preto, 7 de Outubro, 2009 - 14:58
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Rio Preto mutila cem árvores por dia
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Allan de Abreu e Rita Magalhães
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Sérgio Menezes
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No bairro Francisco Fernandes, 5 de 8 sibipirunas mutiladas morreram
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Da copa da árvore só sobraram o tronco e galhos mutilados. O verde sumiu e o sol invade em cheio onde antes havia sombra. Diariamente Rio Preto sofre um desmatamento silencioso e progressivo, que compromete o meio ambiente, afeta a qualidade de vida e castiga o cidadão. Sem árvores, a cidade se torna ainda mais quente, empoeirada e empobrecida visualmente, já que o colorido natural da vegetação dá lugar ao cinza grafite do concreto e asfalto. O que à primeira vista parece não passar de casos pontuais e isolados ganha contornos de tragédia criminosa, uma espécie de chacina ambiental, quando analisada à luz dos números. A Secretaria de Serviços Gerais atende uma média de 3.020 chamados de cata-galho ao mês, mais de cem por dia. Cada chamado é uma árvore que foi mutilada ou completamente assassinada. Segundo o secretário da pasta, Paulo Pauléra, um terço das árvores com poda drástica não resiste e morre. E, em vez de punição, o autor do crime ainda é premiado com serviço grátis de limpeza.
Para apagar os vestígios da destruição ambiental, a Prefeitura de Rio Preto gasta R$ 120 mil por mês dos cofres públicos, em torno de R$ 1,4 milhão por ano, o equivalente ao que é investido na construção de uma creche com capacidade para atender 250 crianças. No máximo, quando flagrado pela fiscalização, o responsável pelo dano recebe uma multa de R$ 50 pela poda drástica ou R$ 100 pela erradicação total da árvore. Para o engenheiro civil e especialista em gestão ambiental Roberto de Carvalho Júnior, o corte irregular e a erradicação de árvore são uma questão cultural entre os rio-pretenses por falta de consciência da importância da arborização. “A árvore retém material particulado, regula a temperatura do ambiente, retira o gás carbônico que nos envenena e libera o oxigênio que nos dá vida. É a grande alquimista da natureza”, explica. O secretário do Meio Ambiente, José Carlos de Lima Bueno, afirma com base no estudo de um geógrafo que a diferença de temperatura entre ambientes arborizados e não arborizados varia de cinco a oito graus Celsius.
Na rua dos Radialistas Rio-pretenses, bairro Francisco Fernandes, a chacina ambiental assusta. Pressionada pelos vizinhos, a proprietária do imóvel contratou um jardineiro para podar oito sibipirunas. A poda foi tão drástica que cinco morreram e as outras três agonizam. “Fazia uma sombra muito boa na rua, mas à noite ficava muito escuro e estava virando motel”, diz a vendedora Ivani Salvador, vizinha do imóvel. “Podia cortar um pouco, mas não desse jeito.” Multada pela Prefeitura, a moradora mudou-se há dois meses para São Paulo e não foi localizada. Além da segurança, as justificativas mais comuns dos moradores que dizimam suas próprias árvores são a sujeira das folhas, as raízes que avançam sob as casas e a invasão de muros e ruas pelos galhos.
“Todo ano eu corto por causa da sujeira. Mas em pouco tempo, uns 90 dias, ela brota de novo”, diz Osvaldo Peruca, apontando para a castanheira em frente à sua residência, na Boa Vista. A poda foi tão radical que não restou uma folha sequer. Os funcionários da farmácia ao lado reclamam da sombra perdida. “Rio Preto já tem pouca árvore e o calor é cada vez maior. Não sei onde vamos parar”, afirma Márcio Sampaio Lopes. A serra elétrica trabalhou bastante na avenida João Batista Vetorazzo, no Distrito Industrial. No total, 14 árvores, uma ao lado da outra, sofreram podas radicais, e outras cinco foram erradicadas há um mês. Vizinho ao desmate, o porteiro Argemiro Neves Filho não esconde a indignação. “Aqui é lugar de indústria, e deveria ter mais árvore para reduzir a poluição. Mas o povo destrói as poucas árvores que sobraram no bairro. Não tem cabimento”, afirma. No Parque Industrial, os filhos de Ricardo Pereira ainda lamentam o fim da brincadeira preferida: escalar a árvore em frente à casa dele, na rua Osvaldo Aranha. “Eles passavam o dia todo trepados lá, mas aí o vizinho mandou depenar a árvore. Foi uma pena.”
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Sérgio Menezes
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Oitis predominam na paisagem urbana de Rio Preto, como na rua Ipiranga, Zona Sul
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Oitis são metade das árvores
Além de escassa, a arborização de Rio Preto é mal planejada e pouco diversificada, segundo especialistas. A Secretaria de Serviços Gerais informa que metade das árvores da cidade são oitis. Em alguns bairros, como Alto Rio Preto, a espécie é quase unanimidade. Para especialistas, esse predomínio representa um risco ambiental. “Se alguma praga atingir essa espécie, dizima boa parte das árvores de Rio Preto”, diz a professora de botânica da Unirp Valéria Stranghetti. Por duas vezes, a cidade sofreu as consequências da monocultura na arborização. Primeiro nos anos 70 com a sibipiruna. Na década seguinte foi a vez da canelinha. Ambas foram destruídas por pragas, e hoje são raras na paisagem urbana rio-pretense.
“Temos dificuldade em aprender com esses erros do passado e ainda preferimos o oiti”, diz o secretário de Serviços Gerais, Paulo Pauléra. Apesar das críticas, o próprio Poder Público mantém doações de oitis no Viveiro Municipal. “O oiti não exige solo de qualidade, tem raízes não perfurantes, folhas persistentes e facilidade de manejo. É ótimo para calçada. Agora a espécie paga o preço da popularidade”, diz o secretário de Agricultura do município, Moacir Seródio. Para o especialista em gestão ambiental Roberto de Carvalho Júnior, o predomínio arriscado do oiti é reflexo da falta de um planejamento na arborização de Rio Preto. “A cidade deveria ter um plano diretor sobre o tema que determinasse a espécie de árvore para cada região do município, como em Maringá (PR). O que existe hoje em Rio Preto é a ‘arboriaberração’.” A falta de políticas públicas de arborização é visível em avenidas como a Juscelino Kubitschek, onde sibipirunas convivem com eucaliptos e cajueiros, ou a Murchid Homsi, cujas árvores foram plantadas muito próximas umas das outras, o que gera um problema de segurança pública: à noite o local fica muito escuro e se torna esconderijo certo para usuários de drogas.
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Edvaldo Santos
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Pé de jaca na calçada de praça localizada em frente ao ARE
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Árvores frutíferas
Pauléra condena o plantio de árvores frutíferas na calçada. “Um pé de manga pode causar um acidente grave se uma fruta cai na cabeça de uma criança”, afirma. A Prefeitura não multa quem erradica árvores frutíferas. “É incentivo para que o morador troque a planta por uma espécie mais adequada.”
A própria Prefeitura, porém, não dá o exemplo: na praça ao lado do Ambulatório Regional de Especialidades (ARE), um pé de jaca é risco permanente aos pedestres. A Secretaria tem uma lista de espécies recomendadas para o plantio urbano - porte pequeno para calçadas com rede elétrica, como ipê rosa anão e grevilha, e porte grande para calçadas livres de fios, como a pata-de-vaca e a falsa pimenteira.
Metade das mudas morre
A erradicação de árvores em Rio Preto é combatida com a doação de mudas pela Prefeitura. O Viveiro Municipal doa uma média de 5 mil mudas por mês. O problema é que o plantio não repõe a perda das árvores porque, com a falta de cuidados, metade das mudas plantadas morre com poucos meses de vida, segundo o secretário de Agricultura do município, Moacir Seródio. Nos canteiros centrais das avenidas, são comuns galhos ressequidos de mudas recém-plantadas. “Tudo o que é novo, se não for bem cuidado, morre. Muitos procuram mudas porque a Prefeitura exige que o lote tenha pelo menos duas árvores plantadas na calçada para se obter o Habite-se. Mas não cuidam devidamente”, diz.
Em 2008 foram distribuídas 250 mil árvores, das quais cerca de 50 mil foram retiradas para plantio em calçadas e o restante para recuperação de mata ciliar. Neste ano, foram doadas 45 mil mudas, conforme Seródio. Cada cidadão, de acordo com o secretário, tem direito a cinco mudas no Viveiro. A Secretaria faz campanhas para o plantio de árvores no aniversário da cidade e na Expô Rio Preto, além de distribuir mudas nas escolas do município. “Buscamos fazer a nossa parte”, afirma. Amanhã, para comemorar o Dia da Árvore, a Prefeitura vai plantar 750 mudas de árvore no lago 3 da Represa Municipal.
Serviço: Viveiro Municipal Rodovia BR-153, km 61, Jardim Primavera - Tel: (17) 3225-9769
Fonte: Colaborou: Michelle Berti e Vívian Lima
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