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Descaso
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São José do Rio Preto, 7 de Outubro, 2009 - 9:20
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Córregos se transformam em lixões aquáticos
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Raul Marques e Michelle Berti
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Edvaldo Santos
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Lixo doméstico, material de construção e até sofá se acumulam perto do Felicidade
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O descarte irregular e sem critério de lixo orgânico, garrafas pet, pneus, produtos eletrônicos e plásticos em geral transformaram nove importantes córregos e o rio Preto em lixões aquáticos, com pouca vida e aspecto degradante. A poluição indiscriminada prejudica a fauna e a flora, atrapalha o curso natural da água, empobrece a paisagem e é responsável diretamente por um grave problema que aterroriza a cidade em período de chuva: enchente. Se os córregos fossem veias e a cidade o corpo humano, o colapso seria só uma questão de tempo. A tortura a qual os cursos d’água de Rio Preto são submetidos diariamente, em menor ou maior escala, foi constatada pelo Diário na semana passada, em reportagem que consumiu 15 horas de pesquisa e 102 quilômetros percorridos de carro nas margens dos córregos Borá, São Pedro, Limão, Macacos, Canela, Aterradinho, Piedade, Piedadinha, Felicidade, além do rio Preto. Nos dez locais visitados, foram mapeados 23 pontos diferentes que sofrem com o problema.
Os ambientalistas Arif Cais, Dino Vizotto e Kátia Penteado são unânimes ao afirmarem que o lixo acumulado nos córregos desencadeia uma série de impactos ao meio ambiente. Os resíduos, quando jogados nas margens, ocupam o lugar que seriam das plantas e dos animais. Se atingem a água, atrapalham o curso do rio. Geralmente, os materiais terminam em bocas de lobo, utilizando a área destinada para a água da chuva. Quando chove, o entulho impede a passagem da enxurrada e provoca enchentes. Outro perigo é o acúmulo de matéria orgânica. Quando atinge a água, o lixo utiliza o oxigênio destinado aos peixes para sua decomposição, colocando em risco todo o ecossistema aquático. Os restos de alimento atraem ainda animais como baratas e escorpiões e podem proliferar doenças.
No entanto, não é preciso ser especialista para perceber o impacto deste lixo no ambiente urbano. A cidade fica com aspecto sujo. “O impacto é visível”, diz Kátia. “A paisagem urbana fica comprometida”, completa Arif. Os córregos Piedade e Piedadinha, que cortam a zona norte, e o Felicidade são os que se encontram em pior situação e liderariam, com folga, o ranking de sujeira. Em contrapartida, os córregos Canela (av. José Munia), Borá (av. Juscelino Kubistschek) e Aterradinho (av. Murchid Homsi), todos localizados em área nobre e em parte canalizados, são os menos sujos - embora um olhar mais atento encontre com facilidade garrafas, plásticos e papéis pelos cantos. Um cágado, o único animal visto pela reportagem durante a expedição, se encontrava solitário no Aterradinho.
Em razão da facilidade de acesso, o Diário optou por parar e verificar a situação sempre nas proximidades de pontes ou de clarões abertos no meio das matas. Além de existir lixo na água e margem, é possível encontrar sacolas, carregadas com restos residenciais, penduradas nos galhos das árvores. No rio Preto, há inclusive um teclado velho no alto de uma árvore. Como existem sacos fechados com lixo orgânico, não é difícil imaginar que as pessoas trazem os detritos de casa e jogam do próprio carro ou moto. Plásticos, lixo orgânico, embalagens, garrafas pet, entulho, restos de móveis, pneus de carro e bicicletas e pedaços de madeira são os lugares comuns, ou seja, se repetem nos dez pontos visitados e atrapalham a natureza. É claro, no entanto, que há espaço para coisas ainda mais absurdas.
Dentro do córrego Felicidade, por exemplo, foi jogado um sofá com dois lugares. Quem parar na ponte da BR-153 vai enxergar o móvel parcialmente encoberto pela água. No córrego Piedade, a reportagem encontrou cartela de comprimido, privada e até um pneu de trator. Já no Piedadinha, no Jardim Paraíso, há um capacete vermelho boiando. Na altura do Jardim Antunes, existe um lixão próximo da margem. Qualquer chuva vai arrastar para a água sofá, tênis, boneca, roupas, chuteira e telas de televisão. No córrego Piedade, perto do clube de campo do Palestra, a água estava acompanhada de espuma. Na região, existem fábricas e indústrias. No Limão, no Parque das Aroeiras, havia óleo em um dos braços do córrego. Em todos os lugares, o verde da natureza não está sozinho.
Material abandonado poderia mobiliar casas
A partir do que é descartado irregularmente em qualquer lugar de Rio Preto, é possível montar e mobiliar uma casa, vestir a família e “calçar” o carango. O Diário procurou objetos em lixões do Jardim do Bosque, Vila Elmaz, Maria Lúcia, João Paulo 2º e Vila Curti, além de nove córregos, rio Preto e linha férrea. Há de tudo que possa imaginar. A busca por utensílios não levou em consideração a qualidade, o estado de manutenção ou o possível preço de mercado. A ideia era constatar que a reciclagem não faz parte da vida da maioria das pessoas. A primeira constatação: com as centenas de quilos de entulho e madeira jogadas fora daria para erguer paredes. E equipar uma cozinha. A reportagem encontrou pia, armário, garrafão de água e até panela, presa a um galho no rio Preto.
A sala não ficaria atrás. O que mais tem jogado por aí é sofá. Na Vila Elmaz, existe uma espécie de cemitério deles. Eram seis abandonados ao vento. Há um modelo, com dois lugares, dentro do córrego Felicidade. É claro que não pode faltar televisão. Os modelos velhos, substituídos pelas telas planas e LCD’s, vão parar onde? Na esquina, no chão, no terreno. Como a oferta é grande, seria até possível colocar TV no quarto do casal, dos filhos e até na cozinha. Para a sala ficar completa, é importante pensar na decoração. Há um vaso com espada de São Jorge – para tirar aquele mau olhado, purificar e proteger. Já para o banheiro, existe privada, com a cor a escolher, e até espelho; para a lavanderia, tanque de cimento; para o quarto, colchão. Como não é raro levar trabalho para casa, é necessário montar o escritório.
O teclado do computador e a pasta, para carregar os documentos, já estão garantidos. O carro pode ganhar pneus. Há dezenas espalhados nas margens dos córregos, ocupando o lugar da vegetação. Tem até pneu de bicicleta e, para quem precisar, trator. Para a família, há presentes também. Calça jeans, tênis, bolsa feminina, blusinhas, camisetas, moleton e o que não pode faltar em um lixão que se preze: tamancos. Parte importante do que foi jogado fora poderia ter outro fim: ajudar pessoas carentes, render algum dinheiro e, sobretudo, não poluir o meio ambiente.
Jogar lixo é crime ambiental
Jogar lixo nas margens de córregos e rios é crime ambiental. Quem for flagrado na atividade responde a processo e pode ser condenado a até um ano de prisão, segundo o tenente Luis Antonio Vaserino, da Polícia Ambiental de Rio Preto. O órgão é o responsável pela fiscalização das áreas de proteção permanente (APP). “Temos fiscalizado intensamente”, afirma o tenente. Segundo ele, o acúmulo de entulhos nos córregos diminuiu com a implantação dos pontos de apoio e da usina de reciclagem da construção civil. A Secretaria de Serviços Gerais também fiscaliza o despejo irregular de entulho em áreas de preservação e terrenos de Rio Preto. “Temos 10 fiscais que percorrem a cidade. No entanto, a maioria dos entulhos é despejada à noite e em finais de semana. Mesmo trabalhando em regime de plantão, é difícil flagrar”, diz o secretário Paulo Pauléra. A penalidade para quem praticar o crime é uma multa de R$ 3,1 mil. O valor dobra a cada reincidência.
Prefeitura é a responsável por realizar limpeza
A responsabilidade de manter limpa as margens dos córregos que passam pela cidade de Rio Preto é da Secretaria de Serviços Gerais. Segundo o secretário da pasta, Paulo Pauléra, equipes fazem o trabalho de limpeza periodicamente, mas os entulhos voltam a ser jogados no dia seguinte. “Nosso trabalho é igual ao de dona de casa. Limpa hoje, amanhã está tudo sujo de novo”, diz Pauléra. Ele não soube afirmar, porém, com que frequência a limpeza é realizada. “Não é todo dia, porque não temos estrutura para isso.” O secretário afirma que há 17 pontos de apoio espalhados por toda a cidade para depositar restos de construção civil e também entulhos de todo o tipo. Outros oito devem ser construídos. “Queremos que os pontos fiquem a no máximo dois quilômetros um do outro, para não ter desculpa”, diz o secretário. “É uma forma de tentar resolver o problema, embora já encontramos entulho a menos de 300 metros de um ponto de apoio.”
O material é encaminhado para a usina de resíduos de Rio Preto, que o transforma em cimento. O que não pode ser aproveitado no processo é encaminhado para aterros licenciados. Para Pauléra, a sujeira à beira dos rios é fruto de uma cultura enraizada no modo de vida rio-pretense, descrita como “cultura de relaxo” pelo secretário do Meio Ambiente, José Carlos de Lima Bueno. A pasta coordena o trabalho das Secretarias de Serviços Gerais, Obras e Saúde nos pontos de apoio. Bueno afirma que a Secretaria já agendou reuniões com o Fórum de Associações de Moradores para discutir os problemas ambientais de Rio Preto. “Sem o apoio da população, não há como avançar. É preciso que haja o engajamento de cada um para mudar de atitude e denunciar quem o faça. Não há cabimento uma cidade do tamanho da nossa ter esse tipo de comportamento.”
Enchentes
Os entulhos à beira de rios podem contribuir para enchentes na cidade, especialmente em janeiro e fevereiro, quando a quantidade de chuvas aumenta. A enxurrada leva os resíduos para dentro do rio, elevando o volume da água e prejudicando o escoamento. Para tentar evitar ou atenuar as cheias, Pauléra afirma que 12 equipes estão trabalhando prioritariamente para limpar as bocas de lobo da cidade, especialmente nas avenidas Alberto Andaló, Bady Bassitt e Murchid Homsi, que ficam em regiões mais baixas. “Com as bocas de lobo limpas, a água pode escoar. Quando elas estão sujas, entopem facilmente.”
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