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São José do Rio Preto, 14 de Julho, 2010 - 1:48
Morre no Rio de Janeiro o músico Paulo Moura

Francine Moreno

Lézio Júnior
Morre o saxofonista e clarinetista Paulo Moura, de 77 anos. Natural de Rio Preto, o compositor e arranjador de choro, samba e jazz é certamente a maior personalidade artística que a cidade já gerou, tendo dividido palco com Ary Barroso, Dalva de Oliveira, Elis Regina, Milton Nascimento, Tom Jobim e Sérgio Mendes, entre outros.

O músico estava internado na Clínica São Vicente, na Gávea, no Rio de Janeiro, desde o dia 4 de julho, com linfoma (câncer do sistema linfático), e faleceu no final da noite de segunda-feira. O velório acontece hoje, das 11 às 16 horas, no salão nobre do Teatro Carlos Gomes, no Rio.

Acerimônia seria realizada ontem, mas foi postergada para que, de acordo com a Secretaria de Cultura, houvesse tempo hábil para homenagens ao músico. O corpo será cremado em uma cerimônia privada.

Apesar de Paulo Moura ter vivido em Rio Preto até apenas o início de sua adolescência (residia no Rio desde 1945), o músico guarda bons amigos na cidade, como o aposentado Pedro Parada, que relembra com saudades das brincadeiras na rua XV de novembro, no centro de Rio Preto.

“Brincávamos de futebol com bola de meia. Paulo era goleiro e dedicado aos estudos musicais. Quando o pai o chamava, ele largava a bola na hora.” De criança simples, Moura se tornou homem sem vaidades. “Ele nunca esqueceu dos amigos daqui. São-paulino, em São Paulo, e flamenguista, no Rio, ele torcia também fervorosamente pelo Rio Preto.

Quando nos falávamos por telefone ele dizia que havia assistido ao jogo do nosso time”. Como o músico transitava com a mesma facilidade pelo popular e erudito e tinha forte ligação com o jazz, ganhou grandes admiradores que o tinham como ídolo. O músico local Rodrigo Leão é um deles e lembra com muito respeito de um dos encontros que teve com Moura.

“Em 2007, Paulo Moura fez um workshop na Casa de Cultura e conseguiu atingir a meta que era o intercâmbio e a reciclagem musical. Uma de suas frases me marcou muito. Segundo ele, o músico que esconde o que sabe não tem o que mostrar ou não sabe nada”, revela. O fotógrafo Toninho Cury, autor da foto que ilustra a capa do disco “K-Ximblues”, de 2001, afirma que mesmo após ter conquistado uma condição que poucos músicos conseguiram, um dos mais requisitados no Brasil e no exterior, Moura gostava de se lembrar do pôr do sol de Rio Preto.

“Sempre que fazia fotos da represa eu mandava para ele no Rio de Janeiro e ele retornava com muita gratidão. As fotos, de certa forma, mantinham forte sua ligação com a cidade natal.” O jornalista Wilson Guilherme conheceu o artista em 1993: desde então, estreitou-se entre eles um laço de amizade. “Moura dizia que Rio Preto, pela tradição que tem, merecia um festival de música instrumental.

Quando surgiu a oportunidade de formatarmos o ‘Festival Paulo Moura’, em 1997, com foco nas atividades formativas, o evento tomou proporções grandiosas só pela presença do saxofonista.” Guilherme ri quando lembra das histórias com o velho amigo. Em uma delas, ele pedia um refrigerante. “Quando visitava parentes no Rio de Janeiro, ligava para ele com uma pergunta premeditada, se queria alguma coisa daqui, e ele sempre respondia que fazia tempo que não tomava uma ‘Arco Íris’.”

Durante a última apresentação em Rio Preto, em maio de 2007, Paulo Moura falou com o Diário sobre o significado de voltar à cidade natal. “É uma oportunidade de vir à minha terra, encontrar amigos, alguns parentes... Isso me dá muita alegria. E tocar na minha cidade é sempre motivo de muita honra”, disse ao jornalista Igor Galante. Perguntado sobre onde gostaria de tocar se lhe fosse dada a chance de uma única e última apresentação, ele respondeu. “A última não sei. A primeira lá no céu.”

Iniciativa

O atual diretor do Procon de Rio Preto, Sérgio Parada, responsável pela última passagem profissional do músico pela cidade, inicia um movimento cultural junto com outros músicos locais para denominar o complexo da Swift de “Maestro Paulo Moura”. “Vamos tentar sensibilizar o governo municipal a fazer uma homenagem ao músico, considerado um dos principais nomes da música instrumental no Brasil.

Ele contribuiu para divulgação da nossa cidade e merece esse reconhecimento”, afirma. Parada diz que a ideia de Moura era resgatar o projeto “Rio Preto Instrumental”, iniciativa de inclusão sócio-cultural criada em 2007, que previa a realização de grandes shows instrumentais e oficinas profissionalizantes de música durante o ano. “Conversamos em maio deste ano sobre o projeto.”

Último show

Paulo Moura despediu-se de sua clarineta no último sábado, na clínica onde estava internado. A escolhida para a despedida foi “Doce de Côco”, de Jacob do Bandolim e Hermínio Bello de Carvalho. Na plateia, o parceiro Wagner Tiso, a mulher Halina Grynberh, o filho Domingos Moura, o sobrinho Gabriel Moura, a saxofonista Daniela Spielmann e alguns pacientes. O último “show” de Moura foi organizado pelo pianista americano Cliff Korman e o subsecretário de Cultura do Rio, Humberto Araújo.

Pesares

O ministro da Cultura, Juca Ferreira, lamentou a morte por meio de um comunicado. “Era um instrumentista e solista primoroso, além de compositor, arranjador e regente conhecido e admirado no mundo todo. (...) A perda de Paulo é tanto mais pungente porque ele era uma figura humana singular”. A jornalista Ivone Belem, mulher de João Donato, parceiro de Moura, disse ao Diário que ele está muito abalado com a morte do amigo e não falará sobre o assunto.

Procurado pela reportagem, o músico Yamandu Costa, que junto com Paulo Moura derrubou fronteiras entre a música brasileira e latina no álbum “El Negro del Blanco”, de 2004, afirma que o músico foi exemplo de homem que, mesmo em idadade avançada, era superinquieto com a produção artística e nunca parou de produzir. “A diferença de idade era grande, mas isso é o mais interessante, quando a gente estava no palco, não fazia diferença.”

Para Costa, o legado que Paulo Moura deixa é muito grande. “O cenário musical perde esse cara que fazia conexão entre todas as linguagens musicais e tinha liderança.” Na página oficial do músico na internet (www.paulomoura.com), é possível deixar recado à família e acessar sua biografia, discos, músicos parceiros, vídeos, fotos.

Hélio Tuzi
Trânsito entre popular e erudito

Paulo Moura nasceu no dia 15 de julho de 1932, em Rio Preto. Filho do marceneiro Pedro Gonçalves de Moura e de Cesarina Cândida de Moura, aos nove anos pediu para estudar música, incentivado pelos irmãos, também músicos. Ganhou do pai a primeira clarineta. Aos 13 anos, mudou-se para o Rio de Janeiro, onde começou a tocar em bailes como integrante da Zacharias e sua Orquestra.

Concluiu o curso de clarineta na Escola Nacional de Música, onde aprendeu também teoria musical, harmonia, regência, orquestração e arranjo, enquanto, por pedido do pai, também aprendeu o ofício de alfaiate. Foi primeiro clarinetista da Orquestra do Teatro Nacional. Regeu a Orquestra Sinfônica de Moscou. Formou uma das primeiras “jazz bands” do País, tocando saxofone além de clarineta.

Transitando entre o popular e o erudito, ele se formou nos salões de gafieira do Rio, mas também tocou com os maiores músicos da MPB. Viajou para o Japão e fez várias excursões pela Europa e os Estados Unidos. Em 2000, foi reconhecido com o Grammy, o maior prêmio da música mundial, com seu trabalho “Pixinguinha: Paulo Moura e os Batutas”.

Foi indicado novamente ao Grammy em 2008, na categoria de Melhor CD Instrumental, com “Pra cá e Pra Lá”. No ano passado, apresentou-se na Tunísia e no Equador, e lançou o CD “AfroBossaNova”. Em 60 anos de carreira, gravou 40 discos. Segundo a assessoria de imprensa da Biscoito Fino, última gravadora de Paulo Moura, o músico não estava trabalhando em um novo álbum e, por enquanto, não há a pretensão de lançar alguma obra após sua morte.

Por que ele é gigante


:: Paulo Moura lançou 40 discos em pouco mais de 50 anos de carreira, desde “Moto Perpétuo”, de 1956, pela Columbia, até “AfroBossaNova - Paulo Moura e Armadinho”, do ano passado, pela Biscoito Fino

:: Em 2000, conquistou o Grammy Latino para música de raiz com o disco “Pixinguinha: Paulo Moura e os Batutas” (Rob Digital), de 1998, e seria indicado novamente ao “Oscar da música” em2008, desta vez na categoria de melhor CDinstrumental, pelo álbum “Pra cá e pra lá - Paulo Moura trilha Jobim e Gershwin” (Biscoito Fino)

:: Além de ter participado por muitos anos da orquestra do Teatro Municipal do Rio de Janeiro, Paulo Moura tocou em alguns dos principas festivais de jazz e música instrumental do mundo, como o de Montreaux, na França

:: Sempre simpático à ideia das parcerias, Paulo Moura tocou com alguns dos principais nomes da música popular brasileira, desde Pixinguinha e Ary Barroso a Tom Jobim, Elis Regina, Dalva de Oliveira, Milton Nascimento, João Donato, Sérgio Mendes e Marisa Monte

Abaixo, confira alguns vídeos postados no site Youtube, que revelam todo o talento do músico rio-pretense Paulo Moura, que vai nos deixar muitas saudades:














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Fonte: Colaborou Ariana Pereira
 
     
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