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Garrancho tem solução
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São José do Rio Preto, 16 de Maio, 2010 - 1:50
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Letra feia pode ser superada com esforço
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Guilherme Baffi
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A professora de T.S.V., 10 anos, não conseguiu compreender as respostas de uma prova
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Letras feias e garranchos, como aqueles que tornam qualquer prova ou redação impossível de ser decifrada, têm solução. Diferentemente do que muitos pensam, a caligrafia, palavra de origem grega que quer dizer “escrita bela”, não está ligada a fatores fisiológicos ou cognitivos, como explica o neurologista Sebastião Silva. Ela depende, segundo o especialista, do esforço da pessoa. “A letra feia é uma característica da pessoa e diz muito dela. Não tem nada a ver com coordenação motora, mas, em alguns casos, pode ser relaxo ou mesmo preguiça”, diz Silva.
A psicopedagoga Samira Aparecida de Camargo é proprietária de uma central de estudos em Rio Preto e afirma que de 30% a 40% de 70 alunos que recebe mensalmente têm problemas de grafia. Diferentemente de Silva, a psicopedagoga diz que o garrancho pode estar ligado ao emocional da criança. “Pode ser um desequilíbrio. Às vezes, a criança não consegue acompanhar os amigos na escola, tem medo dos erros de ortografia e escreve rápido e feio, exatamente para que ninguém decifre esses erros.”
Ela diz ainda que o garrancho não precisa, necessariamente, estar ligado ao desleixo. “Pode haver alguma implicação pedagógica ou emocional. Até problemas de visão podem estar relacionados. Procuramos tratar o assunto com serenidade, para que as crianças não sofram problemas com isso. Mas é um problema que tem solução.” O resultado do trabalho, que alia aulas de caligrafia, ortografia e português, é satisfatório. “Em 15 dias já dá para perceber uma mudança expressiva. Mas o curso dura, em média, três meses”, diz Samira.
Para a psicopedagoga Maria Irene Maluf, especializada em educação especial, quanto mais cedo o problema na escrita for corrigido, melhor será. “Infelizmente, as escolas realmente abriram mão de aulas de caligrafia. Antes, existia grande preocupação acerca disso. As pessoas tinham de aprender a escrever de acordo com determinado padrão e a qualquer custo.”
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Thomaz Vita Neto
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Psicopedagoga Samira Camargo diz que problemas de grafia podem estar ligados a fatores emocionais
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Origem
Para Maria Irene, a disgrafia, ou garrancho, está ligada a vários fatores, sejam de origem pedagógica, emocional ou psicanalítica. “Vai desde o descuido da escola e dos pais a falta de treinos psicomotores na pré-escola e de caligrafia no ensino fundamental, ao comportamento do aluno. Por exemplo, uma pessoa ansiosa ou inibida pode ter problemas na escrita.” A postura adequada, segundo ela, também é importante. “Até mesmo a prática de esportes inadequados para crianças pode trazer prejuízos na escrita. Um ombro deslocado, uma coluna lesionada pode afetar o desenvolvimento do aluno na escola.”
O estudante D.J.R.O., 15 anos, está na sétima série do ensino fundamental e diz que já levou várias broncas de professores que não entendiam a letra dele. “Faltou pouco para eu repetir de ano de novo. Isso me tira pontos nas provas.” O menino R.A.A., 12 anos, chegou a treinar caligrafia em casa para melhorar a letra, já que a escola não oferecia a atividade. “Acho minha letra muito feia. Às vezes, nem eu entendo.” A estudante T.S.V., 10 anos, também já teve problemas na escola. “Minha professora não entendeu quase nada que escrevi em uma prova. Tive de explicar um monte de coisa. Mas ela não me prejudicou. Pelo contrário, pediu para eu tentar melhorar”. A Secretaria de Estado da Educação não informou se há nas escolas públicas da rede projetos de incentivo para a escrita legível.
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Guilherme Baffi
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Célia Teixeira vive da caligrafia: letra bonita em convites de casamento
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Vivendo da escrita
Apesar de ser uma profissão esquecida, algumas pessoas ainda vivem da caligrafia. É o caso da calígrafa Célia Teixeira, 58 anos. Com caneta de bico de pena, ela faz, dentre outros pedidos, convites de casamento, aniversário e de conferências. Para Célia, há uma despreocupação das escolas com a escrita, que substituem trabalhos feitos à mão pelos digitados no computador. “Ninguém mais tem preocupação com letra. As crianças do ensino médio fazem tudo no computador.”
Essa mudança de orientação pedagógica, conforme Célia, ocorreu depois da chegada do computador. “Antigamente, as pessoas escreviam cartas, hoje elas se correspondem por e-mail, se falam por celular. A escrita ficou de lado.” Para Célia, alguns profissionais que precisariam ter letra legível se esquecem disso. “É o caso dos médicos. Muitas vezes, o paciente chega à farmácia e é medicado errado, ou nem sequer consegue comprar o remédio, tamanha a dificuldade para ler a receita.”
Mãe escreve livro para filho
A cientista social Renata Pettengill é editora de livros e, depois de passar apuros em casa com um filho de 8 anos, publicou o livro “A história da mão que queria ter uma letra bonita”. Segundo ela, o filho Nicolas reclamava constantemente por ter a letra feia. O menino, afirma a mãe, chegava a comparar a escrita dele com a de colegas de classe e, por muitas vezes, ficou com a autoestima abalada. “Era muito triste, para mim, como mãe, vê-lo daquele jeito. Tinha dias que eu o colocava para dormir quando, já perto de pegar no sono, ele perguntava se um dia teria a letra bonita.”
Depois de algum tempo, Renata descobriu que Nicolas não conseguia atender as expectativas da professora, que reclamava o tempo todo, na frente dos colegas, da letra dele. “Expliquei a ele que a professora pedia, na verdade, não uma letra bonita, mas legível, para que outras pessoas pudessem entender o que ele escrevia.”
Renata decidiu levar o filho a uma terapeuta. No mesmo período, escreveu o livro. Ela conta que a emoção maior foi quando ela leu a prova do livro (antes de ser publicado) para o filho. “Ele entendeu, finalmente, que não existe um padrão de letra, que cada pessoa tem suas características e que ele só precisava melhorar a dele.” Hoje, o livro de Renata é usado na escola frequentada por Nicolas.
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