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São José do Rio Preto, 4 de Setembro, 2011 - 2:14
Futuros universitários não sabem escrever

Allan de Abreu e Rita Magalhães

Sergio Isso
Estudante de Rio Preto faz teste que foi aplicado pelo Diário
Alunos de Rio Preto terminam o ensino médio e iniciam a vida universitária sem saber o básico da língua pátria. Teste aplicado pelo Diário a 334 alunos de escolas estaduais, particulares e faculdades de Rio Preto revela que os estudantes desconhecem conteúdos que deveriam dominar no ensino fundamental. Escrevem textos desconexos, recheados de erros ortográficos graves, não sabem identificar sujeito e predicado nem compreender um tema simples de redação. Erros na grafia de palavras como “facio” (fácil), “dimenor” (menor de idade), “familha” (família), “encino” (ensino), “diguino” (digno), “serto” (certo), “onesta” (honesta), “imprego” (emprego) e “anafabeltos” (analfabetos) são encontrados em textos de alunos do terceiro ano do ensino médio e primeiro ano do curso de graduação.

“É impossível não ficar frustrado”, resume o professor de letras na Unesp em Rio Preto e especialista em educação Gentil de Faria. A pedido do Diário, ele e o professor de língua portuguesa do Colégio Anglo e da Universidade Paulista (Unip) Artur Ribeiro Cruz analisaram redações e os testes de português. A primeira constatação de Faria são a falta de acentuação, pontuação (há textos sem uma única vírgula ou ponto final) e erros primários de ortografia e concordância. “Os adolescentes não respeitão mais os professores e o unico que tem direito é o adolescente por isso que eles fazem o que quiser eles robam matão, traficão e usam drogas” (sic), escreve um aluno do terceiro ano do ensino médio.

Os textos revelam um vocabulário pobre, com o uso abusivo dos verbos ter, ser e poder, e o emprego de termos típicos de bate-papo na internet, como “pq” (porque) e “entaum” (então). O especialista da Unesp também observa que a maioria dos alunos não concorda o sujeito com o verbo na oração. “As crianças não pode ficar sem estudos”. Ou: “Existe alunos esforçados e inteligentes”. É comum, segundo Faria, encontrar frases sem sentido (“Foi quando as pessoas, comer ai mora nas casa”) ou longas e desconexas (“Tenho muita coisa para dizer mas isso todos que estudam sabem que não é fácil ter uma escola que não tem gosto de ir os professores nem ligam mais para os alunos”).

“Não há coerência e nem coesão de pensamento. Os alunos escrevem da mesma maneira que falam, e muitas vezes o leitor fica sem saber a informação que o aluno quer transmitir, tamanha é a confusão”, diz Faria. “O estudante pensa que produzir uma redação é apenas repetir a língua oral. Não tem noção de que a escrita envolve o domínio da língua padrão, que se consegue pela leitura”, completa Cruz. Perguntado se os alunos avaliados têm ou teriam condição de passar em um vestibular, os dois professores são categóricos: não.

W.F.O., 15 anos, aluno do ensino médio, admite dificuldade em escrever. “Quando chega a hora da redação, parece que eu travo. Não vem nada na cabeça para colocar no papel, e quando vem sei que não fica bom. Na hora de escrever, tenho dificuldade.” Na redação, o estudante critica o sistema de progressão continuada, em que os alunos só repetem de ano ao final do ciclo, na 4ª e 8ª série do ensino fundamental. “A educação no Brasil está muito ruim pois, os alunos passam de serie muito facio (fácil).”

Teste tem 18 itens

Produzido por professores de ensino médio, o teste de conhecimentos foi aplicado pelo Diário ao longo das últimas três semanas. Foram avaliados alunos do ensino médio da rede pública e particular rio-pretense, além de estudantes no primeiro ano de graduação de faculdades privadas da cidade. No total, 334 alunos participaram da prova, 85% da rede pública e 15% da particular. O teste foi produzido por professores do ensino médio e aplicado em entidades sociais, escolas e faculdades. Foram 18 questões, nove de português, quatro de matemática e cinco de geografia, história e atualidades.

Conforme combinado com as instituições, nenhum estudante será identificado na reportagem, exceto aqueles que tiveram bom desempenho. A primeira reportagem da série “Educação na UTI”, avalia o desempenho dos estudantes em português, o mais crítico do teste. Terça-feira será a vez do teste de matemática, e quarta-feira o de geografia, história e atualidades.




Para professor, escola precisa resgatar prazer da leitura

Para o professor de língua portuguesa Artur Ribeiro Cruz, a escola precisa resgatar no aluno o prazer da leitura. “Só a leitura vai dar as ferramentas para que o aluno tenha domínio da língua padrão e consiga concatenar corretamente as ideias no papel”, diz. Essa mudança, segundo ele, começa na capacitação do professor. “Se quem leciona não lê, como vai passar para os alunos essa competência?

Porque ler é sempre um ato solitário, mas que pode ser incentivado desde que o aluno perceba no professor o prazer da leitura. Hoje, no entanto, nem o docente tem incentivo à leitura por parte do poder público. Está entupido de aulas, porque ganha pouco, e a leitura se torna um luxo na vida dele.” W.F.O., 15 anos, aluno da rede pública de Rio Preto, reconhece que não gosta e não tem o hábito de ler.








Secretaria de Educação não se manifesta sobre avaliação

A Secretaria de Estado da Educação informou por meio de nota que “não comenta pesquisas e avaliações cuja metodologia desconhece”. A pasta frisou que monitora a qualidade de ensino da rede estadual a partir dos resultados do Sistema de Avaliação de Rendimento Escolar do Estado de São Paulo (Saresp), aplicados na segunda, quarta, sexta e oitava séries do ensino fundamental e na terceira série do ensino médio.

“As avaliações periódicas, aplicadas com base nas expectativas de aprendizagem determinadas pelo Currículo do Estado, utilizam procedimentos metodológicos formais e científicos cada vez mais aprimorados para coletar e sistematizar dados e produzir informações sobre o rendimento dos estudantes”, afirma por meio de nota oficial.









Guilherme Baffi
Estudante durante a prova
Ensino médio vive crise de identidade

O ensino médio vive uma crise de identidade e precisa ser reformulado, na opinião de especialistas. “O antigo colegial é um período de transição entre a educação básica e a vida universitária e profissional. Então precisa ser flexibilizado para que atenda aos anseios daqueles que pretendem cursar uma universidade e também daqueles que desejam fazer um curso profissionalizante”, diz o sociólogo César Callegari. “É preciso resgatar no jovem o prazer do estudo.”

Especialista em políticas educacionais e membro do Conselho Nacional de Educação (CNE), Callegari aponta o sistema de progressão continuada como o maior vilão dos problemas enfrentados hoje pelo ensino médio. Implantado na segunda metade dos anos 90 no Estado de São Paulo, o sistema reprova o aluno apenas no final do primeiro e segundo ciclos do ensino fundamental, 4ª e 8ª séries, respectivamente.

“Eu defendo a ideia de que não se pode deixar nenhum aluno para trás. Mas empurrar o aluno ano após ano sem se responsabilizar pelo seu aprendizado é o caos anunciado”, diz o especialista. O problema, conforme ele, deságua no ensino médio. “Precisamos fechar a torneira do desastre no momento certo, que é o fundamental.” À progressão continuada, Callegari acrescenta o despreparo do corpo docente e o material didático insuficiente.

“São profissionais desmotivados e muitas vezes despreparados, acostumados a enfrentar baixos salários e classes superlotadas, com material pedagógico de baixa qualidade.” Segundo ele, é preciso aumentar o salário da categoria e investir em programas de aperfeiçoamento profissional. “Só assim iremos atrair talentos para a carreira.”

Hamilton Pavam
Universidade enfrenta dificuldade para igualar aluno com deficiência de aprendizado aos demais, diz Artur Ribeiro Cruz


Para a Associação Nacional das Universidades Particulares (Anup), o ensino superior é vítima direta da má qualidade do ensino médio da rede pública. “A universidade corre contra o tempo para recuperar o aluno com sérias deficiências no ensino médio, mas nem sempre consegue. O resultado são maus profissionais com diplomas”, diz Raulino Tramontin, assessor técnico da entidade. “É muito complicado deixar esse aluno mal formado no mesmo patamar dos demais”, diz o professor de língua portuguesa Artur Ribeiro Cruz.

Ele nega que o processo seletivo das universidades privadas permita que alunos deficientes ingressem no ensino superior. “Metade das 3,1 milhões de vagas oferecidas pelas universidades particulares no Brasil não é preenchida por falta de interesse ou despreparo do aluno. Se apertássemos a seleção, o número de vagas ociosas aumentaria ainda mais.”






Hamilton Pavam
Estudantes durante a prova: “há dificuldade em compreender o que leem”, diz professor
Média de erros chega a 82%

A média de erros na prova de português aplicada pelo Diário atingiu 82,5%, a pior na comparação com matemática e geografia e história. Nenhum dos 334 alunos avaliados acertou todos os itens. A prova é composta de nove questões, quatro objetivas e cinco discursivas. A primeira envolvia a compreensão de um texto simples: “O povo, o povão e o povinho”, de Flávio Aguiar, tratava das variações climáticas no Brasil e da sutileza de sentido das palavras em língua portuguesa. Mas só 14,6% dos 334 alunos avaliados pelo Diário compreenderam a mensagem da narrativa, o pior índice entre as questões objetivas de português. Os demais erraram.

“É um texto mediano, que explora os sentidos da palavra povo. A questão diretamente ligada à narrativa mede a capacidade de identificar unidades de sentido e elaborar sínteses textuais”, explica o professor de língua portuguesa da Unip Artur Ribeiro Cruz. “O que se observa é que o aluno não consegue entender o que está lendo”, completa o professor da Unesp Gentil de Faria.

Se a primeira questão envolve a compreensão resumida do texto, a segunda, muito mais simples, pede exemplo do emprego do diminutivo “inho” para denotar carinho. A questão teve o maior percentual de acerto de todo o teste, 79,3%. “É um exercício muito simples, que se aprende no 6º ano do ensino fundamental”, diz Cruz. Outra questão que envolve conteúdo do ensino básico é a terceira, sobre conjugação verbal.

Apenas 22,4% dos alunos consideraram que a expressão “fazem dias frios” está incorreta. “Até o 8º ano, o aluno precisa ter o domínio da conjugação de verbos”, avalia o professor da Unip. O exercício seguinte remete às relações semânticas dos conectivos “aliás” e “pois”, presentes no texto de Flávio Aguiar. Só 23,6% dos estudantes assinalaram a alternativa correta. “O aluno erra porque só aprende na base do decoreba. Ele esquece que é o contexto que determina o sentido”, afirma Cruz.

Discursivas

De todas as questões, as com o maior índice de erro estão concentradas na quinta, discursiva, que se subdivide em cinco itens. Somente 25% conseguiram identificar o sujeito das frases “Meu pai era um velhinho engraçado. Ele passava a tarde contando histórias de sua juventude para os vizinhos”. Um aluno respondeu que os sujeitos seriam “engraçado” e “juventude”, quando o correto é “meu pai” e “ele”. Somente quatro dos 334 avaliados souberam analisar sintaticamente o verbo contar. “É um exercício que envolve análise sintática pura, de domínio pleno até o 9º ano do fundamental”, afirma o professor da Unip.

Hamilton Pavam
Somente 4 alunos souberam fazer análise sintática de verbo
‘Nada entra na minha cabeça’

E.J.C., 15 anos, aluno do primeiro ano do ensino médio da rede estadual em Rio Preto, errou todas as questões de português. “Nada entra na minha cabeça. Eu até tento prestar atenção nas aulas, e os professores são bons. Mas a bagunça é grande, não dá para prestar muita atenção”, diz. Ele afirma que tem dificuldade com gramática. “Parece tudo muito chato. São muitas regras, e quando você aprende uma, logo vem outra e aí eu me esqueço da antiga.”

T.R.O.S., também com 15 anos, falhou em todas as questões da disciplina. “A maior parte do que pede lá (no teste) eu já tinha visto em sala de aula, mas cada ano é um conteúdo diferente, a gente esquece.” Ele admite não ter prazer na leitura. “Não leio nada, só se não tiver outro jeito. Acho que isso me prejudica muito, né?”

Gramática deve vir contextualizada

O aluno tem dificuldade em interpretar textos e analisar gramaticalmente uma frase porque o ensino na rede pública é muito focado na regra descontextualizada da narrativa, segundo especialistas. “O ensino gramatical deve sempre vir associado à superestrutura textual, para que o estudante saiba a situação em que as regras se aplicam”, diz o professor de língua portuguesa Artur Ribeiro Cruz. Para o professor da Unesp Gentil de Faria, o ensino fundamental deveria reforçar o ensino da gramática e trabalhar melhor a interpretação de textos. “São habilidades relativamente simples, que devem ser dominadas logo no segundo ciclo do ensino fundamental”, afirma o especialista.





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