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São José do Rio Preto, 28 de Março, 2010 - 3:03
Alunos aprendem mais em ensino técnico

Allan de Abreu

Edvaldo Santos
Aula na Philadelpho Gouvea Neto: escola subiu 693 posições no ranking com o estudo feito pela federal de MG
Bem colocados no ranking do Enem de 2009, os colégios particulares da região despencam e perdem posições para escolas públicas técnicas quando se desconsidera o nível socioeconômico dos alunos e se analisa apenas o conhecimento que a instituição agrega ao estudante. No novo índice, a ETEC Philadelpho Gouveia Neto, de Rio Preto, sobe 693 posições no ranking e aparece em 22º no País. Já o particular Colégio São José, 338º no Enem e melhor da região, cai para 922º em valor agregado.

Esse novo ranking, denominado “valor puro da escola”, foi construído pelo especialista em educação e estatística da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) José Francisco Soares. O professor desenvolveu um indicador do nível socioeconômico dos alunos de cada escola a partir de dados como escolaridade dos pais, ocupação, renda familiar e acesso a bens de consumo. Em seguida, por meio de cálculos estatísticos, considerou apenas o conhecimento que a escola incute no aluno, desconsiderando a variável socioeconômica.

“A escola faz um esforço tremendo para ensinar alunos de realidades socioeconômicas distintas. Por isso os índices educacionais precisam distinguir esses alunos, que foi o que eu procurei fazer. Os parâmetros devem considerar aquilo que a escola agrega para o aluno, e não as qualidades que já vêm de berço. A presença de estudantes ricos mascara a qualidade do projeto pedagógico do colégio”, explica o professor.

No ranking de valor agregado, das dez escolas melhores colocadas da região, seis são públicas. Dessas, três são técnicas, integrantes do Centro Paula Souza. Embora públicas, as ETECs não disponibilizam o acesso universal aos estudantes - para ingressar em uma delas, é preciso passar por um teste de conhecimentos, chamado vestibulinho. “Pegamos os melhores alunos das escolas públicas”, diz a coordenadora do ensino médio da Philadelpho, Maria de Fátima Mari Cocenzo.

Por ano, o colégio oferece 200 vagas - para cada uma, há oito candidatos em média. 90% dos aprovados vêm de escola pública e são de classe média-baixa, de acordo com Maria de Fátima. “Se o aluno se propõe a participar de uma seleção, dá mais valor à escola. Não vem obrigado, trazido pelo pai, como muitas vezes acontece nas demais”, afirma a coordenadora.

Raiza Fernandes Bessa de Oliveira e Mariana da Rocha, ambas de 16 anos, vieram da escola estadual Justino Jerry Faria, no Alto Rio Preto, para o Philadelpho. “Meus pais não têm condição de pagar colégio particular, e aqui o ensino é bom e de graça”, diz Raiza, moradora do bairro Macedo Telles, zona oeste. “Sempre fui boa aluna. Acho que foi por isso que eu consegui entrar aqui”, afirma Mariana.

“Devido ao processo seletivo, a escola tem alunos melhores do que a média dos colégios públicos”, diz Regina Maura Adami, diretora do colégio Elias Nechar, em Catanduva, 117º no ranking de valor agregado - no Enem, ocupa a 1.585ª colocação. Por ano, são oferecidas 160 vagas. Para o especialista da UFMG, porém, a predominância das escolas técnicas nas melhores colocações é preocupante. “Na medida em que selecionam os alunos, não são escolas públicas no sentido amplo da palavra, porque o acesso não é universal.”

Particulares

A escola da região mais prejudicada no índice de valor agregado é o colégio São José. Melhor da região no Enem, cai para décimo no novo ranking. O diretor pedagógico da instituição, Jesus Martinez Piñeiro, discorda do estudo. “Há muito ‘aluno rico’ no colégio particular com desempenho fraco na escola e consequentemente no Enem”, argumenta.

Para ele, o segredo dos bons resultados no Enem é ter os melhores alunos. “A chave está na seletividade. Tanto o Centro Paula Souza como as particulares possuem um filtro na hora de aceitar alunos para estudarem nas suas escolas.” Procurado, o diretor regional do Sindicato dos Estabelecimentos de Ensino Particular do Estado de São Paulo, Antonio Carlos Tozzo, não foi localizado.

Edvaldo Santos
Mariana da Rocha e Raiza Fernandes Bessa (de óculos): elas ingressaram na Philadelpho por vestibulinho
Estudo desbanca colégios particulares

No Brasil, o ranking por valor agregado também faz com que os colégios particulares despenquem na classificação. Se na classificação do Enem tradicional as escolas privadas apareciam em nove das dez primeiras colocações, no novo ranking apenas duas particulares aparecem entre os dez primeiros: o colégio Siqueira Brito Wanderley, de São José dos Campos (SP), e o colégio Bernoulli, de Belo Horizonte.

Mídia

“A mídia valoriza muito a classificação bruta do Enem, mas queremos colocar em discussão o peso do nível socioeconômico do aluno nesse ranking, relacionado ao papel efetivo da escola”, diz José Francisco Soares, da UFMG. Neste ano, o Enem deverá ser aplicado nos dias 6 e 7 de novembro, após as eleições - o primeiro turno ocorrerá no dia 3 de outubro e o segundo, no dia 31. A data final da prova será confirmada pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep), órgão ligado ao Ministério da Educação (MEC).

“É pouco recomendável fazer o Enem entre o primeiro e o segundo turno das eleições”, disse o ministro da Educação, Fernando Haddad. No ano passado, o governo federal foi obrigado a cancelar o exame, previsto para o início de outubro, e remarcar uma nova data, em dezembro, porque a prova vazou. A data de realização da prova não agradará a todos. As universidades de São Paulo são favoráveis à aplicação do Enem o mais cedo possível, mas os demais Estados defendem que a prova seja feita depois das eleições.

Haddad voltou a afirmar que o MEC desistiu de fazer um Enem no primeiro semestre deste ano depois da descoberta de fraude no exame nacional da Ordem dos Advogados (OAB) do Brasil, em março. O ministro garantiu ainda que a sobra de vagas nas universidades federais será de cerca de 2% do total de 48 mil vagas oferecidas - ou seja, em torno de mil vagas. Pelo Sistema de Seleção Unificada (Sisu), o candidato pode usar a nota do Enem para ingresso nas universidades que adotaram o exame como vestibular.

 
     
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