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São José do Rio Preto, 20 de Novembro, 2009 - 0:41
Escola patina no ensino da cultura negra

Allan de Abreu e Helen Ventura

Guilherme Baffi
O professor de história Manoel Messias, que dá aula de cultura negra para alunos de Mirassol
Seis anos após o governo federal exigir, por lei, o ensino da cultura afro-brasileira no currículo escolar, a rede pública de ensino da região de Rio Preto ainda patina para levar o conteúdo às salas de aula. Nos quatro maiores municípios do Noroeste Paulista, cursos de capacitação sobre o assunto para os professores são raros, e apenas um criou material didático específico sobre o tema.

“Boa parte dos professores de Rio Preto sempre teve resistência em discutir esse assunto com os alunos. O que se faz hoje é abordar o preconceito contra o negro, mas isso não basta. É preciso abordar as línguas africanas, as religiões, desenvolver um olhar antropológico sobre o negro”, diz Manoel Messias, 54 anos, negro, professor de história da rede pública em Mirassol.

A cultura afro está presente com frequência nas aulas de Messias. Mas essa abordagem constante e aprofundada é exceção. Segundo a diretora do Departamento de Educação de Mirassol, Cristina Sayeg, no início de todo ano letivo os professores são orientados a abordar o preconceito contra o negro e as cotas universitárias. No entanto, ela admite que não há capacitação para os docentes sobre o tema, nem material didático.

Em Rio Preto, a situação é semelhante. Embora 59 professores tenham concluído o curso “Gênero e diversidade na escola”, que inclui as relações étnico-raciais, não há cartilha específica sobre o tema, de acordo com a secretária Telma Vieira. Para a secretária, falta envolvimento dos estudantes com o tema. “Precisamos de mais participação do aluno e da comunidade. Queremos discutir a temática. Afinal, uma vasta herança nos foi deixada pelos negros.”

A assessoria da Prefeitura de Catanduva informou que não há cursos de capacitação nem material didático específico no município que trata do tema. “Não há interesse do poder público em debater o tema de forma profunda em sala de aula. O que há são iniciativas isoladas”, critica Osnilda Grassi, coordenadora regional da Apeoesp (sindicato dos professores da rede estadual).

A exceção regional é Votuporanga, onde em 2008 a Secretaria de Educação local desenvolveu uma cartilha específica sobre a cultura do negro. “Os professores são orientados a dar um tom crítico ao tema, abordando o preconceito e ao mesmo tempo a riqueza da cultura negra”, diz a diretora do Departamento de Educação Básica de Votuporanga, Luzia Aparecida Zirundi Figueira.

O Diário solicitou informações sobre o assunto para a Prefeitura de Fernandópolis, mas não houve retorno até o fechamento desta edição. A assessoria da Secretaria de Estado da Educação informou que a cultura afro está presente nos cadernos do aluno e do professor das disciplinas de história e língua portuguesa. Segundo a assessoria, há ainda 14 livros do acervo das salas de leitura que tratam do assunto.

Oito municípios decretam feriado hoje

Apenas oito municípios da região decretaram feriado hoje, Dia da Consciência Negra. Dessas cidades, apenas Barretos é considerada de médio porte. O município comemora a data pela primeira vez neste ano. A iniciativa foi do vereador Paulo Correa.

As demais cidades são Auriflama, Guarani d’Oeste, Icém, Nipoã, Paraíso, Riolândia e Sud Mennucci. Nesses municípios, o feriado não é unanimidade nem no poder público. “Daqui a pouco fica só um feriado a mais, sem reflexão sobre a cultura negra. Esse tema ainda não é tratado da forma como merecia”, diz Sandra Valéria Muniz, secretária de Educação de Sud Mennucci, onde a data será comemorada com feriado pela segunda vez.

Data

O Dia Nacional da Consciência Negra foi instituído pelo governo Lula na data de morte de Zumbi dos Palmares, que criou o quilombo mais famoso da história do Brasil, em Alagoas, no século 17, e foi morto em 20 de novembro de 1695. Como não houve uma lei federal instituindo a data, a criação de feriado depende de leis municipais.

Em Rio Preto, onde não há feriado, a escola Zumbi dos Palmares fará hoje a exposição “Conhecendo os afrodescendentes e o continente africano”, produzida pelos alunos, além da apresentação de danças, palestras e exposição de fotografias.

Às 20h, no auditório do Senac, o Conselho Afro-Brasileiro vai entregar o “Troféu Fidelidade Aristides dos Santos” para 12 rio-pretenses que tenham contribuído para a causa negra.

Branco ganha 90,7% a mais

A remuneração média de trabalhadores brancos foi 90,7% maior que a de pretos e pardos em setembro, último dado disponível, aponta estudo do economista Marcelo Paixão baseado na Pesquisa Mensal de Emprego do IBGE, que reúne dados sobre as seis maiores regiões metropolitanas do País.

Desde o início da crise econômica global, o auge da desigualdade entre os dois grupos no mercado de trabalho tinha sido registrado em fevereiro, quando a renda dos brancos era 102% superior.

“Acho que qualquer queda de desigualdade é para ser comemorada. O que não se pode é ser exagerado no grau de otimismo, porque não vejo nos indicadores motivos para supor que esse ritmo de redução da desigualdade vá se manter nos próximos meses”, diz Paixão, professor da UFRJ, onde coordena o Laboratório de Análises Econômicas, Sociais e Estatísticas das Relações Raciais.

Formado em economia e doutor em sociologia, o professor tem algumas hipóteses para a redução registrada até setembro, um ano após o início da crise (em setembro de 2008, os brancos ganhavam 101% a mais). Uma delas é a retomada de investimentos na construção civil, que recebeu incentivos do governo. A participação dos pretos e pardos no setor é majoritária (59,9%).

Outra explicação seria a maior presença deste grupo em setores informais, em tese menos afetados pela crise. Dados da PME mostram que o peso do setor formal era de 65% entre os brancos do sexo masculino, e de 60% entre os pretos e pardos - já entre as mulheres, era de 58% (brancas) e 47% (pretas e pardas).

 
     
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