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São José do Rio Preto, 16 de Fevereiro, 2010 - 3:10
Governo corre para abrir Ferrovia Norte Sul

Liza Mirella

Thomaz Vita Neto
Eunice disse que pátio ficará a 700 metros da rodovia SP 320
O governo corre contra o tempo para iniciar as obras da Ferrovia Norte Sul (FNS), no trecho entre Ouro Verde (GO) e Estrela d´Oeste, até maio deste ano. O cronograma do projeto, divulgado no 9º balanço do Pacto de Aceleração do Crescimento (PAC), prevê a conclusão do empreendimento de 665 quilômetros em dezembro de 2012, segundo informou a Casa Civil da Presidência da República.

Antes que os canteiros de obras entrem em funcionamento, todo o processo ainda precisa percorrer algumas fases. Uma delas é a realização da audiência pública sobre a FNS em Estrela, no próximo dia 26, atendendo à convocação do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama). Antes disso, em janeiro, o órgão aprovou o Estudo de Impacto Ambiental e Relatório de Impacto Ambiental (Eia/Rima) do empreendimento.

A audiência pública faz parte do processo de licenciamento ambiental da obra. A reunião será realizada no Salão Paroquial da cidade, às 19h30 do dia 26. Toda a população do município pode participar e, quem quiser, pode retirar uma cópia do estudo na prefeitura de Estrela. A capacidade é para 740 pessoas.

Depois da audiência pública, a fase seguinte será a da emissão da Licença Prévia (LP) para a obra, o que, pelo cronograma, está previsto para ocorrer até o dia 15 de março. Em seguida, será lançado o edital de licitação de construção. Até maio, a empresa responsável por executar as obras da ferrovia será contratada e aí sim começa sua construção.

Conexão

Em Estrela d´Oeste, a ferrovia vai se encontrar com a Ferroban, operada pela América Latina Logística (ALL). O local exato ainda está sendo definido, mas a previsão é de que seja num bairro rural próximo à rodovia Euclides da Cunha (SP 320), por onde a Ferronorte já passa.

De acordo com a secretária de Administração e Planejamento de Estrela, Eunice Gomes, o pátio será construído cerca de 700 metros da rodovia para dentro da área rural, próximo ao quilômetro 665,6 da Euclides da Cunha. O local foi escolhido porque fica próximo à linha de bitola larga da ferrovia da ALL e tem condições de acessibilidade por meio da rodovia.

No pátio de Estrela, a expectativa é pela instalação de grandes empresas, como já ocorre em pátios que já estão em funcionamento, como o de Araguaína (TO), que já conta com a Granel Química, Nacional Asfalto, Frigorífico Minerva, entre outros. No local também haverá oficina para locomotiva, posto de revista de vagões, oficina de mecanização, estacionamento, área de circulação principal, entre outros. “A Bunge é uma das empresas já demonstrou interesse.”

A construção da ferrovia na região prevê a necessidade de 2,5 mil trabalhadores, que devem atuar num canteiro de obras de cerca de três alqueires. A área será destinada a escritórios, ambulatório, alojamento, cozinha industrial, etc. “O local será construído em alvenaria, para que depois possa abrigar uma escola técnica”, afirmou o deputado federal Vadão Gomes.

Topografia

Atualmente, funcionários da empresa de engenharia Ona, de Goiânia, estão em Estrela fazendo o levantamento para desapropriação das áreas. Os técnicos já percorreram 60 propriedades. “O trabalho de levantamento topográfico começou nesta semana e deve durar entre três e quatro meses”, disse o topógrafo Wescley Moreira, da Ona.
Com um aparelho de GPS geodésico, os técnicos cadastram os pontos em que vai passar a linha da ferrovia e que, portanto, vai formar seu traçado. Por dia, quatro pontos são medidos.

A equipe é formada por 12 profissionais, parte deles da própria cidade, entre secretárias, topógrafos, etc. Enquanto fazem a medição, os trabalhadores ficarão instalados em duas casas que foram alugadas pela Ona. O aumento do valor do aluguel das residências em Estrela é um reflexo da instalação da ferrovia. O que já é considerado caro para a cidade, entre R$ 350 e R$ 400 para uma casa pequena, deve dobrar. Além disso, a cidade vai precisar de mais leitos hospitalares e escola e áreas de lazer. “Nossa ideia é potencializar toda a região, não só Estrela”, disse Vadão.

2.760 quilômetros até Estrela D’Oeste

De Barcarena (PA) até Estrela d´Oeste a FNS tem 2.760 quilômetros. A ferrovia tem o papel de fazer a integração de longa distância que interligará as malhas ferroviárias do Sul e do Sudeste com a malha ferroviária do Norte (Estrada de Ferro Carajás) e do Nordeste (Companhia Ferroviária do Nordeste). A extensão da FNS em 665 quilômetros, de Ouro Verde (GO) a Estrela d´Oeste, nasceu da necessidade de baratear o custo do transporte de produtos da região, como grãos, farelo, óleo de soja, fertilizantes, álcool, açúcar, entre outros.

A ferrovia Norte Sul é a grande aposta do governo para resgatar o modal ferroviário no Brasil. A estimativa é que o escoamento da produção reduza o frete em 30% em relação ao do rodoviário. O trecho Ouro Verde/Estrela vai atravessar o sul de Goiás, a extremidade oeste de Minas Gerais e o extremo oeste de São Paulo. A maior parte da ferrovia, 60% dela, será construída em terras goianas, passando por 26 municípios. No Estado de Minas, a ferrovia passará por cinco cidades, dentre elas Iturama e Carneirinho.

Em solo paulista, serão nove municípios: Dolcinópolis, Estrela d’Oeste, Fernandópolis, Guarani d ‘Oeste, Jales, Ouroeste, Populina, Turmalina e Vitória Brasil, ao longo de 66 quilômetros. De acordo com dados da Valec, empresa pública responsável pelas obras da ferrovia, os nove municípios totalizam 136.659, numa área de 2.178 quilômetros quadrados.

Em todo esse trecho, foram levantados 34 pontos de cruzamentos da ferrovia com rodovias, desde vicinais, a estaduais e federais. Serão construídas pontes, viadutos, passagens inferiores, entre outros. Além disso, o projeto do trecho compreende a implantação de pátios, multimodais ou de intercâmbio entre ferrovias em Ouro Verde, Santa Helena, São Simão, municípios goianos e Estrela d´Oeste. A estimativa é que as obras custem R$ 2,5 bilhões, cerca de R$ 4 milhões por quilômetro de ferrovia pronta. O prazo de execução é de 30 meses.



Thomaz Vita Neto
Dono de 19 alqueires, Gonçalves disse que ainda não viu vantagens
Sentimento de otimismo paira no município

Superado o pior momento da crise vivida pelos moradores de Estrela d´Oeste, motivada pelas demissões no Grupo Estrela Alimentos, o maior empregador da cidade, um discreto sentimento de otimismo começa a pairar pela cidade. A razão para isso é a construção da Ferrovia Norte Sul (FNS), que deve atrair progresso para a região com mais emprego, aumento da renda e do consumo.

Desde novembro de 2008, a população de Estrela enfrenta os efeitos do pedido de recuperação judicial do Estela Alimentos. Mais de mil trabalhadores chegaram a ser demitidos. Um número assustador para uma cidade com quase 9 mil habitantes, dos quais 3 mil trabalhavam na empresa. Esse cenário já mudou. O processo está em andamento, o frigorífico está em pleno abate e a maior parte dos funcionários foram recontratados.

Com a volta à normalidade que impera sobre a cidade, o foco agora são as consequências que serão provocadas pela passagem dos trilhos da ferrovia em Estrela. O que mais motiva os comerciantes da cidade é a expectativa de aumento de consumo. São cerca de 120 empresas, entre bares, restaurantes, supermercados, lojas, entre outros.

Cledimar Barros, presidente da Associação Comercial, que tem 54 associados, credita que a ferrovia vai trazer mais desenvolvimento para Estrela d´Oeste. “A preocupação é em preparar o comércio para absorver o volume de trabalhadores que vai chegar aqui. Estamos estudando também como treinar equipes de vendas.”

Para o gerente do supermercado Berga I, Wilson Cesar Bergamini, a previsão é de incremento de 20% nas vendas. “São cinco supermercados na cidade. Vamos conseguir atender a todos.” A empresária Sônia Maria dos Santos, proprietária do restaurante Água na Boca, prevê mais dinheiro girando na economia local com a vinda dos trabalhadores para a cidade. “Se for possível atender a esses trabalhadores, vamos investir para ampliar o restaurante.” Atualmente, ela vende entre seis marmitas e seis refeições self service por dia.

Izabel Cristina Marino Bardell, dona da pastelaria Veneza, tem esperança de que a situação vá melhorar. Nos tempos áureos, tinha quatro empregados registrados e vendia entre 400 e 500 salgados por dia. Hoje, tem apenas um funcionário e as vendas chegam a 80 salgados. “Acredito que a vinha da ferrovia será muito boa para a cidade. Vamos voltar ao que era antes, quando nem dávamos conta de atender a tanto movimento de consumidores.”

O proprietário da casa de produtos agropecuários Campo Bom, Osmar Pinotti, também está otimista com a chegada da Norte Sul. “O comércio anda meio parado, mas acredito que a ferrovia vá movimentar a cidade, aumentar os empregos e também o consumo”, afirmou.

Produtores rurais temem desapropiações

Enquanto os comerciantes comemoram a instalação da FNS em Estrela d´Oeste, os proprietários rurais que terão suas terras cortadas pelos trilhos da estrada de ferro temem o que pode ocorrer. Uma das preocupações é a desvalorização das terras, a outra, é quanto a União vai pagar pelas áreas que serão desapropriadas no bairro rural Barrerinho/Córrego dos Macaos. Em média, essas áreas terão largura de 80 metros, mas o tamanho varia a cada caso.

O agricultor Alício Gonçalves, dono de uma propriedade com 19 alqueires próxima à rodovia Euclides da Cunha, lamenta a instalação da ferrovia. “Até agora não vi vantagens. Apenas desvantagens”, afirmou. Ele se preocupa com quanto vai receber e, principalmente, pelo fato de já ter as terras cortadas por outra ferrovia, a Ferroban. “O problema é que a terra que sobra fica desvalorizada”, disse.

Segundo Gonçalves, o trem passa entre dez e 12 vezes por dia pelo sítio, causando muito barulho e sujeira. “Se o movimento for grande, é capaz de nos mudarmos daqui”, disse. Vizinho de Gonçalves, o produtor Luiz Carlos Bissoli, dono de um sítio de quatro alqueires onde estão plantadas frutas e legumes, disse que a vinda da ferrovia será prejudicial para os produtores. “Nossa propriedade é pequena e será cortada ao meio. Depois disso, vai perder valor.” Além disso, sua preocupação é como será o acesso ao outro lado da ferrovia.

Dependendo de quanto receber, pretende comprar uma propriedade em outra área e plantar eucalipto na que restar próxima à ferrovia. O produtor Pedro Jaime Gonçalves também terá suas terras, onde cultiva laranja, cortadas. Ele prevê que a ferrovia vá passar entre 50 e 100 metros acima da sede. “A preocupação é sobre o valor da terra, sobre quanto vão nos pagar. São propriedades que vêm desde nossos avós. Se formos bem remunerados, todos ficaremos contentes.” Apesar desse temor, Gonçalves acredita que a vinda da ferrovia será benéfica. “Vai trazer emprego, movimentar a economia e valorizar nossa região”, afirmou.

 
     
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