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Comportamento
 
Chega de amargura
São José do Rio Preto, 21 de Março, 2012 - 2:10
Esquecer mágoas faz bem ao corpo e à alma

Elen Valereto

Lézio Jr.


Quem nunca se sentiu ferido por alguém que gosta? A ferida, de tão profunda, não conseguiu cicatrizar. Ficou ali, machucando ao longo de dias, meses e anos. Esse sentimento, conhecido como mágoa, afeta milhares de pessoas, causando dor e rancor. De acordo com a psicoterapeuta, master e trainer em Programação Neurolinguística, Dalva Almeida, a mágoa é uma doença, pois causa dor na alma e no corpo devido à tortura interior que tira a paz e até o sono. “A mágoa não nos deixa esquecer o passado e faz com que não consigamos viver bem o presente. Uma pesquisa feita com dezenas de vítimas de problemas cardíacos revelou que 80% dessas pessoas eram rancorosas”, afirma.

O psicólogo e psicoterapeuta Renato Dias Martino concorda. Para ele, vários problemas de saúde são estimulados por dificuldades psicológicas.“Não é novidade que inúmeras enfermidades físicas se originam de um ressentimento. Aquilo que é ressentido constantemente na mente tende a criar um representante no corpo, para ser cultivado de forma inconsciente como símbolo dessa mágoa. ”Além de se manifestar fisicamente, a mágoa pode dificultar os relacionamentos, pois incapacita o amor, paralisa a sequência da vida e deixa cada vez mais forte o ressentimento.

O perdão pode tornar-se cada vez mais difícil, principalmente pela lembrança do mal sofrido, que sempre vem à tona provocando sensação de sufoco e mal-estar intermináveis. Reviver por meio de sentimentos o que já se passou - mas não foi resolvido - é o que mantém vivas e presas no coração todas as mágoas. “E com o ferimento sempre exposto, a pessoa se mantém presa ao passado. A raiz dos transtornos mentais, como as neuroses, está justamente no desejo que ficou no passado”, afirma Martino. Viver remoendo mágoas passadas é dar abertura também para a raiva e ao posto de vítima. É transformar-se em prisioneiro de si mesmo.

A atitude de conceder o perdão ou colocar um ponto final no que aconteceu só depende de si mesmo, pois ninguém pode fazer isso pelo outro. Em alguns casos, a distância de alguém que não se vê há tempos ou já se foi pode atrapalhar o processo para se separar das mágoas. O que acontece é que essas pessoas acreditam que não podem mais ser perdoadas ou conceder o perdão. Entretanto, o simples ato de ter intenção de perdoar ou de ser perdoado condiciona para a limpeza no coração e na consciência. Segundo Dalva, a dificuldade pode estar ainda na crença de que a mágoa sempre estará presente e que não pode ser dissolvida. “O pensamento que acompanha essas pessoas é: ‘Alguém me magoou, então essa mágoa faz parte de mim para sempre’”.

Muitas vezes, a pessoa que se sente magoada cultiva tal sentimento pejorativo para manter uma certa ligação com quem a magoou. Mesmo que estranha, é uma forma de se sentir unida, e não abandonada. “Na verdade, aquele que se mantém magoado com alguém está depositando no outro uma frustração que não é capaz de suportar dentro de si mesmo. Não se acha capaz de amar e dar sustentação para esse amor”, destaca o psicoterapeuta. Um dos impedimentos mais comuns é acreditar que perdoar e mandar as mágoas embora é sinônimo de fraqueza, quando é exatamente o contrário. Descarregar o rancor é abrir caminhos para a aproximação de bons sentimentos e fortalecer o próprio destino, por mostrar que é dono de si.

É quase como o funcionamento da lei da atração, voltada aos sentimentos. Sinta o bem e terá apenas emoções positivas, afastando tudo o que não for bom. Não haverá somente mais ânimo e disposição para dar andamento a projetos, como ainda facilitará as relações sociais, limpando e revigorando a alma, antes consumida por uma vida cheia de mágoas. Mas, para isso, é preciso compreender primeiro o que causou a mágoa e se houve tal intenção. Pode acontecer de a mágoa ter sido produzida sem esse objetivo. E, mesmo que a pessoa quisesse provocar esse efeito, o magoado deve entender que a dor somente machucará a ele, portanto, deve buscar ao máximo a sua “absolvição”. “Essa é a melhor maneira de se livrar da mágoa. Saber que quem consegue fazer isso é o beneficiado”, orienta Dalva.

A busca pela conquista da paz interior e pela cura da mágoa que corrói a alma deve ser incessante. Após a decisão de mandar a mágoa para bem longe, os próximos passos a serem dados estão relacionamentos ao cultivo de bons sentimentos. “O cultivo de elementos afetivos e de conhecimentos claros da realidade é o fundamento do modelo de vínculo, capaz de desintoxicar uma mente envenenada de ideias destrutivas e emperrada nas mágoas. Daí por diante, consciente das limitações e fragilidades, é muito interessante se afastar de qualquer que seja a ligação que possa sugerir decepções drásticas”, destaca Martino.

Para o profissional, a mágoa é uma forma de funcionamento mental que encontra com frequência seus “colaboradores”. Por isso, para estar liberada das mágoas, é importante estar atento a quem provocou feridas. “Manter-se ligado a alguém assim é manter-se exposto a novas mágoas”, diz.





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