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São José do Rio Preto, 2 de Fevereiro, 2012 - 1:50
Karolyne: ‘Eu já tinha desistido de viver’

Simone Machado

Hamilton Pavam
Fátima Carvalho Soares ampara a filha Karolyne no hospital: vítima quer esquecer a tragédia
Três dias após ser retirada de um barranco em profundidade de três metros no qual ficou caída e com parte do corpo submerso em um córrego por três dias, após sofrer um grave acidente de carro na rodovia Elyeser Montenegro Magalhães, em Populina, a vendedora Karolyne Laila Soares, 19 anos, deu uma entrevista coletiva na tarde de ontem. A jovem teve alta da Unidade de Terapia Intensiva (UTI) da Santa Casa de Fernandópolis e foi transferida para o quarto onde se recupera das fraturas múltiplas que sofreu no tornozelo, fêmur e bacia esquerda.

Acompanhada da mãe, Fátima Carvalho Soares, a jovem contou com detalhes os momentos de terror que passou e revela que pensou em desistir de viver. “Falei para Deus ‘eu desisto e amanhã já não acordo mais”, diz. Segundo a mãe de Karolyne, a jovem vêm apresentando boa recuperação e na sexta-feira deverá passar por uma cirurgia para a correção nas fraturas do tornozelo. “Na noite de anteontem ela passou por uma drenagem para a retirada de líquido que foi encontrado no pulmão. Agora o próximo passo será a cirurgia”, explica. O médico Fernando Bertucci, responsável pelo caso foi procurado pelo Diário, mas na tarde de ontem ele não compareceu ao Hospital e não foi localizado.

Confira a entrevista de Karolyne na íntegra


Diário - O que você sentiu nas horas de angústia dentro do buraco?
Karolyne - Muita gente pergunta se eu senti medo, mas o que eu mais temia era perder a meu pé.

Diário - Você sentia muita dor?
Karolyne – No dia do acidente eu não sentia, mas nos dias seguintes comecei a sentir muito.

Diário - Quais artifícios você usou para tentar pedir ajuda?
Karolyne - Eu tentei subir o barranco, mas não tinha forças. Peguei um pau e amarrei uma sacolinha nele para tentar chamar a atenção e também não adiantou. Então eu gritava muito.

Diário - Antes do salvamento, você não percebeu se mais alguém passou pelo local?
Karolyne - Um dia cheguei a ver dois policiais perto, mas eu gritava e ninguém me ouvia. Até que no domingo um casal que estava próximo pedindo carona me ouviu e pediu ajuda.

Diário - Em algum momento você pensou em desistir?
Karolyne - No dia em que me salvaram eu já tinha desistido de viver. Falei para Deus ‘eu desisto e amanhã já não acordo mais’.

Diário - Nos momentos em que você ficou no buraco, o que mais passava pela sua cabeça?
Karolyne - Eu pensava muito na minha mãe, no meu irmão e na minha família. Eu pensava e chamava muito por eles. Cheguei até a ter alucinações.

Diário - Que tipo de alucinações teve?
Karolyne - Era como se eu estivesse sendo resgatada por eles. Como se minha mãe estivesse lá comigo.

Diário - O que você acha que a ajudou a sobreviver esse tempo no buraco?
Karolyne - Como eu consegui sair pelo porta-malas do carro e me arrastar até o córrego, eu conseguia beber um pouco de água. Eu também sempre carrego uma toalha comigo e eu a molhava no córrego e passava pelo corpo para que o sol não me queimasse muito.

Diário - O que você sentiu na hora em que viu que seria resgatada?
Karolyne – Foi um alívio. Senti que estava voltando para a vida.

Diário - Você considera que nasceu de novo?
Karolyne - Eu acho que sim, mas prefiro esquecer tudo o que passei. Tem gente que passa por esse tipo de situação e diz que tem duas datas de aniversário, a do nascimento e a do renascimento, mas eu prefiro não lembrar de nada e apagar esse acidente da minha memória. Estou muito feliz por estar bem.

Diário - Como foram os momentos antes do acidente?
Karolyne - Eu saí de um trabalho que estava fazendo por volta das 15 horas e fui para casa. Peguei o carro e fui visitar duas amigas, mas acabamos discutindo, eu saí de lá e fui para o clube em que meu pai trabalha, em Iturama. Lá não consegui conversar com ele porque estava ocupado. Nisso, decidi ir para a casa da minha avó. Parei em uma lanchonete para comer um lanche e mudei de ideia. Resolvi então visitar um amigo na cidade de Jales. Deixei Iturama, abasteci o carro em um posto na rodovia e depois segui por mais um tempo, e não me lembro de mais nada.

Diário - Você costumava fazer esse caminho ou era a primeira vez?
Karolyne – Eu já conhecia a estrada. Já tinha feito o trajeto outras vezes.

Diário - O acidente aconteceu porque você estava com sono e dormiu ao volante ou acredita que tenha tido algum problema de saúde?
Karolyne - Eu dormi mesmo, estava com muito sono e cansada. Eu já tive pressão baixa, mas não foi o caso.

Diário - Você estava nervosa por ter brigado com suas amigas?
Karolyne - Não. O que tivemos foi apenas uma discussão corriqueira.

Diário - Recentemente você perdeu o emprego e sofreu um aborto. A acredita que o acidente foi uma consequência?
Karolyne - Penso que uma coisa é independente da outra. Muitas coisas ruins vêm acontecendo comigo nos últimos oito meses. Larguei do meu marido porque fui traída, minha prima está grávida e diz que o filho é dele. Depois sofri um aborto e perdi o emprego.

Diário - Como está sendo o apoio dos seus familiares e amigos?
Karolyne - Tem bastante gente vindo me visitar e me ligando. Isso é muito bom. Nessas situações vemos quem realmente se importa com a gente, com quem posso ou não contar.

Diário - Seu amigo de Jales já veio visitá-la?
Karolyne - Já sim, ele esteve aqui na segunda-feira.

Diário - O casal que salvou você já esteve no hospital?
Karolyne - Eles ficaram de vir hoje (ontem). Quero muito vê-los. Vai ser muito importante para mim ter esse contato com eles.

Diário - O que você vai dizer para essas pessoas?
Karolyne - Quero agradecer muito e retribuí-los na medida em que eu puder. Ainda quero me reencontrar com os bombeiros também.

Diário - Você acha que foi Deus que colocou essas pessoas no seu caminho?
Karolyne - Com certeza foi. Eles me encontraram justamente quando eu já tinha me entregado.

Diário - Qual seu sonho?
Karolyne - Quero conseguir comprar um carro novamente, porque na hora que realizei esse sonho aconteceu o acidente. Pretendo também lutar para comprar uma casa e deixar de morar de favor, e ter o medo de ser despejada a qualquer momento. Também quero estudar, pretendo fazer faculdade de agronomia.

O acidente

Karolyne trafegava pela rodovia Elyeser Montenegro Magalhães, em Populina, por volta das 20h30 de quinta-feira, quando perdeu o controle do veículo. O carro capotou e caiu em um barranco de três metros de altura, ao lado da estrada. Sem conseguir se locomover, a jovem passou três dias com parte do corpo dentro de um córrego à espera de socorro. Sem comida e sem água potável, bebeu água da chuva, o que - segundo médicos - foi o que salvou a vida da jovem.

Karolyne foi encontrada por um casal de namorados, que passava pelo local e ouviu os gritos da jovem apenas às 19h30 do domingo. O casal chamou o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu), que encontrou a jovem com água até a altura da cintura e com a cabeça apoiada em um notebook. Como o local onde a jovem caiu era de difícil acesso, e a equipe do Samu não tinha equipamento necessário para o salvamento, o Corpo de Bombeiros foi acionado para fazer o resgate. A jovem foi içada até a rodovia e levada até a Santa Casa de Fernandópolis.

Apoio familiar faz a diferença

Quem passa por situações extremas, como no caso da jovem Karolyne, que ficou por 72 horas em um buraco após acidente de carro, pode desenvolver estresse pós-traumático. A doença pode se manifestar nos dias seguintes ou até anos depois, aos poucos. “Não são todos que desenvolvem o estresse pós-traumático, mas quem desenvolve pode ter pesadelos, flashback ou alucinação com o evento. Passa a evitar pessoas ou locais relacionados ao acontecimento traumático, insônia, surtos de raiva, entre outros, que devem ser tratados com psicólogo e psiquiatra”, afirma a psicóloga Gisele Lelis Vilela de Oliveira, de Rio Preto.

Como os sintomas podem aparecer muito tempo depois da situação que desencadeou o problema, é importante que a família fique atenta. “Muitas vezes, a pessoa fala normalmente sobre o evento durante sua recuperação e até meses depois. Mas aos poucos vai evitando falar sobre o assunto. Isso é um dos sinais de que a doença pode estar se manifestando”, afirma a especialista.


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Fonte: Colaborou Maria Stella Calças
 
     
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