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São José do Rio Preto, 2 de Maio, 2010 - 1:47
Rio Preto registra média de seis ataques de cão por dia

Graziela Delalibera

Rubens Cardia
Júlio César Feitosa usa itens de segurança ao saircom seus rottweilers
Todos os dias, seis pessoas, em média, são atacadas por cães em Rio Preto. O número tem como base levantamento da Secretaria Municipal de Saúde sobre notificações de atendimentos em unidades de saúde de Rio Preto. A maioria das vítimas são adultos, dos 20 aos 59 anos. Essa faixa etária representa 44,8% notificações. Entre 2008 e 2009 foram registradas 4.185 ocorrências envolvendo cães. Desse total, 25,2% das vítimas são crianças. “Um animal como o pit bull não sinaliza que vai atacar, ele simplesmente ataca. Se ele vê uma criança passando, pode entender que é uma presa, uma caça”, diz o veterinário e professor do curso de medicina veterinário da Unirp, Daniel Dartoli de Sousa.

Os números da Secretaria de Saúde mostram que entre as crianças atacadas, 13,2% tinham entre 5 e 9 anos. Crianças entre até 4 anos somaram 12% dos atendimentos. No último dia 6, um menino de 7 anos foi atacado por um cachorro em Estrela d’Oeste, região de Fernandópolis. Solto na rua, a menos de 100 metros da casa do menino, o cão - uma mistura de pit bull com outras raças - atacou o garoto nas duas pernas. Foram necessários 100 pontos para fechar um dos ferimentos, na perna esquerda da criança. Adolescentes entre 10 e 19 anos representam 15,5% do total de vítimas de cães em Rio Preto. Pelo levantamento, idosos a partir dos 60 anos respondem por 14,47% das notificações.

A orientação dos médicos é para que logo após o ataque do animal, a vítima procure uma unidade de saúde para ser atendida e medicada. “No momento do atendimento deve ser informado o tipo do animal agressor, se é doméstico ou de rua”, diz a enfermeira da Vigilância Epidemiológica Liliane Daguer, responsável pelas notificações de atendimentos antirrábicos. O procedimento para determinar o tipo de notificação, chamado de avaliação antirrábica, deve especificar ainda se o paciente foi alvo de uma mordida, arranhadura ou lambedura.

Legislação

Uma lei estadual determina que cães de quatro raças ferozes (mastim napolitano, pit bull, rottweiller e american stafforshire terrier) sejam conduzidos em vias públicas com o uso de coleira, guia curta, enforcador e, em alguns casos, focinheira. Parte dos donos desses animais em Rio Preto reluta em cumprir a obrigação. O universitário Rafael Pereira de Brito, 26, tem focinheira em casa mas dificilmente a coloca em sua pit bull de 9 anos. Isso porque raramente o animal sai para passear. “O instinto dele é de defender o dono. Se vê um outro cachorro já arma posição de ataque.”

A lei estadual prevê o pagamento de multa no valor de R$ 164,20 para quem for flagrado infrigindo as regras. Responsável pela autuação do proprietário caso a lei seja desrespeitada, a Vigilância Sanitária não aplicou nenhuma multa entre 2008 e 2009. “No caso de flagrante de animal de grande porte, a autoridade policial deve ser acionada, conforme prevê a legislação”, diz a coordenadora do departamento, Danielle Dantas.

Rubens Cardia
Rafael evita sair com sua pit bull para passear,mesmo com focinheira
Cachorro requer treinamento

Por ser considerado um cão atleta, o pit bull precisa de treinamento e espaço. “Caso contrário, ele pode se tornar um animal estressado, que no futuro dará trabalho ao dono”, diz o adestrador Saulo Henrique Xavier, que atua há 15 anos na função. No caso dessa raça, ele destaca a característica de liderança.

Por isso, é essencial que haja um treinamento correto para que o animal aprenda a se sujeitar às ordens do dono. “O cão de guarda ideal para a família é o pastor alemão. Além de ser companheiro, ele guarda a casa e gosta de criança.”, diz. De acordo com Xavier, qualquer cão, mesmo que seja adestrado, não deve ser solto na rua sem os equipamentos de segurança. “Sempre há risco. Estamos falando de um animal irracional”, afirma.

Etapas

O treinamento de cães é dividido em fases. A primeira é a de obediência, quando o animal aprende a reconhecer ordens para sentar e deitar, por exemplo. A segunda é o treinamento de guarda. Nesta fase o animal aprende a defender a casa e o dono. “Depois de pronto, ele não vai atacar, apenas com o comando do dono”, diz o adestrador. O ideal é iniciar o treinamento a partir dos seis meses de vida do animal. O custo mensal gira em torno de R$ 250 por mês, em média.

Quem decidiu fazer o investimento foi o corretor de imóveis Júlio César Feitosa, 37 anos. Ele tem um casal de rottweiller e tem o hábito de passear com os animais nos fins de tarde. Como prevê a lei, ele usa guia curta e enforcador. Mesmo assim, fala que tem medo quando os cães encontram animais da raça pit bull. “Geralmente eu desvio ou ando mais rápido, não dá para confiar.”

Donos ignoram segurança

Para a criadora e consultora de raças Tíndara Homsi faltam informação aos proprietários de cães ferozes em relação aos aparatos de segurança. Além disso, na opinião dela, Rio Preto não oferece um local para que esses animais possam circular com seus donos. Ela e o marido optaram por não criar animais da raça pit bull por causa das características agressivas.

“O que acontece é que a maioria dos donos pensa que tem um cão que é um doce, sociável e com um nível de agressividade baixo. Mas os fatos demonstram que numa eventualidade, eles atacam”, afirma ela, que acredita que muitos proprietários estão despreparados para lidar com seus cães de guarda.

A consultora de raças afirma que é possível habituar um cão ao uso da focinheira, desde que isso seja feito com paciência pelo proprietário. O ideal é começar usando dentro de casa, antes de sair à rua. “É preciso estar preparado para criar a raça escolhida e evitar a doação.”
Segundo o Centro de Controle de Zoonoses (CCZ), em média, um cão agressivo, principalmente da raça pit bull, é apreendido a cada 15 dias.

“O destino de um cão, feroz ou não, é dever do proprietário. Ele é o responsável pelos possíveis danos proporcionados pelos animais”, afirma Luís Flávio Vani do Amaral, veterinário e coordenador do CCZ. O Centro de Zoonoses recolhe animais agressivos ou em estágio terminal de doença mediante solicitação dos moradores. Se o CCZ estiver fechado, os bombeiros devem ser acionados.

Ferdinando Ramos
Yone Cocenzo, da Associação Rio-pretense de Proteção aos Animais, é favorável à criação da lei
Projeto de lei prevê eliminação de 17 raças

Tramita em fase final no Congresso um projeto de lei que prevê que proprietários e criadores de cães de guarda de 17 raças consideradas perigosas respondam civil e criminalmente pelos danos causados pelos animais. O projeto também veda a circulação das raças em locais públicos sem coleira, corrente e uso de focinheira. O objetivo também é proibir a reprodução de cães da raça pit bull. Para isso, os machos deverão ser castrados, um ano após a lei entrar em vigor.

O projeto é de autoria do senador Valter Pereira (PMDB-MS) e aguarda votação na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ). Aqueles que desrespeitarem a lei serão enquadrados no crime de exposição da vida de outrem a perigo direto ou iminente, previsto no Código Penal. A pena é de três meses a um ano de prisão.

Se o animal for usado para a prática de crimes dolosos (com intenção) a pena será aumentada. Além de ter o cão apreendido, quem circular com o bicho de forma inadequada pagará multa de R$ 100. No caso de o cachorro atacar e isso resultar em morte ou lesão corporal, o proprietário responderá pelo crime de homicídio culposo, com pena de seis a 20 anos de prisão.

As raças consideradas perigosas pelo texto são rottweiler, fila, pastor alemão, mastim, doberman, pit bull, schnauzer gigante, akita, boxer, bullmastif, cane corso, dogue argentino, dogue de bordeuax, grande pirineus, komador, kuracz e mastiff. A responsabilidade pela apreensão dos animais e fiscalização da lei ficará a cargo dos municípios.

“A imprensa brasileira tem noticiado a ocorrência não apenas de acidentes, como também a utilização desses cães como verdadeiras armas por gangues de rua. Esses fatos impõem reflexão e exigem uma pronta resposta dos poderes públicos”, diz o senador em sua justificativa. De acordo com o parlamentar, os cães da raça pit bull criados por pessoas despreparadas apresentam “um potencial de periculosidade que não pode ser subestimado”.

Perigo

Favorável à penalização do dono prevista no projeto de lei, Yone Cocenzo, membro da Associação Rio-pretense de Proteção aos Animais (Arpa), avalia que a desvalorização da raça pit bull no mercado tem potencializado os riscos de ataques, uma vez que esses animais podem cair em mãos de pessoas sem condições de mantê-los e que desconhecem o perigo. “Muitas vezes os animais ficam confinados, são mal alimentados, comem restos de comida, acabam ficando estressados e atacam a própria família”, afirma ela.

A criadora e consultora de raças Tíndara Homsi também aprova sanções contra os responsáveis. “A sociedade não comporta mais um animal desses. O pit bull foi criado a partir da seleção de cães que se apresentavam altamente agressivos para função de rinhas. Não podemos nos esquecer disso.” O veterinário Daniel Dartoli de Sousa explica que geralmente o cão da raça pit bull possui um limite de dor altíssimo. “Eles não reconhecem sinais de rendição de outro animal, por exemplo, e continuam atacando até a morte.”

Vítimas incluem criança e idoso

Ataques de cães ferozes são cada vez mais comuns em Rio Preto e região. O mais recente caso registrado foi contra um menino de 7 anos de Estrela d’Oeste, que levou 100 pontos para fechar um dos ferimentos na perna provocados por cão, misturado com a raça pit bull, solto na rua. O garoto ficou quatro dias internado na Santa Casa de Fernandópolis, está em casa e passa bem.

“O cão só largou a criança quando outras pessoas chegaram perto. A sorte foi que na hora minha mulher tinha acabado de chegar do trabalho e estava estacionando o carro. Ela levou o menino para a unidade de saúde”, diz o dentista Paulo Parisi, 47 anos, que mora com a família em frente à casa do garoto.

Outro ataque envolvendo pit bull ocorreu no dia 11 de novembro do ano passado, no Parque da Cidadania, região norte de Rio Preto. Um menino de 5 anos foi mordido no rosto e na testa. Quando passava pela calçada, o cachorro avançou por uma abertura na parede de aproximadamente 30 centímetros quadrados, pela qual o cachorro consegue colocar a cabeça para fora. No mesmo dia, em Barretos, uma mulher foi atacada por outro pit bull. Ela passeava com um labrador. Dona e animal ficaram feridos.

Um dos casos mais chocantes, no entanto, se refere à raça boxer. É o da aposentada Geni Guerra Guareschi, 70 anos, encontrada na noite do dia 21 de junho de 2007 com parte do rosto desfigurada e diversos ferimentos pelo corpo no quintal da casa onde morava, na área central de Cedral. Geni teria sido atacada pelo cão da família, uma cadela da raça boxer com aproximadamente cinco anos de idade.


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