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Fora dos trilhos
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São José do Rio Preto, 28 de Fevereiro, 2010 - 3:03
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Estações da linha férrea sofrem efeitos do abandono
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Sérgio Menezes
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Antiga estação da Estrada de Ferro Araraquara, a Araraquarense, em Cedral: espaço “multiuso”, que tornou-se moradia, abriga canil, lavanderia e churrasqueira
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Os trilhos do trem são o quintal. A plataforma virou espaço multiuso, com canil, lavanderia e churrasqueira. A marquise do imóvel, inaugurado em 1950, faz as vezes da entrada principal da casa. Esse é o retrato de uma antiga estação ferroviária desativada de Cedral. Um pedaço da história da cidade, que virou moradia de pessoas que invadiram o prédio há vários anos. Assim como lá, o descaso predomina em boa parte das estações ferroviárias da região, que receberam os trilhos da Estrada de Ferro de Araraquara (EFA), a popular Araraquarense, ferrovia que teve o primeiro trecho aberto em 1898 (entre Araraquara e Matão), e que chegou a Rio Preto em 1912.
O Diário percorreu cinco estações desativadas na região. Além da de Cedral, a do distrito de Engenheiro Schmitt virou moradia, em Bálsamo, instalou-se uma fábrica de produtos agropecuários, e em Mirassol, no prédio parcialmente abandonado, há uma floricultura. Todos esses imóveis pertencem à Secretaria de Patrimônio da União (SPU), ligada ao Ministério do Planejamento. A de Uchôa, que depois de anos de depredação recebeu no final de 2008 a Biblioteca Municipal, é a única gerenciada pelo município.
“Esses edifícios são marcos históricos para as cidades e têm grande importância como memória urbana e de transporte”, diz o professor de história da arquitetura da Unesp, Nilson Ghirardello. Para ele, a solução mais viável é que esses imóveis sejam gerenciados pelas prefeituras e se tornem de interesse público. O superintendente substituto da Secretaria de Patrimônio da União (SPU) no Estado de São Paulo, Rafael Bischof, reconhece que existe abandono, mas observa que a União assumiu prédios que ficaram anos “no limbo”, que sequer conhece e que agora estão sendo inventariados.
O superintendente afirma que há interesse da União em repassar os prédios às prefeituras e que já foram firmados 40 termos de posse de imóveis com municípios. “Temos pedido apoio de prefeituras para que façam a manutenção dos imóveis e não os deixem ruir.” A lei 11.483, de 2007, transferiu todos os bens imóveis da extinta Rede Ferroviária Federal S.A. (RFFSA) à União. A mesma lei prevê que a União, por meio do Ministério do Planejamento, pode formalizar termos de entrega ou cessão provisórios de bens imóveis aos municípios.
Segundo dados coletados pelo especialista Ralph Mennucci Giesbrecht, da Associação Brasileira de Preservação Ferroviária (ABPF), que mantém o site Estações Ferroviárias do Brasil, das 25 estações da linha férrea localizadas entre Pindorama e Rubineia, quatro foram invadidas e viraram moradias, outras cinco estão abandonadas, duas abrigam fábricas, uma tem oficina de móveis e outra floricultura.
Decadência
A decadência das ferrovias teve início com o final da Segunda Guerra Mundial e foi acelerada pela falta de investimentos - que afastou as cargas para as rodovias que começavam a ser construídas e asfaltadas, como a Washington Luís (SP-310), por exemplo. A partir daí, a Araraquarense foi englobada pela Companhia Paulista de Estradas de Ferro, estatizada em 1961 pelo governo estadual, e em 1971 pela Fepasa. “O transporte de passageiros, que nunca foi a parte mais lucrativa das ferrovias, foi aos poucos sendo abandonado.
As estações foram sendo fechadas aos poucos, transformando-se apenas em paradas de embarque e desembarque, sem infraestrutura”, diz Giesbrecht. “As poucas que sobraram abertas fecharam em 1998 já em condições de semi-abandono, pois mesmo as cargas foram escasseando devido ao desinteresse do governo do Estado pelas ferrovias.”
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Sérgio Menezes
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Fábrica de produtos agropecuários ocupa espaço na antiga estação ferroviária de Bálsamo
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Biblioteca salva local do total abandono
Quem chega na estação ferroviária de Uchôa, inaugurada em 1911, é recebido por uma simpática senhora de cabelos grisalhos, Maria Dolores Merloti Hidalgo, 65 anos. É ela quem cuida da biblioteca municipal que foi instalada no prédio e ocupa um dos cômodos. “Ficou abandonado muito tempo. Uma pena. O pessoal entrava aqui para roubar. Levaram várias peças de bronze, inclusive uma campainha que avisava quando o trem partia de Catiguá.” Ela mostra o saguão, onde ficavam as bilheterias e afirma que a prefeitura precisou fechar a passagem até a plataforma por causa das crianças que agora frequentam o local. Na parte externa, ainda há o que fazer. O mato prevalece por toda a plataforma e há vestígios de usuários de drogas.
No distrito de Engenheiro Schmitt, outra Maria recepciona o Diário. Dessa vez é a manicure Maria de Lourdes Ferreira Conceição, 48 anos. Ela passou a maior parte de sua vida bem longe dos trilhos, mas há 10 anos seu endereço residencial é na velha estação de Schmitt. Ela veio de Paulo Afonso (BA) para morar com o marido e quando chegou foi instalada por ele no prédio. “Antes ele tinha me falado que a gente ia morar perto dos trilhos, mas só descobri que era dentro de uma estação quando cheguei aqui.” O casal ficou seis anos juntos, depois José Ivanildo foi embora. Maria continua no local com seus filhos Irlânia, 26 anos, e Anderlânio, 23 anos, o genro Tiago, 25 anos, e o neto Iago, 4 anos. “Se a gente não tivesse aqui para cuidar, isso aqui já estava tudo destruído.”
A Prefeitura de Uchôa, que tem termo de cessão de uso com a SPU, informou que pretende revitalizar a área externa da estação ainda nesse semestre. Em Rio Preto, o secretário de Desenvolvimento, Carlos de Arnaldo, disse que a prefeitura transferirá a família de Maria para um imóvel da Empresa Municipal de Construções Populares (Emcop). Segundo ele, um laudo da Defesa Civil apontou que o prédio ameaça ruir. Entre as estações de Schmitt e Rio Preto foi planejado, na gestão de Edinho Araújo, o trajeto do Trem Caipira, projeto financiado pelo Ministério do Turismo que ainda não saiu do papel.
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Sérgio Menezes
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Ferroviário aposentado João Fernandes, 96 anos: 30 anos na EFA
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De sinônimo de progresso até a decadência
Segundo o especialista Ralph Mennucci Giesbrecht, quando foram lançados os trilhos entre Araraquara e Matão, em 1898, a intenção era alcançar o mais rápido possível Rio Preto, um entreposto de mercadorias vindas do território mineiro e acessado apenas por estradas muito ruins, que partiam justamente da região de Araraquara e de Jaboticabal. A ferrovia chegou a Rio Preto em 1912. “Até 1933, quando se abriu o primeiro e curto trecho além dela, até Mirassol, a cidade cresceu muito, dispondo de um meio de transporte bom, com transporte decente para o porto de Santos: a própria ferrovia”.
De 1933, quando foi aberto o trecho até Mirassol, até 1962, quando a ferrovia chegou às barrancas do rio Paraná em Santa Fé do Sul, a ferrovia foi construída em terreno não exatamente virgem. “As cidades já se planejavam antes da ferrovia chegar, pois tinham em mãos os planos de construção divulgado pelo governo do Estado.” Uma delas, por exemplo, é Votuporanga. Quando a ferrovia conseguiu chegar ao Mato Grosso, no final do século 20, já o foi com a Ferronorte, sua continuação, e já sem o transporte de passageiros. “O último trem de passageiros da EFA foi o trem que chegou a Rio Preto em 14 de março de 2001, de responsabilidade da Ferroban.”
Memórias
“Da estação de Araraquara até Presidente Vargas conhecia tudo, como a palma da mão.” Sentado no sofá da sala, o ferroviário aposentado João Fernandes, 96 anos, penteia os cabelos grisalhos enquanto fala do passado. Ele trabalhou cerca de 30 anos na Estrada de Ferro Araraquara (EFA), época da qual ainda sente saudades. Lá entrou como servente e chegou a mestre de obras, na área de manutenção. “Trabalhava de sol a sol. As únicas vezes que eu faltei foram quando meu pai morreu e depois na missa de sétimo dia.” Hoje, o ferroviário vive com a mulher, Mariana, 65 anos, numa casa perto da antiga estação de Uchôa.
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Sérgio Menezes
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João de Matos diz que local, antes, era ponto de droga e prostituição
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‘Isso tinha virado ponto de droga’
“Estava tudo abandonado. Isso aqui tinha virado ponto de droga e prostituição. Era um horror”, diz o empresário João Ferreira de Matos, 60 anos. É ele quem cuida há 15 anos da antiga estação ferroviária de Bálsamo. É lá que ele mantém seu negócio: uma fábrica de produtos agropecuários. Matos mostra o prédio e se orgulha do que fez. Cercou o imóvel inaugurado em 1941 com alambrado e plantou pés de nim (planta nativa da Índia cujas sementes têm aplicações nas indústrias de cosméticos e farmacêutica) na área externa. “Se eu não tivesse assumido isso aqui estava tudo arrebentado. Agora até guarda eu pago.”
Um de seus funcionários, Brasileu Fenício do Nascimento, 59 anos, passa com a carriola carregada de produto. “Já estou tão acostumado que quando o trem passa nem percebo mais.” Matos, o patrão, fala que tem saudade da época em que a estação funcionava. “Já andei muito de trem, indo para São Paulo.” Nascimento não fica atrás. “Já apiei muito nessa estação.”
A viagem continua e a reportagem chega a estação ferroviária de Mirassol, inaugurada em 1933. Lá, uma floricultura tomou conta de parte do espaço há alguns anos e outra parte está abandonada, inclusive com marcas de incêndio. O aposentado Sebastião da Silva, 88 anos, passa em frente ao prédio e sente nostalgia. “Agora quando ouço o apito do trem lembro da época em que essa estação era movimentada. Sinto saudade quando vejo isso tudo parado.”
A próxima parada é Cedral – a segunda estação de trem que a cidade teve, inaugurada em 1950, depois que os trilhos foram desviados. A estrada é de terra. A equipe é recebida por alguns cachorros vira-latas. Uma Brasília branca estacionada também indica sinal de moradores. Há uma garagem de madeira improvisada, brinquedos espalhados pelo terreno. Na plataforma, varal com roupas penduradas, churrasqueira, mais cachorros, dessa vez filhotes. Pela grade é possível ver alguns móveis no antigo saguão. Um homem abre uma porta, vê a reportagem, mas se nega a falar. “Lá é muita bagunça. Mas a gente não pode fazer nada, tem que conviver com isso”, diz um vizinho.
A estação mais antiga de Cedral, de 1912, foi transformada nas sedes da Câmara e da Prefeitura. A reportagem não localizou os prefeitos de Cedral, José Luis Pedrão, e o de Bálsamo, José Soler Pantano, para falar a respeito das estações. Em Mirassol, o diretor de Cultura, Alaor Ignácio, disse que há um projeto para transformar a estação em centro cultural e que a prefeitura encaminhou a documentação para a Secretaria de Patrimônio da União. Sobre a floricultura, não teve dúvidas: “ela vai ter que sair”.
>> Clique aqui situação das estações da região
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Christian Marouelli Restivo
postado em
28/02/2010
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Infelizmente o Brasil caminha em sentido oposto ao dos países desenvolvidos. Enquanto nestes países o trem representa uma solução moderna, rápida e eficiente para o transporte de cargas e de passageiros, inclusive tirando passageiros do transporte aéreo devido ao conforto e comodidade, no Brasil os sucessivos governos deixaram as ferrovias sucatearem, beneficiando assim a nascente indústria automobilística nos anos 50, que tinha interesse no transporte rodoviário. Com o passar dos anos, a rede ferroviária foi deixada de lado, o governo passou a subsidiar o preço do óleo diesel para o transporte rodoviário, e as rodovias aos poucos começaram a esfarelar, devido ao excesso de tráfego pesado e falta de manutenção e investimento. Hoje as ferrovias não funcionam, e as rodovias se encontram em estado precário. Com isso, cada vez mais os caminhões enfrentam problemas mecânicos e gastam cada vez mais combustível, encarecendo assim o frete dos produtos. Quem paga essa conta?? Isso mesmo, você, eu e a população em geral...
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