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São José do Rio Preto, 17 de Janeiro, 2010 - 1:30
Agressão contra idosos dobra em Rio Preto

Hélton Souza

Guilherme Baffi
Agredida pelo marido de uma das netas, Aide Severino Gronow, 92 anos, teve a clavícula quebrada e ferimentos nas pernas, pés e braços
A violência contra pessoas com mais de 60 anos praticamente dobrou nos últimos seis anos em Rio Preto. Segundo dados do Centro de Referência Especializado da Assistência Social (Creas), em 2004 foram registradas 85 denúncias de maus-tratos, negligência, abandono, violência física, verbal, psicológica e até sexual. No ano passado, esse número saltou para 160. O crescimento de denúncias também foi notado na Delegacia de Proteção ao Idoso, que registrou 363 boletins de ocorrência no ano passado, 154 a mais do que 2008.

A aposentada S.S.V.T., 63 anos, faz parte das estatísticas. Durante sete meses ela foi agredida pelo ex-marido. “Ele chegava em casa bêbado, me agredia com palavrões e até chegou a me bater.” Depois que procurou a Delegacia do Idoso, ela conta que se sentiu segura para se separar e recomeçar a viver. “Hoje posso afirmar que tenho uma vida tranquila e terei uma velhice em paz.”

Expectativa de vida

Para a secretária de Assistência Social de Rio Preto, Ivani Vaz de Lima, o crescimento da violência contra os idosos está relacionado ao aumento da expectativa de vida do rio-pretense. Segundo a Fundação Seade, a estimativa é de que este ano a população idosa em Rio Preto seja de 55.872, de um total de 425.261 habitantes. Em 2020, os idosos devem somar 83.950 de um total de 464.033 moradores.

Ivani afirma que a cidade precisa preparar, com infraestrutura adequada, projetos e atividades para proporcionar melhor qualidade de vida à terceira idade. Teremos uma cidade com mais pessoas velhas vivendo por mais tempo”. “O aumento dos números relacionados à violência contra as pessoas idosas também é reflexo da consolidação de um trabalho realizado pelas equipes da área social. As pessoas se sentem mais seguras para denunciar os crimes”, afirma Janaina Simão, diretora da Divisão de Proteção Social Especial em Rio Preto.

Sofrimento

Em agosto do ano passado, a aposentada Aide Severino Gronow, 92 anos, teve a clavícula quebrada e ferimentos nos pés, pernas, mãos e braços ao ser agredida pelo marido de uma das netas, o encanador A.T.R., 51 anos. Cinco meses depois, ela ainda sente as dores e guarda na memória o sofrimento.

“Ele me pegou pela cintura, me arrastou até o quintal, me bateu e me xingou muito.” Mesmo com a violência física e verbal, Aide diz que não tem raiva de A.T.L. e o perdoa. Na época, o encanador ficou um mês atrás das grades e depois ganhou liberdade. “Ele já pagou pelo erro. Não tenho revolta nem quero mal para ele.”

Município se prepara para ‘era idosa’

Com a expectativa de que a cada ano o número de idosos aumente em Rio Preto, a Secretaria de Assistência Social, em parcerias com outras secretarias municipais, está montando uma rede de atendimento especial para a terceira idade. O objetivo é proporcionar qualidade de vida e evitar que os velhos sejam vítimas de violência.

A diretora da Divisão de Proteção Social Especial, Janaina Simão, conta que há uma relação de ajuda entre as entidades e órgãos municipais. Hoje, por exemplo, quando um idoso passa por uma Unidade Básica de Saúde (UBS) de Rio Preto e o funcionário identifica que ele está machucado, com a suspeita de ter sido alvo de violência, é preenchido um cadastro remetido ao Centro de Referência Especializado da Assistência Social (Creas), que acompanha o caso e dá auxílio à vítima.

Desde 2007 também houve uma expansão das vagas em asilos e casas de repouso na cidade, passando de 20 solicitações para 116 no ano passado. “O abrigamento no asilo é o último recurso. Antes da internação fazemos um acompanhamento com a família, para evitar que esse laço seja destituído”, conta a secretária de Assistência Social, Ivani Vaz de Lima.

Profissionais do Centro de Referência da Assistência Social (Cras) também visitam moradores e fazem um acompanhamento com familiares. “Realizamos atividades que incorporem os idosos na comunidade, bailes, tudo para que eles se sintam importantes e mostrem sua capacidade frente à sociedade”, disse Cristina Romanellim, diretora da Atenção Básica.



Guilherme Baffi
Antonia procurou a polícia por não suportar mais as agressões do filho
Parentes de idosos são os que mais agridem

Filhos, genros, noras e até mesmo netos são responsáveis por 90% das agressões cometidas contra os idosos em Rio Preto. Segundo o delegado Osmar Ribeiro Santos, da Delegacia de Proteção ao Idoso, mesmo que haja denúncias, a polícia tem dificuldade em investigar os casos justamente por se tratar de uma violência que acontece a quatro paredes, dentro de casa.

Em 2008, quando a delegacia completou um ano de funcionamento em Rio Preto, foram registrados 209 boletins de ocorrência. No ano passado houve um crescimento de 73,6%, passando para 363 registros. “Isso preocupa porque mostra a realidade. A sociedade é violenta contra os idosos, que muitas vezes não procuram a polícia para denunciar e, com isso, o problema persiste em muitas casas.”

Medo

O delegado conta que, pelo fato de a grande maioria das agressões ser praticadas por familiares, as vítimas nem sempre querem dar continuidade nas denúncias e preferem arquivar os boletins registrados. Prova disso é que, de 363 registros, apenas 41 se tornaram inquéritos, segundo ele. “Não temos como obrigar a pessoa a ir adiante. Por medo ou até mesmo para evitar comentários na família, o caso fica parado.”

Tijolada

No último dia 5, o aposentado G.R.S., 64 anos, foi agredido pelo filho de 27 anos na Estância Santa Clara, zona leste de Rio Preto. G.R.S. não aceitou que o rapaz vendesse droga em sua casa. F.R.S. atacou o pai usando um tijolo, além de chutes e socos. A vítima procurou a polícia, registrou boletim de ocorrência, mas não representou contra o filho. “Foi grave o que aconteceu, então liguei pessoalmente para ele e pedi a autorização para abrir inquérito e investigar a agressão, mas o pai preferiu deixar quieto”, conta o delegado.

Segundo Santos, o que mais preocupa é a violência doméstica contra as idosas. “Por causa disso tenho solicitado muitas medidas protetivas no Ministério Público, porque as pessoas precisam entender que existe lei.”

No limite

A aposentada Antonia (nome fictício), 65 anos, procurou a polícia no último dia 6 depois de não suportar mais as agressões verbais do filho de 40 anos. Com o fim do casamento, ele passou a morar com a mãe em Rio Preto e há dois anos e meio vivem em conflito. “Ele bebe muito e fica alterado. Com isso me xinga, me chama de verme, de bruxa. O Natal do ano passado foi o pior da minha vida, porque tivemos uma briga horrível”, lembra.

Com as denúncias, o delegado solicitou o afastamento do filho da casa da mãe e, desde segunda-feira da semana passada, ele não coloca mais os pés na residência. “Sei que ele se internou para buscar tratamento. Dói muito, enquanto mãe, ter tomado essa medida, mas foi o melhor para mim e para ele. A situação chegou a um ponto insustentável. Agi com o coração, para evitar mais conflitos e minimizar os problemas.” Para ela, a decisão serve de exemplo para outras mães que passam pelo mesmo problema.

Edvaldo Santos
O delegado Osmar Ribeiro Santos, da Delegacia do Idoso
Crime contra 3ª idade dá pena maior

Quem pratica um crime contra pessoas com mais de 60 anos tem uma pena maior do que aqueles que cometem o mesmo delito contra um adulto não idoso. Isso porque o Código Penal Brasileiro prevê agravantes nos casos em que a violência é praticada contra a terceira idade. Segundo o promotor João Carlos Sgorlon, o idoso merece uma atenção especial, por isso é natural que a lei seja mais rigorosa.

“A pessoa com mais de 60 anos tem muitas dificuldades, desde perambular pelas ruas como ter acesso às informações. Eles são mais vulneráveis, e a lei é clara ao estabelecer que eles merecem uma atenção especial.” O promotor cita como exemplo os casos em que uma pessoa pratica lesão corporal leve contra um adulto. Se condenado, a pena não passa de três meses a um ano de reclusão. Neste caso, por se tratar de um crime de menor potencial ofensivo, o agressor nem ficará preso e vai prestar serviços à comunidade. Quando o mesmo crime é cometido contra um idoso, a detenção chega a 3 anos.

O mesmo acontece com os assassinos. Quando o homicídio é doloso (com intenção), a pena é aumentada de um terço se o crime é praticado contra pessoa menor de 14 ou maior de 60 anos. Até mesmo filhos que deixem de cumprir as obrigações materiais em relação aos pais idosos podem pegar de seis meses a 3 anos de prisão. Para quem xinga uma pessoa da terceira idade, a pena chega a até três anos. Em casos normais, a pena é de seis meses.



 
     
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