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'Instrumento caipira'
São José do Rio Preto, 7 de Novembro, 2010 - 7:14
100 anos da 'invasão' da viola na cidade

Marival Correa

Arte sobre foto/Adriana Carvalho
Os sons entoados há 100 anos pelas violas ecoam fortes até hoje
Se os roqueiros são unânimes em atribuir ao festival de Woodstock a mística que revolucionou o mundo das guitarras, o mesmo pode se dizer de um episódio ocorrido no Brasil há um século. Foi quando, em 1910, Cornélio Pires levava para a sisuda Faculdade Mackenzie, de São Paulo, duplas sertanejas para uma apresentação inédita. Ainda houve dramatização de um mutirão (reunião de vizinhos para realizar juntos uma tarefa no campo), encenação de um velório interiorano e exibição de catireiros e cururueiros. Foi esse “Woodstock” caipira que marcou, de certa forma, a entrada da viola caipira na cidade, ou a aproximação da roça com o urbano.

“O caipira que Cornélio levava para a Capital, como na famosa apresentação no Colégio Mackenzie, em 1910, assimilou a visão da urbanidade que impregna a música sertaneja”, afirma Pedro Macerani, o Pedro Massa, músico e compositor de Tietê, terra de Cornélio Pires. Os sons entoados há 100 anos ecoam fortes até hoje e se fazem presentes em todos os cantos do Brasil. Na região de Rio Preto, até não muito tempo atrás sulcada por estradas boiadeiras que proporcionaram o desenvolvimento de incipientes corrutelas, não foi diferente.

O som da viola foi a trilha sonora a resgatar histórias de desbravadores, cavaleiros valentes e a perpetuar em letras nostálgicas elementos típicos do caipira como o carro de boi, as tropas que rasgavam o então sertão da araraquarense e paisagens bucólicas ainda intocadas. Isso sem falar dos causos de amores impossíveis e de romances às vezes encerrados de forma trágica. Não foi fácil, porém, para a viola sobreviver até os dias de hoje. Seja pelo próprio preconceito que a figura do instrumento suscitava, inevitavelmente associado ao caipira - tido equivocadamente por décadas como sinônimo de atraso - seja por ser tantas vezes sufocado por modismos de ritmos importados rotulados de “modernos”.

Sérgio Menezes
Os irmãos Durval (ao fundo) e Alício Binatti mostram as etapas do processo de fabricação de viola: eles têm prestígio além fronteiras


Coube à arte da luteria - fabricação artesanal de instrumentos musicais - o importante papel de colaborar para que a viola não se tornasse adereço esquecido em museus. Na região, dois irmãos dominam como poucos a técnica de transformar madeira na clássica viola caipira. A obra dos Binatti é reconhecida por músicos iniciantes até os consagrados, como Chitãozinho e Xororó, César Menotti e Fabiano e Daniel - este último estampa uma legítima Binatti na capa do disco “Meu reino encantado.”

Do mato para o mundo

Um muro rústico, sem pintura. Nenhuma placa publicitária. E na garagem dois Chevrolets, uma Caravan e um Opala parcialmente desmontado. Finalmente, nos fundos, um pequeno galpão onde fica a oficina. É nesse espaço absolutamente simples, sob o olhar vigilante de São Gonçalo - santo protetor dos violeiros - que Alício, 47 anos, e Durval, 49 anos, os irmãos Binatti, desenvolvem suas criações, que já avançaram para além da fronteira nacional.

Agora mesmo Alício prepara uma viola caipira encomendada por um português que mora em Londres. E como o cliente ‘gringo’ conhecia o trabalho dos luthiers quase escondidos em um imóvel simples, na saída de Uchoa para Tabapuã, sem qualquer tipo de publicidade e muito distante da internet? Por caminhos que os próprios artesãos desconhecem.

“Quando ainda morávamos na roça e começamos a fazer nossas primeiras violas teve um sujeito que se admirou: ‘Como podem vocês, enfiados lá no mato, fazer instrumento dessa qualidade?’ O fato é que sai e o pessoal aprova. Nunca teve reclamação”, afirma Durval, que afirma trabalhar apenas com madeira estrangeira, adquirida de um importador de São Paulo.

Sérgio Menezes
Alício (esq.) e Durval Binatti exibem as joias fabricadas na modesta lutheria, em Uchôa
Em show consagrado, a certeza da vocação

Alício e Durval Binatti ainda trabalhavam com os pais na roça, em Cedral, lidando com café e arrumando cerca, quando ensaiaram a fabricação de viola. Era meados da década de 1980. E como todo começo, este também não foi nada fácil. Uma cama velha serviu de matéria-prima para o primeiro instrumento. As coisas seguiram difíceis por cerca de dez anos, quando já haviam mudado para a vizinha Uchôa. Alício e Durval ainda dividiam o trabalho na roça com a lutheria.

Mas um show visto pela televisão deu aos dois a força que faltava para seguir em frente. Era o ano de 1997 e Alício assistia com o pai a um especial sobre Chitãozinho e Xororó, que comemoravam 25 anos de carreira e faziam apresentação no Olympia, casa de espetáculos de São Paulo. Em determinado momento do show Alício viu quando Xororó empunhou uma viola. E não era qualquer uma. Era uma Binatti. “Não me lembro da música, de tão emocionado que fiquei. Mas da viola lá em cima do palco, nas mãos daquela dupla, isso não esquecerei jamais.”

O sucesso de boca a boca, como os dois gostam de dizer, foi se espalhando feito rastilho de pólvora. O detalhe talvez mais incrível é que nem Alício nem Durval possuem formação acadêmica de música. O que sabem, aprenderam intuitivamente. E garantem: ninguém sabe afinar o instrumento melhor que eles.

“O segredo da viola é o fazer, o material não influencia na qualidade. Uma vez me trouxeram uma viola de jacarandá indiano de primeira mesmo, com pinho alemão alinhado e escala de ébano. Era um nojo a viola, uma latinha podre por causa do som ruim que produzia. O segredo está no jeito de fazer, no capricho e em entender. Eu passei a entender do instrumento e da afinação. Acho que era um dom que estava na veia”, diz Alício.

Joias de até R$ 6 mil

A fama nunca mudou o jeito dos irmãos Binatti trabalhar. Além do espaço físico modesto e de contar com auxílio de algumas máquinas improvisadas para dar forma aos instrumentos, outra característica é de ser um negócio absolutamente familiar. Na lutheria trabalham apenas os dois e mais ninguém. Juntos fazem, em média, 12 a 13 violas por ano.

Gente interessada em aprender o ofício não falta. Mas os irmãos temem despersonalizar a criação que levou anos para ser depurada. “Numa fábrica um funcionário faz uma coisa, e outro faz outra coisa. Quem termina a peça lá na frente não sabe como começou lá atrás, e vice-versa”, argumenta Durval.

O modo objetivo de conduzir os negócios revela-se também na despreocupação com a concorrência. Se patentearam a técnica de fabricação que desenvolveram? “Na verdade não patenteamos, não. O certo era patentear, não é? Mas não tem problema, ninguém faz igual. Alguns tentam (copiar), mas não conseguem. E o pulo do gato eu não ensino pra ninguém”, avisa Durval.

Talvez seja esse “pulo do gato” que faz de uma Binatti um instrumento único e que seduz tantos músicos. César Menotti, quando esteve em Rio Preto no mês passado se apresentando na Expo Rio Preto ao lado do parceiro Fabiano, fez questão de encomendar uma viola produzida pelos irmãos. “Até achei que fosse uma pegadinha quando ele me ligou. Mas depois demos muita risada. Ele chorou muito no preço (R$ 4 mil), mas no fim combinamos no valor”, conta Alício. Segundo ele, esta não é a mais cara de todas. Dependendo do material, uma viola pode custar entre R$ 2 mil e R$ 6 mil.

E é o próprio César Menotti quem atesta a qualidade do produto. “Os irmãos Binatti são os maiores fabricantes de viola do mundo. Sempre que passamos pela região, gostamos de ver os amigos.” Menotti diz que ele e Fabiano têm um projeto para resgatar “a verdadeira música caipira e sertaneja brasileira, sem influências de outros países.”

Outra dupla que também elogia o trabalho dos Binatti é João Carreiro e Capataz. Nos shows que realizam pelo Brasil sempre reservam um espaço para a chamada música raiz. “A defesa que a gente faz é pela viola caipira. É difícil a mídia dar essa abertura no cenário nacional. O pouco que a gente faz, faz de coração. Eu se pudesse, aliás, só vivia de moda caipira”, diz João Carreiro.

Tião revoluciona ritmo

Se João Gilberto e seu “Chega de Saudade” são fundamentais para se compreender a Bossa Nova, o mesmo pode se dizer de Tião Carreiro e seu jeito único de pontear a viola, essenciais para revitalização da chamada música de raiz. Entre as obras que o mineiro radicado em Araçatuba eternizou está “Pagode em Brasília”, de Teddy Vieira e Lourival dos Santos.

Segundo consta nos registros de posse do museu dedicado a Tião Carreiro, em Araçatuba, “Pagode em Brasília” foi lançado em agosto de 1960 para homenagear a nova capital do País. Mais que uma reverência à obra máxima de Juscelino Kubitschek - um “cabra de peito”, como diz a letra - “Pagode em Brasília” acabou se tornando o primeiro trabalho a incorporar o estilo que ele criara um ano antes, em 1959: o pagode - um recortado mineiro (base da catira, como ensina o professor Romildo Sant’Ana) que ele incrementou acrescentando outros tipos de batidas na viola.

O tal pagode lançado há meio século nada tinha a ver com os conhecidos nos dias de hoje. Era simplesmente a maneira como os mineiros chamavam os bailes. Assim, por sugestão dos parceiros Lourival dos Santos e Tedy Vieira, estava batizado o novo ritmo e Tião Carreiro, claro, tornava-se o “Rei do pagode.” Mas em quase quatro décadas de sucessos - 25 discos 78 rpm e mais de 50 LPs gravados com variados parceiros, caipira e mais de 300 composições ao lado de Teddy Vieira, Dino Franco, Moacyr dos Santos, Zé Carreiro e Carreirinho, Zé Fortuna, entre outros, não só de “Pagode em Brasília” baseia-se a fama de Tião Carreiro.

Causos e histórias que ele coletou por suas andanças, incluindo aqui mesmo em Rio Preto, serviram como inspiração para outros clássicos. Neste rol estão “Rio Preto de luto” - que cita uma série de mortes trágicas, como a de Alberto Andaló, Bady Bassitt e os 59 estudantes que tombaram no rio Turvo - e “Arreio de Prata”, que fala de Oscar Bernardino e sua tropa, cuja saga foi iniciada em solo rio-pretense. E em devoção ao instrumento que o acompanhou até o fim da vida, cantou verdadeiras odes apaixonadas como “Viola Divina”, “Chora Viola” e “Viola Vermelha”, entre tantas outras.





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