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São José do Rio Preto, 18 de Julho, 2010 - 1:48
Camelódromo vende medicamento proibido

Bruno Xavier e Graziela Delalibera

Sérgio Menezes
Comprimidos de Pramil, medicamento para disfunção erétil vendido ilegalmente no camelódromo de Rio Preto
Entre roupas, aparelhos eletrônicos e acessórios em geral, vendedores do “Palácio dos Camelôs”, localizado no piso superior da rodoviária de Rio Preto, também comercializam o Pramil, medicamento para disfunção erétil (impotência) proibido no Brasil pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Quem é flagrado vendendo o produto responde pelo crime de falsificação, corrupção, adulteração ou alteração de produtos destinados a fins terapêuticos ou medicinais, cuja pena varia de 10 a 15 anos de reclusão.

Na tarde da última sexta-feira, a reportagem do Diário encontrou o medicamento em dois boxes do “Palácio dos Camelôs”, ao preço de R$ 2 e R$ 2,50 cada comprimido, ou R$ 35 pela cartela com 20 comprimidos.

Descobrir qual box vende o medicamento não é difícil. Se passando por um simples cliente, a reportagem aborda um vendedor sentado próximo à escada central da rodoviária. Antes de responder, ele olha para os lados, certifica-se de que não há outra pessoa observando a conversa e aponta para outro homem, alguns metros adiante: “Aquele ali tem. Fale com ele.”

O vendedor indicado está parado em frente a um box com bonés e óculos escuros. O repórter pergunta pelo Pramil. Ele se mostra desconfiado. “Ter, eu tenho. Mas fica difícil vender para alguém desconhecido. Isso aqui dá 15 anos de cadeia. Um sobrinho meu já ‘rodou’ assim”, diz.

A reportagem insiste na compra e ele fala o preço: quatro comprimidos por R$ 10. O repórter conta que nunca fez uso do medicamento e que só precisa de um comprimido, para experimentar. O comerciante se dirige ao box da frente, onde são vendidos aparelhos eletrônicos. Ele se abaixa e pega uma caixa de papelão pequena, escondida no meio das mercadorias.

Na hora de entregar o comprimido, muda a proposta, com a intenção de conquistar o cliente. “Hoje você vai levar esse de graça e quando precisar de mais é só passar por aqui e comprar a cartelinha com quatro”, diz. “Você vai gostar. Tem muito moleque de 20, 25 anos viciado nisso.”

Despreocupado

Em seguida, a reportagem se dirige aos boxes do lado oposto da escada central da rodoviária com a mesma intenção. Descobrir quem vende o medicamento demora um pouco mais. Dois vendedores dizem não saber, mas um terceiro indica quem tem o produto.

O box apontado vende ervas e pomadas medicinais. O comerciante se mostra menos preocupado em ser flagrado do que o primeiro. Sem rodeios, ele informa os preços: R$ 2 por comprimido ou R$ 35 pela cartela com 20. A reportagem pede dois. Para que ninguém perceba, ele se vira para o interior do box, pega uma cartela na pochete, separa dois comprimidos com a ajuda de uma tesoura e os entrega à reportagem.

“Você precisa tomar meia hora antes da relação”, orienta. Questionado sobre efeitos colaterais, ele tranquiliza o repórter. “Não faz mal, não. Só aumenta a circulação do sangue. Tem até dois médicos que compram comigo.”

Punição

O secretário de Desenvolvimento Econômico e Negócios de Turismo, Carlos de Arnaldo e Silva, disse que desconhece o fato de que o remédio é vendido no local. Ele falou que irá abrir procedimento administrativo para apurar o caso assim que a matéria for publicada e, se as irregularidades forem comprovadas, os ambulantes terão a permissão cassada.

Médico alerta sobre riscos

Segundo o cardiologista do InCor Rio Preto, Sírio Hassem Sobrinho, que também é professor da Faculdade de Medicina de Rio Preto (Famerp), é arriscado ingerir um medicamento produzido no Paraguai, como o Pramil, uma vez que o remédio não passa pelo controle da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). O médico fala que ao adquirir o produto de forma clandestina, o paciente não recebe as orientações necessárias para o uso com segurança.

“A associação do Pramil com medicamentos à base de nitrato pode causar desmaio, choque cardiogênico (quando a pressão vai a zero e o indivíduo corre risco de entrar em óbito) e hipotensão arterial (pressão fica muito baixa e o paciente fica com tontura, com o corpo gelado, e pode ter uma parada cardíaca)”, diz o especialista. Além disso, Sobrinho alerta que para tomar o remédio com segurança é preciso ter pressão arterial normal e não ter doença cardiológica instável, como hipertensão e angina descontroladas. “Mesmo quando não há associação com qualquer remédio, há algum risco, Para tomar o medicamento, é preciso estar muito bem cardiologicamente”, explica. Medicamentos à base de nitrato são aqueles usados para controlar doenças do coração que causam dor no peito.

O Pramil tem o mesmo componente do Viagra, produzido no Brasil: o citrato de sildenafila. “A indicação é para pacientes com disfunção erétil que tenham função cardiológica e pressão arterial normal”, afirma o cardiolologista.

Remédio entra pelo Paraguai

De acordo com o delegado chefe em exercício da Polícia Federal de Rio Preto, José Eduardo Pereira de Paula, o Pramil é o principal medicamento para disfunção erétil contrabandeado do Paraguai. No Brasil, ele é vendido em bares, feiras livres e até farmácias.

“Na região da fronteira, principalmente em Foz do Iguaçu e Guaíra, as apreensões são muito comuns. Mas depois que o contrabandista entra no País, precisamos de uma informação muito precisa para prendê-lo”, afirma. No Código Penal, a pena para quem vende Pramil é maior do que para quem vende drogas. Enquanto na primeira situação a pena varia de 10 a 15 anos, o tráfico de drogas tem pena prevista de 5 a 15 anos.

“A pena para quem falsifica medicamentos foi ampliada pelo Congresso em 1998, quando houve uma grande mobilização popular depois que algumas pessoas morreram após tomarem remédio adulterado para o coração”, explica o delegado. Outros medicamentos para disfunção erétil contrabandeados do Paraguai são o Digram, o Eroxil e o Cialis.


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Fonte: Colaborou Talles Freitas
 
     
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