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Rodovia Transbrasiliana
São José do Rio Preto, 21 de Abril, 2010 - 2:41
Há 50 anos nascia Brasília e a BR-153

Allan de Abreu

Jayme Collagiovanni
Mário Andreazza (entre os dois homens de óculos) e o prefeito Adail Vetorazzo (com a fita na mão) inauguram BR-153 em Rio Preto
Há exatos 50 anos, quando Brasília era inaugurada pelo então presidente da República, Juscelino Kubitscheck, a capital federal se resumia a um ponto distante no mapa para os rio-pretenses.

Ir de Rio Preto até o planalto central brasileiro por terra era missão impossível - havia apenas uma estrada de chão batido em péssimo estado até o Triângulo Mineiro, e depois mata fechada. O acesso, iniciado em 1960, só foi concretizado exatos nove anos depois, em 21 de abril de1969, quando foi inaugurada a rodovia BR-153.

“A gente ouvia notícias da inauguração pelo rádio e não acreditava como haviam construído uma cidade no meio do nada. Para nós, parecia obra de ficção”, diz o aposentado Romualdo Caprara, 84 anos, que na época trabalhava como representante comercial em Rio Preto.

Além de permitir o acesso a Brasília, a recém-denominada Transbrasiliana colocou Rio Preto no mapa do Brasil pela terceira vez na história: a primeira havia sido no início do século 20, com a chegada dos trilhos do trem, e a segunda com a construção da rodovia Washington Luís (SP-310), no fim dos anos 50.

“A BR-153 transformou Rio Preto em um entroncamento rodoviário e centro logístico, com ligação de norte a sul do País, e foi decisiva no crescimento da cidade”, diz o engenheiro da USP José Bernardes Felex, especialista em rodovias. Em 50 anos, a população rio-pretense cresceu 411%, de 82.119 para 419.632 habitantes, ultrapassando cidades como Bauru, Piracicaba, Jundiaí, Santos, Marília e São Caetano do Sul.

O primeiro esboço da Transbrasiliana foi desenhado ainda na década de 40 pelo governo Getúlio Vargas no Plano Nacional de Rodovias. Mas a construção só começou em 1958, na “febre de asfalto” do governo JK, primeiro no trecho norte, até Marabá, conhecido depois como Belém/Brasília. A construção coube ao engenheiro Bernardo Sayão, morto um ano depois, quando uma árvore derrubada na abertura da estrada caiu na barraca onde ele estava.

Divulgação
Trecho da Transbrasiliana aberto em meio à mata nativa entre o Distrito Federal e Tocantins


Carroça

O trajeto Ourinhos/Brasília, passando por Rio Preto, ficou a cargo da Comissão de Estradas de Rodagem (CER 2), chefiada pelo coronel Teodorico de Faria. As obras começaram em 1960 com cerca de cem operários de uma empreiteira contratada pelo governo federal e nenhuma infraestrutura. “Não havia maquinário nenhum. Tínhamos de abrir a estrada com pás e puxar a terra de carroça”, diz Eurípedes Mineiro de Melo, capitão do Exército que ajudou a coordenar a construção da rodovia, na época chamada BR-14. A sede do CER 2 funcionava no bairro Maquininha, hoje São Deocleciano, zona leste da cidade.

Muita mata foi derrubada e áreas de várzea drenadas para dar lugar ao asfalto. O trecho entre Rio Preto e Brasília só seria concluído nove anos depois, quando foi inaugurado pelo então ministro dos Transportes, Mário Andreazza. “Aquele estradão asfaltado imenso era um luxo para a época”, lembra capitão Mineiro. Os 4,3 mil quilômetros da rodovia ficaram prontos em 1974, no auge do regime militar. “Foi a primeira grande rodovia do interior brasileiro, sem ligação com o litoral”, diz o especialista da USP.

Decadência

As décadas de 80 e 90 marcaram a decadência da BR-153. Sem manutenção, foi tomada por buracos e falhas na sinalização. Devido aos muitos acidentes fatais, passou a ser conhecida na região como “rodovia da morte”. A recuperação só veio na segunda metade desta década, quando o Exército refez parte da malha viária da Transbrasiliana nos Estados de São Paulo, Minas e Goiás.

Há quatro anos o trecho paulista da BR foi privatizado, com a instalação de dois pedágios na região. De acordo com a Agência Nacional de Transportes Terrestre (ANTT), até 2015 está prevista a duplicação de 67,7 quilômetros no município de Rio Preto e entre Bady Bassitt e José Bonifácio. O custo da obra está estimado em R$ 63,3 milhões.

“Se duplicar, vai melhorar mais ainda”, diz o caminhoneiro Mário Martins Nascimento, 44 anos, sete deles transportando combustível na BR-153, entre Rio Preto e Brasília. “A Transbrasiliana é quase a minha casa. Passo mais a vida nela do que com a minha família”, diz Nascimento.

Divulgação
Bernardo Sayão (centro) na construção da rodovia, nos anos 50


Crise política marca festa dos 50 anos

“Olhai agora para a Capital da Esperança do Brasil”. Com este discurso, Juscelino Kubitschek, há 50 anos, inaugurava Brasília, para ser um farol de modernidade para o interior do país, que, naquela época, concentrava a riqueza e o desenvolvimento no litoral. Hoje, 50 anos passados daquele dia, Brasília está em festa. Mas uma festa embaraçosa para uma população que está sendo governada por alguém que mal conhece, eleito pela Câmara Legislativa, às pressas, a nove meses do fim do mandato.

O governador que havia sido escolhido pelos eleitores - José Roberto Arruda - foi alijado das comemorações. Acusado de ser o mentor de um esquema de cobrança de propina e pagamento de mesada a aliados do governo, trouxe para a cidade o título de primeiro governador preso por denúncia de corrupção e deu mote para o Procurador-Geral da República pedir intervenção federal no governo.

Ex-governador do Distrito Federal, o senador Cristovam Buarque (PDT), diz acreditar que a cidade está comemorando o cinquentenário, hoje, com um sentimento misto de tristeza e alegria. “A verdade é que a gente fica envergonhado de ter tido um governador preso. Mas a cassação dele pela Justiça Eleitoral foi uma conquista da população”.

Analisando os últimos acontecimentos na cidade depois de deflagrada a crise política, o professor Leonardo Barreto, da UnB, o senador Cristovam Buarque e o deputado Rodrigo Rollemberg, porém, chegam a uma mesma conclusão - uma conclusão otimista até. Isso porque, apesar de José Roberto Arruda ter usado a cidade para montar um esquema de corrupção com envolvimento de deputados, secretários e empresários, o assunto não passou incólume.

A imprensa noticiou, os estudantes saíram às ruas, a política prendeu Arruda, e a Justiça Eleitoral cassou o mandato dele. Logo, o pleno funcionamento das instituições fiscalizadoras pode ser um sinal de que Brasília, aos 50 anos, pode ser ainda a capital da esperança.





Veja abaixo alguns vídeos encontrados no site YouTube sobre a inauguração de Brasília:




















Ferida, Brasília comemora hoje 50 anos

“Olhai agora para a Capital da Esperança do Brasil”. Com este discurso, Juscelino Kubitschek, há 50 anos, inaugurava Brasília, para ser um farol de modernidade para o interior do país, que, naquela época, concentrava a riqueza e o desenvolvimento no litoral. Hoje, 50 anos passados daquele dia, Brasília está em festa. Mas uma festa embaraçosa para uma população que está sendo governada por alguém que mal conhece, eleito pela Câmara Legislativa, às pressas, a nove meses do fim do mandato.

O governador que havia sido escolhido pelos eleitores - José Roberto Arruda - foi alijado das comemorações. Acusado de ser o mentor de um esquema de cobrança de propina e pagamento de mesada a aliados do governo, trouxe para a cidade o título de primeiro governador preso por denúncia de corrupção e deu mote para o Procurador-Geral da República pedir intervenção federal no governo.

“Antes, quando falavam para os brasilienses sobre os corruptos de Brasília,todos faziam questão de dizer que os corruptos estavam aqui porque os eleitores dos outros estados os elegiam e os mandavam para cá. Com a prisão do governador, perdemos o discurso”, lamenta Adelmir Santana, senador pelo DEM e presidente da Fecomercio-DF, sintetizando o que parece ser um sentimento comum na cidade.

“Juscelino Kubitschek dizia que Brasília irradiaria uma nova forma de fazer política. Mas como controlar os fatores? Os políticos trouxeram consigo os hábitos políticos”, diz o professor de Ciência Política da Universidade de Brasília (UnB), Leonardo Barreto. Brasília, na avaliação do professor, é como outra cidade qualquer: “Tem sua classe política local, que cria redutos, que alimenta esses redutos, com cargos, com clientelismo. E os cidadãos não são mais politizados que no restante do país.”

Ex-governador do Distrito Federal, o senador Cristovam Buarque (PDT), diz acreditar que a cidade está comemorando o cinquentenário, hoje, com um sentimento misto de tristeza e alegria. “A verdade é que a gente fica envergonho de ter tido um governador preso. Mas a cassação dele pela Justiça Eleitoral foi uma conquista da população.” Para o líder do PSB na Câmara dos Deputados, Rodrigo Rollemberg, o aniversário da cidade marca o fim de um ciclo. “Pode estar se enterrando com uma prática ultrapassada e danosa de fazer política, onde sempre se confundiu o interesse publico com o privado. Deve haver na cidade uma grande renovação” afirma.

Analisando os últimos acontecimentos na cidade depois de deflagrada a crise política, o professor Leonardo Barreto, da UnB, o senador Cristovam Buarque e o deputado Rodrigo Rollemberg, porém, chegam a uma mesma conclusão - uma conclusão otimista até. Isso porque, apesar de José Roberto Arruda ter usado a cidade para montar um esquema de corrupção com envolvimento de deputados, secretários e empresários, o assunto não passou incólume.

A imprensa noticiou, os estudantes saíram às ruas, a política prendeu Arruda, e a Justiça Eleitoral cassou o mandato dele. Logo, o pleno funcionamento das instituições fiscalizadoras pode ser um sinal de que Brasília, aos 50 anos, pode ser ainda a capital da esperança.

Capital do luxo e do dinheiro vivo

Um apartamento de dois quartos em Brasília chega a valer R$ 800 mil. Uma quitinete, quase meio milhão de reais. O Orçamento do governo do Distrito Federal em 2010 gira em torno de R$ 22 bilhões, média de R$ 8,4 mil por habitante. A capital, aos 50 anos, tem a maior renda per capita do País: R$ 40,6 mil. E não para por aí: cerca de R$ 3 bilhões por ano circulam na economia só com a venda de imóveis novos. Licitações e contratos milionários são fechados diariamente entre empresas privadas e órgãos públicos locais e federais.

O começo, no meio do nada, impôs à União, inquilina do DF, a obrigação de pagar a conta da hospedagem. E até hoje Brasília é tratada, do ponto de vista financeiro, como se fosse uma cidade sem pernas próprias. Foi assim que a capital ganhou um fundo constitucional só para ela (FCDF), que neste ano vai despejar nos cofres do governo local R$ 7,6 bilhões.

A riqueza e a arrecadação só aumentam, mas a vigilância sobre o destino do dinheiro, até ao estouro do escândalo do mensalão do DEM, era nula - o Legislativo nasceu cooptado e a mídia local sempre foi financeiramente muito dependente da propaganda e dos negócios de comunicação dos governos. O oficialismo da capital, que vive e respira emprego e negócios públicos, ajuda a explicar o silêncio gerado pelos muitos interesses cruzados.

Dinheiro vivo

A massa salarial distribuída entre funcionários públicos locais e da União pode ser medida por dois fatos: 94 % do dinheiro do FCDF é gasto com salários; e o governo federal deu uma contribuição inédita em matéria de evolução dos ganhos de seus servidores ao aumentar em 56%, entre 2003 e 2009, o salário real médio. O único setor privado da economia que chegou perto disso foi o agropecuário - os demais, segundo o Ministério do Trabalho, aumentaram seus salários de admissão entre 20% e 30%.

Aos 50 anos, o ganho salarial de seus habitantes e a riqueza do Centro-Oeste, onde está Brasília, fizeram da capital uma cidade abastecida por dois fluxos de dinheiro, o oficial e o subterrâneo. É a cidade que tem 1,5 mil lanchas de primeira linha desfilando pelo Lago Paranoá e onde virou rotina vender e comprar imóvel ou veículo com pacotes de dinheiro vivo.

Recentemente, o dono de uma concessionária de veículos recebeu um pedido inusitado. O comprador pediu para ser avisado do horário de fechamento da loja para levar, “em cash”, o pagamento de seu carro de luxo. A surpresa por parte do vendedor deu-se não pelo tipo de operação - comum no dia a dia dele -, mas pelo comprador: um alto funcionário da República. “Nós temos relatos de vendas de bens duráveis em dinheiro vivo. Grande parte disso nem é declarada. Temos aí uma espécie de economia subterrânea”, afirma o procurador Marinus Marsicus, representante do Ministério Público no Tribunal de Contas da União (TCU).

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Fonte: com Agência Estado
 
     
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