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São José do Rio Preto, 21 de Janeiro, 2010 - 0:08
‘Estou com muita vontade de escrever’, diz Bortolotto

Ariana Pereira

Renata Fernandes/Arquivo
Mário Bortolotto durante passagem pelo festival de Rio Preto
“É pelo meu trabalho que quero ser lembrado quando estiver bebendo em algum boteco do céu, e não porque reagi a um assalto e levei três tiros. Então não tinha o menor interesse de dar entrevista nenhuma. E evitei o máximo que pude.” Em desabafo no seu blog, “Atire no Dramaturgo”, Mário Bortoloto deixa claro que o episódio vivido no espaço dos Parlapatões, na praça Roosevelt, em São Paulo, quando reagiu a uma tentativa de assalto no dia 5 de dezembro do ano passado, foi apenas isso: mais um capítulo e só. Portanto, ainda se recuperando dos três tiros que o deixaram entre a vida e a morte, o dramaturgo pretende cumprir os planos e projetos previamente traçados.

O Diário da Região foi um dos primeiros veículos de comunicação a ouvir Bortolotto após o incidente. Nesta entrevista, ele fala sobre a retomada dos projetos interrompidos e as impressões que carrega do fato.

Diário da Região - Como você retoma as atividades?
Mário Bortolotto - Os planos são retomar o trabalho que já tinha programado. Tenho uma peça para estrear no dia 18 de março no Festival de Curitiba, “Música para ninar dinossauros”, um texto meu, com direção minha. O (Lourenço) Mutarelli trabalha como ator nessa peça. Tem outra peça que estreia dia 30 de março, “Êxtase”, com direção do Mauro Baptista, em São Paulo. Cumpro temporada como ator convidado. Tem também um curta-metragem em abril, “Nove crônicas para um coração aos berros”, do Gustavo Galvão. Não tive de mudar nada do que estava programado. Quero lançar meu livro de poesias, um livro de contos, um livro com peças de teatro. E escrever coisas novas. Estou com muita vontade de escrever.

Diário - O trabalho com a banda Saco de Ratos foi lançado?
Bortolotto - O CD está sendo vendido, mas não foi lançado porque tem de esperar eu voltar. Estou esperando o dia 27 para fazer alguns exames e receber um parecer se já posso voltar a cantar. Como operei o pulmão quero ver se já posso forçá-lo. Assim que estiver autorizado, a gente marca o show. Deve ficar para o final de fevereiro ou início de março.

Diário - Você acredita que o que viveu na Praça Roosevelt vai influenciar sua produção?
Bortolotto - Tudo o que acontece com a gente tem uma influência, mas não vou escrever nada sobre o ocorrido. Acho que minha visão de mundo está mais serena. Já que eu não morri, tenho todo o tempo do mundo. Estou bem, inteiro, andando. O problema é o braço esquerdo inutilizado. Por enquanto, ele está na tipoia e os dedos sem movimento. Começo amanhã (ontem) a fisioterapia.

Diário - Como foi o episódio com os assaltantes?
Bortolotto - O que aconteceu todo mundo já sabe, eu estava lá, tinha bebido bastante. Não foi exatamente pelo ocorrido que vou parar de tomar uísque. Bebo desde pivetinho e agora, com 47 anos, começou a gritar na minha cabeça. Nos últimos três anos, perdi muito tempo bebendo até dez da manhã todo dia. Acordava às 16 horas inutilizado para escrever. Estava ficando de saco cheio disso. Achei que produzi pouco nos últimos três anos, cheguei a essa conclusão, estava em um movimento de baixar bola, tirar o pé do acelerador e voltar a produzir, voltar mais cedo para casa, beber menos. Quando aconteceu isso, pensei: “vai ser agora mesmo, não tem papo”. Fui obrigado a parar de beber por causa da operação, dos remédios. Não que eu parei de beber completamente. Vou tomar cerveja, meu vinho mais moderadamente. Meu problema é uísque, tomo um, tomo dois e quando vou ver tomei 15. É complicado, pois me tira do centro e aí acabo não tendo noção exata do que faço.

Diário - Mas, independente de ter bebido, teria acontecido?
Bortolotto - Acho que teria. Mas eu não teria uma reação tão abrupta quanto a que tive. O cara ia provocar e eu ia discutir com ele. Já negociei em outra situação semelhante e acho que aquele dia teria conseguido negociar também. Teria dito: “oh, meu, para aí”. Mas, como eu estava muito louco, o cara me atacou, me deu uma coronhada na cabeça, veio gritando com a gente: “deita no chão, deita no chão”. Agrediu as meninas, aí eu,com o álcool na cabeça, não tive outra reação a não ser partir para cima dele, nem argumentei. Não consigo reconhecer o cara. Eu tinha certeza de que ele estava de camiseta branca, quando vi o vídeo, falei: “o cara está de jaqueta verde”. Como é que eu vou identificar o cara? Não tem como. E aí veio essa besteira de dizerem que eu tenho medo de identificar. Medo é o que menos tenho, adoraria reconhecê-lo.

Diário - Apesar disso, você deixou claro que não tem rancor.
Bortolotto - Não consigo guardar rancor de ninguém, esse é o meu problema. Eu devia guardar, eu fico mal comigo por isso (risos). Não tenho orgulho de ser assim. É meu jeito. Posso brigar com alguém, mas dez minutos depois, já esqueci.

Diário - Você tem alguma impressão do tempo que decorreu do momento que foi baleado até acordar no hospital?
Bortolotto - Morrer é deixar de existir. Não é nada de mais. Fiquei dois dias em coma e tudo certo. Deixei de existir por dois dias, acordei e disse: “to aqui ainda?. Então vamos aí, já que eu to aqui”. Mas se eu tivesse ficado lá, tinha ficado lá. Não lembro de nada depois que levei os tiros. Sei a história toda porque me contaram.

Atriz de Rio Preto socorreu o dramaturgo

A diretora e atriz rio-pretense Fernanda D’Umbra foi uma das pessoas que socorreram Mário Bortolotto na madrugada do dia 5 de dezembro, durante a tentativa de assalto ao Espaço Parlapatões, na Praça Roosevelt, na Capital paulista. “A Fernanda e o (Fábio) Brum foram os dois principais. Não fosse ela me levar para o hospital, eu tinha morrido. Foi muito fria, sempre muito prática. A Fernanda desmorona depois, mas consegue fazer tudo que precisa ser feito”, relata Bortolotto.

Fernanda relembra o que houve depois dos tiros: “quando os tiros pararam, me levantei de onde estava e vi o Mário caído. Corri até ele, fiquei ao lado dele olhando sempre para o seu rosto e tentando mantê-lo consciente. Quando a polícia chegou, eu disse aos policiais que não esperaria pelo resgate, que o levaria imediatamente para a Santa Casa. Se tivesse esperado, o Mário estaria morto. Quando entrei na viatura, o Brum estava do meu lado, o Mário no porta-malas. Tudo foi muto rápido e penso que tive uma bom momento de calma para resolver a situação. Depois disso tudo, fiquei mais calma, mais confiante na vida.” Fernanda e Bortolotto já foram casados. A última passagem dos dois juntos por Rio Preto foi no FIT de 2003, com o grupo Cemitério de Automóveis.

>> Ouça no canal Podcast, o áudio da entrevista feita com Mario Bortoloto

 
     
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