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São José do Rio Preto, 13 de Junho, 2010 - 1:50
Novos grupos ganham projeção com a internet

Ariana Pereira

Divulgação
Integrantes da Móveis Coloniais de Acaju: ‘Quando começamos, a internet não tinha a dimensão que tem hoje’, diz baixista
Um espaço dedicado aos ouvintes das rádios dava o sinal na hora de acionar a tecla “rec” - aquela com uma bolinha vermelha capaz de destruir o trabalho de um dia inteiro de captura das músicas preferidas - e começar aquela adrenalina que durava dois ou três minutos até o momento em que se apertava o “pause” para terminar a gravação do primeiro lugar nas paradas de sucesso.

Feliz, ou infelizmente, os fãs de artistas como Teatro Mágico, Cine, Replace, Fake Number, Malu Magalhães e de toda uma nova geração que usa a internet como pontapé inicial da carreira não experimentaram essa sensação. Basta digitar o nome dos ídolos no campo de um site de busca que uma infinidade de links com todos os tipos de downloads possíveis aparecem na tela do computador. A rede mundial provoca hoje uma nova relação entre artistas, público e gravadoras, colocando o cenário musical em um momento de transição e transformação marcante para todos.

Surgida em 1998, a banda, que mistura rock, ska e ritmos nacionais, é um exemplo de quem enfrenta, desde o começo, esse processo de metamorfose. É bem mais provável que uma pessoa com facilidade de acesso à internet já conheça o trabalho do grupo do que alguém que acompanha apenas o que se apresenta nas prateleiras de lojas ou departamentos de CDs. O álbum mais recente da banda, “C_MPL_TE”, foi lançado direto na internet e se encontra inteiramente disponível para download gratuito na página oficial.

“Quando começamos, a internet não tinha a dimensão que tem hoje. Gravávamos fitas demo e trocávamos com outros grupos em shows, mas a rede já se configurava como um instrumento muito útil de busca. A partir de 2003, passamos a disponibilizar todo o nosso trabalho para download e sempre acreditamos nessa ferramenta como uma grande aliada para complementar até mesmo uma falta de espaço, uma outra possibilidade”, afirma o baixista do Móveis, Fábio Pedroza.

E se engana quem pensa que as bandas que lançam mão da internet disponibilizam apenas um produto de maneira gratuita. Os grupos têm consciência de que, ao oferecer música aos fãs - e até mesmo aos que desconhecem o trabalho que desenvolvem -, recebem o retorno em público, divulgação e consumo do produto cultural por eles elaborado. “É gratuito, mas não é fundo perdido. Tem um retorno de público, distribuição pela galera que escuta e aponta para os outros. Pelo Twitter a gente percebe muito isso”, diz Pedroza.

Aliada

Outro grupo que fez da internet aliada do próprio trabalho e se tornou conhecida, principalmente fora do País, é o Cansei de Ser Sexy (CSS), que também aposta nas misturas: rock, pop e música eletrônica. Diferente da Móveis Coloniais de Acaju, o CSS começou o trabalho inteiramente pela internet, em 2003. “Se não fosse a internet, acho que quase certamente a gente nunca teria tido atenção e, consequentemente, o sucesso que a gente conquistou.

Foi por meio da rede que conseguimos nos estabelecer até chegar a um produto físico, como um CD”, afirma Ana Rezende, que toca guitarra e gaita no grupo composto por mais quatro integrantes. Para ela, a possibilidade de os artistas divulgarem a própria produção pela rede, de maneira independente de grandes gravadoras, faz com que mais pessoas tenham acesso a diferentes modos de fazer música não apenas no Brasil mas no mundo.

“A partir da internet, o CSS se tornou conhecido fora do País. Gostamos de tocar aqui no Brasil, afinal de contas, moramos aqui, mas o trabalho ganhou uma dimensão maior em âmbito internacional. Apesar dos acessos às músicas pela internet, isso não exclui a necessidade de as pessoas que gostam do nosso trabalho terem um produto, um CD ou até mesmo um vinil que gravamos em outros países”, diz Ana.

Na opinião do músico, empresário e presidente da gravadora Trama, João Marcello Bôscoli, a internet não apenas melhora o cenário fonográfico nacional como faz com que as possibilidades aumentem muito, tornando a música presente no cotidiano das pessoas como nunca antes.

“Desde o início da Trama, em 1998, a internet nos auxilia porque trabalhamos essencialmente com artistas novos. Depois da fundação da Trama Virtual, em 2004, passamos a receber mais e mais materiais de artistas, chegando aos 80 mil que temos hoje. A rede faz parte da nossa vida. Além disso, a revolução digital barateou muito os meios de produção como um todo. Instrumentos, mesas de som, microfones etc. Hoje, em um lap top, tem mais tecnologia do que os Beatles jamais acessaram. A produção de música nunca foi tão acessível”, analisa Bôscoli.

Ouça aqui no podcast do Diarioweb entrevista com Fábio Pedroza, da Móveis Coloniais de Acaju

Divulgação
Músicos da banda brasileira Cansei de Ser Sexy, uma das mais conhecidas no cenário indie internacional: conquista a partir da divulgação pela internet
‘Música é experiência cultural’

Que tenha o HD destruído por um vírus quem nunca baixou uma música sequer pela internet. A realidade de troca de produtos culturais pela rede é um processo irreversível e mesmo que o download de obras inteiras seja o terror de gravadoras, essa prática deve não apenas persistir como se tornar cada vez mais comum e aprimorada. A internet não vem substituir mídias, mas unir-se às existentes, na opinião de Juliano Polimeno, um dos idealizadores da Phonobase, empresa que desenvolve estratégias para lançamento e gestão de grupos musicais.

“Como toda e qualquer outra mídia, a internet tem suas especificidades, mas tudo vai sempre depender do artista, de quem ele é, como ele funciona e como se pode analisar estrategicamente qual é o público desse cara. Não adianta colocar o link para o disco de graça, achando que vai virar o bambambam de uma hora para outra”, analisa Polimeno.

Ainda que a internet crie toda a facilidade de acesso à música, ela não vai substituir a necessidade que o fã de um artista tem de ter em mãos o produto palpável, seja ele um CD, uma camiseta ou a gravação de um show. Assim, as bandas e cantores que se tornam capazes de agregar mais esse instrumento têm mais possibilidades de alcançar maior número de público.

“Fã, quando é fã, se envolve com o trabalho do artista. Alguma coisa ele compra, seja ingresso de show, adesivinho, camiseta, CD. As majors se esqueceram que a música é sempre uma experiência cultural, de um indivíduo inserido em um determinado contexto social, com experiências próprias e uma rede de amigos”, diz o produtor da Phonobase, que faz a gestão das bandas Cérebro Eletrônico e Jumbo Elektro.

Ouça aqui no podcast do Diarioweb entrevista com o produtor musical Juliano Polimeno

Rio-pretenses na web

A banda de rock Modera tem músicas próprias, link na internet e um público de, pelo menos, 300 pessoas. Mas nunca se apresentou realmente. Ainda está nos palcos virtuais, de acordo com o guitarrista Alex Duarte, que integra o grupo rio-pretense Coletivo Iboruna. “A internet possibilita esse tipo de relação com o público. Nossa banda de rock ainda não se apresentou, mas sei que temos pessoas que gostam do que gravamos e que nos acessam de diferentes partes do País. É uma rede de contato muito vantajosa”, afirma Duarte.

O guitarrista diz também que, atualmente, a internet é uma das ferramentas mais importantes para o trabalho do Coletivo Iboruna. “Começamos a carreira colocando algumas das nossas músicas em sites. É um grande modo gratuito de atingir grande alcance e nos fazer conhecidos.” Além de proporcionar uma troca de informações entre os músicos, sites possibilitam o acesso ao trabalho desenvolvido pelo artista por parte daqueles que pretendem contratá-lo. Essa é a opinião do músico rio-pretense Luís Dillah, que também faz uso da rede.

“É uma maneira de permitir que as pessoas conheçam a minha produção antes mesmo de verem meu show. Facilita muito ter uma música ou um vídeo on-line quando se está em processo de negociação de um show, por exemplo”, analisa Dillah. Outro fator importante da internet, na opinião do músico rio-pretense, é a influência que ela exerce no relacionamento com as gravadoras. “Qualquer pessoa com talento e um estúdio, ainda que pequeno, pode ter, hoje, um bom trabalo para ser divulgado pela rede.”

Renata Stoduto/Divulgação
Fabrício Carpinejar, ‘twitteiro’: ‘Sempre gostei de frases de efeito’
Das páginas virtuais para o meio impresso


Os músicos que optam pela internet como meio de divulgar e firmar o trabalho que desenvolvem muitas vezes recorrem A essa opção para alcançar reconhecimento. Há outras instâncias artísticas favorecidas pela rede, no entanto, que não almejavam sair das páginas virtuais para as estantes palpáveis. São trabalhos que começaram como forma de expressão, ganharam vulto e, daí sim, “materializaram-se”.

O escritor Fabrício Carpinejar é figura fácil na internet. Além de manter três blogs, destaca-se consideravelmente pelas frases que publica diariamente no Twitter. A identificação do poeta com o microblog foi tão intensa que as frases saltaram da rede para um livro, que recebeu o nome do endereço de Carpinejar na rede: “www.twitter.com/carpinejar” (Editora Bertrand Brasil). Atualmente, ele mantém quase 32 mil seguidores e já postou quase 2,5 mil frases no perfil.

No livro, estão 400 “tweets” que foram postados no ano passado e escolhidos para evoluírem (ou seria involuírem?) do código binário para a impressão de tinta em papel. “Quando comecei a postar as frases no Twitter, não tinha a intenção de que virassem um livro. Foi totalmente despretensioso, foi espontâneo, uma espécie de adoração, pois já fazia algo parecido com o Twitter antes de ter acesso a ele. Sempre gostei do aforismos, da frase de efeito, dos pensadores”, diz com entusiasmo.

Reprodução
Reprodução da página do ‘Clube de Autores’: escritores cadastrados têm livro impresso sob demanda
Por unidade

Despretensioso também era o blog mantido pelo designer gráfico Carlos Ruas, o “Um Sábado Qualquer” (www.umsabadoqualquer.com). De maneira cômica, o rapaz que gostava de pesquisar história das religiões resolveu aliar o hobby ao que sabia fazer: ilustrações. Criou o Criador. Sair das páginas do blog e tornar-se “Deus de pelúcia” demandou mais do que os sete dias da criação, no entanto foi mais rápido do que Ruas podia imaginar. Hoje, um ano e meio após o início das publicações, o site tem em média 25 mil acessos diários.

“Inicialmente, eu não tinha dinheiro para investir em um livro, em gibi ou qualquer outro produto físico. Para conseguir um lugar em um jornal, os ilustradores precisam ter uma longa carreira. Então, optei por expor meu trabalho na internet, que é gratuita, e, se você tiver sorte e qualidade, com o tempo consegue uma certa repercussão. Hoje, os jornais é que me procuram para publicar o meu trabalho. Uma editora comprou a ideia de um livro com as tirinhas de Deus, falta apenas mandar para publicar”, afirma Ruas.

Divulgação
Carlos Ruas ao lado das tirinhas de ‘Deus’: despretensão que virou lucro


No mundo real, as tirinhas ganharam inclusive uma história longa, inédita no universo virtual: os 40 dias e 40 noites de Noé durante o dilúvio. A história foi escrita para edição em papel e deve ser lançada em breve. Enquanto as editoras rebolam para se adaptar às novas tecnologias e agradar também os consumidores que não se importam em “folhear” um livro virtual, além de ter contato constante com blogs e Twitter, iniciativas como as do site “Clube de Autores” (www.clubedeautores.com.br) podem ser a saída para os que não têm capital para investir em longas tiragens.

Resumidamente, no site, o autor pode fazer um upload da obra que escreveu, divulgar o trabalho e vendê-lo por unidade na página da rede. O produto é impresso conforme a demanda. “Quando se cadastra no site e coloca as especificações da obra, o autor recebe um orçamento de quanto custa cada unidade. A partir disso, ele estabelece quanto quer ganhar de direitos autorais e, conforme os exemplares são vendidos, os valores são repassados para o autor”, explica o sócio diretor do “Clube dos Autores”, Indio Brasileiro Guerra Neto.

Com a dificuldade de conseguir chamar a atenção das grandes editoras, alguns escritores encontram na iniciativa do “Clube dos Autores” uma maneira de alavancar a carreira. Nesses casos, o site se torna uma espécie de vitrine. “Temos autores que tiveram uma chance depois de publicar o livro no site, como há casos de escritores que já têm livros publicados e usam o ‘Clube de Autores’, pois entendem que o processo é mais claro e justo do que o realizado em grandes empresas do ramo”, diz Ricardo Almeida, diretor geral da iniciativa.

Confira abaixo tirinhas de ‘Deus’:

Reprodução




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